Os Estados Unidos — e a sua ajuda quer à Ucrânia quer a Israel — não são o único elo de ligação entre os dois conflitos. Do lado oposto da barricada, também a Rússia e o Irão se têm apoiado mutuamente no esforço de guerra. E foi este apoio que, no passado domingo, resultou num ataque da Ucrânia a um navio iraniano no mar Cáspio, abrindo um novo capítulo na sobreposição das guerras. O ataque alimentou medos de um alargar dos dois conflitos a um palco de guerra comum, na região do Cáucaso, mas a comunicação diplomática entre Kiev e Teerão rapidamente pôs um ponto final a essa possibilidade.
Ainda assim, é possível fazer uma leitura mais complexa deste incidente — que tudo indica que tenha sido isolado — no contexto das duas guerras. A um nível ainda mais macro, o ataque coloca a nu uma realidade sobre a qual os especialistas se têm debruçado ao longo dos últimos anos: a forma como a globalização transformou as guerras regionais em problemas globais, que raramente se limitam aos países em confronto.
No passado sábado, na sua comunicação diária ao país, Volodymyr Zelensky dava conta de “resultados muito bons nos ataques de longo alcance no Mar Cáspio — incluindo um navio utilizado em remessas de material envolvendo o Irão, assim como um navio militar”. No dia seguinte, o Irão denunciava um ataque “hostil”, “criminoso” e “irracional” com um drone ucraniano contra um navio comercial iraniano, que saíra do porto russo de Astrakhan com destino a Anzali, no Irão, com um carregamento de ferro. O ataque matou um trabalhador do barco, um civil, e deixou outros três feridos.
Em resposta, Teerão convocou o embaixador ucraniano. O regime iraniano terá ponderado ainda atacar um porto ucraniano no mar Negro com um míssil balístico, avançou o New York Times, que cita responsáveis iranianos e ocidentais. “O Irão ladra mais do que morde, no que diz respeito à Ucrânia”, afirmou Nate Swanson à RFL/RE. O antigo diretor para o Irão no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca durante a administração de Joe Biden não excluía a possibilidade de um ataque “simbólico”, mas argumentou que Teerão não tem qualquer desejo de abrir uma nova frente de guerra.