A desigualdade não apenas agrava os efeitos das pandemias, mas também dificulta seu controle, afirma novo relatório da Unaids debatido na AIDS 2026. Entre as propostas estão a flexibilização de patentes e a ampliação da produção de medicamentos nos países do Sul Global

Imagem: Getty Images

Para superar o HIV/aids, novas tecnologias e medicamentos para prevenção e cura são de extrema importância, e segue urgente a luta para que sejam distribuídos para todos. Mas, durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), uma sessão especial abordou um outro aspecto menos debatido: sem combater a desigualdade, essa e outras pandemias não serão superadas.

Na mesa estavam presentes alguns dos responsáveis pelo relatório Rompendo o ciclo da desigualdade-pandemia, lançado pela Unaids no final de 2025: Joseph Stiglitz, Nobel de economia e professor da Universidade Columbia, Nísia Trindade, ex-ministra da Saúde do Brasil, Matthew M. Kavanagh, conselheiro especial do diretor executivo da Unaids e Javier Padilla, do Ministério da Saúde da Espanha. 

Imagem: Outra Saúde

A correlação entre maior índice de desigualdade e mortes na pandemia de covid está registrada em diversos gráficos que aparecem no relatório – não só entre países, mas também há diferenças dentro deles, em regiões onde há populações mais ou menos vulneráveis. Isso significa, portanto, que o mundo torna-se cada vez mais perigoso, uma vez que a desigualdade global aumenta a cada ano. Segundo dados citados por Stiglitz, enquanto o 1% mais rico do planeta detém 41% da riqueza total, os 50% mais pobres acessam apenas 1% dela.

“Enquanto a desigualdade torna as pandemias mais persistentes, as pandemias atingem os mais pobres com mais força, aumentando assim a desigualdade”, sintetizou o economista. Essa dinâmica age de forma contraintuitiva: a pandemia de covid mostrou que os países supostamente mais bem preparados para lidar com a doença não foram os que tiveram melhores resultados sanitários. Um exemplo: segundo padrões internacionais, os Estados Unidos poderiam oferecer uma resposta robusta à crise – mas figuram entre os países que mais sofreram com ela.

Pensando em como lidar com esses problemas de forma mais satisfatória, Kavanagh citou a importância dos programas de transferência de renda. Em pandemias como a de covid, por exemplo, em que é necessário distanciamento social para conter a disseminação do vírus, é preciso garantir que as populações mais vulneráveis possam ficar em casa. Como aconteceu no Brasil e em muitos outros países, lembra ele, os mais pobres viram-se obrigados a sair para garantir o sustento de sua família – e, também por isso, morreram mais.

O relatório da Unaids mostra ainda que é preciso combater a desigualdade no acesso a fármacos que podem conter pandemias, e uma das medidas é a reformulação do modelo de patentes. Seus autores propõem “Renunciar automaticamente às regras globais de propriedade intelectual sobre tecnologia pandêmica quando uma pandemia for declarada”. Essa ação simples e ousada poderia ampliar o acesso, por exemplo, ao lenacapavir, medicamento de ação prolongada para a prevenção do HIV. 

Nísia Trindade, em entrevista recente ao Outra Saude sobre o relatório, chama a atenção para o fato de que também é preciso expandir a capacidade dos países do Hemisfério Sul de produzir esses fármacos. “É fundamental que os países também tenham condições de produção local e regional. Principalmente no caso de produtos que levam mais tempo no desenvolvimento, como vacinas e imunobiológicos. Os países do Sul Global têm que ter condição de produzir seus fármacos”, declarou.

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