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‘Anopheles stephensi’ já alcançou países do leste e oeste da África Jim Gathany/Wikimedia Commons
Uma espécie de mosquito que transmite malária está ocupando novas regiões da África em um ritmo considerado rápido por especialistas. Além de conseguir viver em áreas urbanas e rurais, o inseto apresenta alterações genéticas que o tornam capaz de sobreviver aos principais inseticidas usados atualmente para combatê-lo.
A descoberta faz parte de um estudo publicado na revista Science, baseado em amostras recolhidas em dez países. A análise revelou que os exemplares encontrados no continente possuem genes associados à resistência a praticamente todos os inseticidas usados em campanhas de controle.
A trajetória do Anopheles stephensi começou no Djibuti, onde foi identificado por volta de 2013. Desde então, ele alcançou países do leste e do oeste africano e passou a ocupar ambientes bastante diferentes daqueles onde as autoridades estavam acostumadas a enfrentar a transmissão da doença.
Uma reportagem do The New York Times mostra que essa característica é uma das principais razões para a preocupação. O inseto não depende das estações chuvosas para se reproduzir e consegue prosperar em centros urbanos, onde milhões de pessoas podem estar pouco expostas à malária e, portanto, sem imunidade suficiente contra formas graves da infecção.
O risco já apareceu no Djibuti. Antes da chegada do Anopheles stephensi, o país estava próximo de eliminar a doença: em 2012, foram registrados apenas 27 casos. Um ano depois, o número chegou a quase 1.700. Em 2020, ultrapassou 70 mil.
Na Etiópia, a presença do vetor também coincidiu com um aumento dos registros. Em Dire Dawa, profissionais de saúde tiveram dificuldade inicialmente para compreender o crescimento dos casos, já que a cidade não estava acostumada a lidar com a doença naquela escala.
A capacidade de deslocamento do inseto também chama atenção. Segundo a análise genética, a população identificada no Djibuti se dividiu em diferentes rotas e alcançou a Etiópia, o Quênia, o Sudão, o Iêmen e, posteriormente, áreas do Sahel. A distância percorrida pode chegar a 480 quilômetros por ano.
No Níger, a descoberta ocorreu quase por acaso. Estudantes que analisavam amostras coletadas em lagoas próximas à cidade de Zinder identificaram exemplares que não eram conhecidos naquela região. Para confirmar o resultado, parte do material foi levada até um laboratório na Nigéria.
O problema ocorre justamente quando os programas de combate à doença enfrentam restrições financeiras. A redução de recursos diminuiu a capacidade de monitoramento em vários países, dificultando a identificação de novas áreas ocupadas pelo inseto e a definição de onde concentrar medidas de prevenção.
Conflitos armados tornam a tarefa ainda mais complicada. No Sudão, por exemplo, pesquisadores perderam acesso a regiões que deveriam ser acompanhadas. No Iêmen, cientistas encontraram larvas em recipientes de água dentro de moradias e acampamentos de pessoas deslocadas pela guerra.
Há ainda o temor de que o Anopheles stephensi já tenha alcançado outros territórios sem ser detectado. Chade, Somália, Eritreia e Sudão do Sul estão entre os países citados pelos especialistas ouvidos pelo NYT, mas possuem estruturas limitadas para realizar esse tipo de vigilância.
Para os cientistas, a combinação entre crescimento das cidades, deslocamentos provocados por conflitos, mudanças climáticas e falta de recursos criou condições favoráveis para o inseto.
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