Francisco exortou-os a percorrer as ruas digitais, “repletas de humanidade, muitas vezes ferida: homens e mulheres que procuram a salvação ou a esperança.” Replicando o desafio de Jesus – “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura” – o papa argentino convocou a Igreja para uma “saída missionária” nova, e atenta a diferentes fluxos sócio-digitais, para aí “tecer laços” e “construir comunidades”, traçando o retrato dos novos missionários.

Não se trata de uma marca comercial, partido político ou ONG. “Nós, cristãos,” escreveu num tweet de 2018, “não temos um produto para vender, mas uma vida para comunicar”.

Leão XIV, o sucessor de Francisco, recua em 2025 aos pescadores apóstolos fundadores da Igreja Católica para convocar estes missionários à construção de “redes de amor”: “Onde se possa consertar o que está partido, curar a solidão, redes que salvem”. Acrescentando: “Sem se importar com o número de seguidores”.

O que leva à pergunta: quais os critérios para avaliar a missão da Igreja no meio digital? Que métricas seguir?

Procura-se equilíbrio, difícil, sob pena de contradição: como pode um evangelizador, enquanto discípulo-missionário de Jesus de Nazaré ter a tentação da fama, dos likes, da monetização e mercantilização?

Não pode, diz o Vaticano. São chamados a ser, por isso, contra corrente. Contra-influenciadores digitais, nome sugerido, passados mais de 2000 anos, com o desafio de lançar redes em águas agora muito mais profundas. Foram mais de mil, entre sacerdotes, religiosos e leigos, os que estiveram reunidos no primeiro encontro dedicado aos missionários digitais católicos, em Roma, iniciativa que faz parte do Jubileu, período de reflexão e penitência de um ano organizado pela Igreja a cada quarto de século.

Entre os participantes do evento de 28 e 29 de julho passado, um português. Combina oração e Evangelho com poesia, arte, humor. Com alegria. O jesuíta Paulo Duarte, 45 anos, a quem chamam padre do lenço, em virtude de uma longa coleção de cachecóis e foulards jamais usados ao acaso. Outro, Pedro Figueiredo, vigário de 5 mil fiéis, com presença digital cheia de graça e humor, participou no Jubileu dos Jovens.

Ambos, partilham mensagens de fé ou de reflexão, notas, episódios ou memórias pessoais – por vezes provocatórias, por vezes irónicas, sempre concisas. Sem longos sermões. Dizia São João Crisóstomo: “O sacerdote deve ser circunspecto e perspicaz”. Paulo e Pedro apostam apenas na segunda. Ambos com milhares de seguidores, começaram “nisto” por brincadeira “Pena que ainda somos tão pouco”, lamenta Pedro Figueiredo ao DN.