
Terminal de GNL de Ras Laffan, no Qatar, em 2012
A Europa terminou julho com os depósitos de gás pouco acima de metade da capacidade, longe da meta de 90% até 1 de dezembro. Em Portugal, as tarifas do gás sobem 6,4% a 1 de outubro e a eletricidade para entrega nos próximos meses continua a ser negociada acima dos 90 euros por MWh até dezembro.
Praticamente nenhuma molécula de gás natural consumida em Portugal atravessa o Estreito de Ormuz.
A Entidade Nacional para o Setor Energético afirmou em março que as importações nacionais não estavam expostas ao Estreito de Ormuz e que o país dispunha de reservas energéticas para cerca de 93 dias.
Só que a segurança física do abastecimento e o preço da fatura são duas coisas diferentes, e é na segunda que Portugal está exposto.
O choque agravou-se a 18 e 19 de março, quando mísseis iranianos atingiram Ras Laffan, o maior complexo de liquefação do mundo. Duas das catorze unidades de liquefação ficaram destruídas. Tinham uma capacidade conjunta de 12,8 milhões de toneladas por ano, cerca de 17% da capacidade de exportação do Qatar.
O presidente da QatarEnergy, Saad al-Kaabi, estimou entre três e cinco anos para as reparações e uma perda anual de receitas estimada em 20 mil milhões de dólares.
A empresa declarou força maior (cláusula contratual que permite a uma empresa suspender temporariamente as suas obrigações) em contratos de longo prazo com clientes em Itália, Bélgica, Coreia do Sul e China, e prolongou-a para compradores europeus até, pelo menos, ao final de Setembro.
O resultado é um verão em que a Europa reabasteceu os armazenamentos muito mais lentamente: terminaram julho pouco acima dos 55% da capacidade, abaixo da média de cinco anos, quando a meta europeia é chegar aos 90% entre 1 de outubro e 1 de dezembro, embora as regras admitam flexibilidade em condições adversas.
O melhor cenário da consultora Wood Mackenzie é chegar a novembro com 75%. “Vai ser um inverno duro, ponto final”, resumiu à Fortune David Lewis, analista sénior de gás e GNL da consultora, que acrescenta que Europa e Ásia ganharam uma falsa sensação de segurança na primavera, quando o tempo ajudou.
Segue-se aquilo a que os analistas chamam, sem grande delicadeza, um leilão. Com poucas cargas disponíveis, europeus, asiáticos e norte-africanos licitam uns contra os outros.
A Europa paga e leva. Os que ficam para trás são o Bangladesh e o Paquistão, sem capacidade financeira para superar as ofertas europeias, e onde Lewis admite falhas temporárias de rede.
Numa semana de julho, o preço spot europeu subiu perto de 26%, segundo a Rystad Energy, enquanto o norte-americano ficou estável. O preço de referência europeu chegou a valer mais de sete vezes o dos Estados Unidos.
É por aqui que a guerra chega a Sines. O terminal assegurou 98% do abastecimento nacional em 2024, com a Nigéria a valer 52% e os Estados Unidos 40%.
Nada vem do Golfo Pérsico, mas tudo é comprado num mercado mundial cujo preço de referência subiu, em parte, devido à quebra das exportações do Qatar.
Portugal não tem alternativa de gasoduto: a ligação a Espanha é residual (apenas 2% do abastecimento) e o armazenamento subterrâneo do Carriço garante cerca de 35 dias de consumo.
A conta chega em duas parcelas. No gás, a ERSE aprovou em junho um aumento de 6,4% nas tarifas do mercado regulado para o ano gás que arranca a 1 de outubro — contra 1,5% no ano anterior.
O regulador avisou, porém, que qualquer previsão está sujeita a incerteza elevada e que poderá rever os custos de aquisição. O cálculo foi feito antes do pico de julho.
Na electricidade, o efeito é mais imediato: em julho, o preço grossista médio da eletricidade em Portugal atingiu 106,98 euros/MWh, o mais alto do ano, com um pico nocturno de preço horário de 220 euros.
Ao anoitecer, quando o solar desaparece, são as centrais a gás que fixam o preço. E o gás europeu está caro.