Travou a queda momentaneamente, mas há outras forças a pesar para a evolução da moeda do Japão. Como diz Ricardo Evangelista, “historicamente, as intervenções cambiais apenas compram tempo“. Mas, acrescenta, “a coordenação bilateral entre Washington e Tóquio cria um impedimento credível contra os especuladores de curto prazo”.

Se nesse ponto e de forma temporária a intervenção foi positiva, a tendência não terá ficado consolidada. “O iene só conseguirá estabilizar a longo prazo se houver uma alteração real nos fundamentos macroeconómicos”, realça Ricardo Evangelista, no que é corroborado pela generalidade dos economistas. Também Paulo Monteiro Rosa diz que o sucesso da intervenção no travão à queda do iene é “temporário, caso não se alterem as tendências estruturais da economia japonesa, em particular o envelhecimento e a diminuição da população num país relativamente avesso à imigração”.

Fonte: Trading Economics

O diferencial entre as taxas de juro da Reserva Federal (entre 3,50%-3,75%) e as do Banco do Japão (1% e é a mais alta em 31 anos) ainda é muito alargado, enfraquecendo o iene. Isto apesar das descidas (depois das subidas resultantes da inflação induzida pela guerra na Ucrânia) das taxas de juro nos Estados Unidos e das subidas no Japão (que na reunião da semana passada manteve inalteradas as taxas). O diferencial ainda não ajuda a história do Japão. E a Fed pode voltar às subidas de taxas já na reunião de setembro.

“Caso a inflação americana obrigue a Fed a manter os juros altos por mais tempo, ou até a aumentá-los, o efeito desta intervenção diluir-se-á rapidamente”, sugere Ricardo Evangelista, acreditando que só uma “aproximação das políticas monetárias (uma descida de taxas nos EUA ou um aperto monetário no Japão) retirará pressão ao iene, permitindo que a divisa recupere organicamente de forma mais sustentada”.

Paulo Monteiro Rosa volta a colocar a tónica nos fatores macro: “Apesar da subida das taxas de juro japonesas e da redução do diferencial face aos EUA, a moeda continua pressionada por fatores estruturais da economia nipónica, nomeadamente o envelhecimento e a diminuição da população, o fraco crescimento económico e a pouca abertura à imigração. Sem alterações destes fatores, poderão ser necessárias novas intervenções para sustentar o iene. Ao mesmo tempo, a persistência de um iene fraco continua a favorecer operações de carry trade, mantendo pressão adicional sobre a moeda japonesa”.

O carry trade é quando os investidores fazem arbitragem entre ativos. Pedem empréstimos no Japão, em ienes, cujas taxas são baixas o que resulta em custos de financiamento reduzidos. Convertem ienes em dólares e investem em ativos dolarizados, como obrigações do Tesouro dos Estados Unidos ou ações, com maiores rentabilidades. Está, por isso, sempre a haver oferta de ienes, pressionando a moeda em baixa e o investidor ganha com a diferença de taxas — entre a que paga o empréstimo e a que recebe pelo investimento dos ativos.

Por isso, enquanto esse diferencial de taxas existir, o iene continuará pressionado. Henrique Tomé, da XTB, realça que “as expectativas sobre as taxas de juro, sobretudo no Japão, continuam a ser determinantes para a tendência do iene nos mercados internacionais”. “O BoJ (Bank of Japan) tem estado a normalizar a sua política e os mercados continuam a prever novos aumentos dos juros este ano, se a inflação e os salários o justificarem; ainda assim, esse movimento não chega para eliminar o diferencial, que continua a justificar a pressão vendedora sobre o iene”.

Com o iene sempre na corda bamba, o Japão terá de continuar a intervir no mercado para o sustentar. Estas intervenções por parte do país têm sido frequentes, mas agora teve de se juntar os Estados Unidos.

“Temos um bom relacionamento com o Japão. Somos muito fortes — muito, muito fortes financeiramente — e eles têm um iene enfraquecido e quiseram um pouco de ajuda. E nós estamos sempre cá para o Japão. O Japão tem sido muito bom para nós, com a exceção, claro, de Pearl Harbor”, declarou Trump. A 7 de dezembro de 1941, os japoneses bombardearam a base naval norte-americana em Pearl Harbor, no Havai, empurrando os Estados Unidos para a Segunda Guerra Mundial.

Dizendo ter sido “um sinal de amizade”, Trump assumiu que os Estados Unidos beneficiaram com a intervenção que, também, traz vantagens “à economia mundial”.

Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe, não tem dúvidas de que “Washington agiu para proteger o seu próprio sistema financeiro”. E explica: “Ao segurar o iene, os EUA protegeram o mercado de obrigações americanas e estabilizaram as taxas hipotecárias domésticas, que disparariam caso os japoneses começassem a liquidar ativos globais. A ação foi benéfica para ambas as partes. O Japão obteve o alívio inflacionário de que precisava desesperadamente nas suas importações de energia, enquanto os EUA garantiram estabilidade para o seu mercado de dívida soberana”.

Paulo Monteiro Rosa também acredita que este movimento foi “um win-win. Ao suportarem o iene, os EUA protegem também os seus próprios interesses. Um iene demasiado fraco aumenta a volatilidade nos mercados financeiros, poderá obrigar o Japão a vender parte da sua carteira de Treasuries [dívida pública norte-americana] para financiar novas intervenções cambiais e dificulta alguns objetivos da política económica norte-americana”. Uma maior estabilidade cambial beneficia, por outro lado, os mercados financeiros, reduzindo o risco de movimentos desordenados. As flutuações do iene têm forte impacto nas moedas dos vizinhos asiáticos, nomeadamente no won sul-coreano.

A intervenção parece ter-se ficado, neste caso, apenas pelo mercado cambial, através da venda de euros para compra de ienes pela Fed de Nova Iorque, não existindo qualquer referência a compras ou vendas de Treasuries ligadas a esta operação.

Só que o temor dos Estados Unidos é precisamente esse. É que o Japão é atualmente o investidor estrangeiro com mais títulos de dívida pública dos Estados Unidos. E com este movimento os Estados Unidos acabaram por travar eventuais vendas de Treasuries (obrigações norte-americanas) pelo Japão, o que iria pressionar, por seu lado, os custos de financiamento dos Estados Unidos já de si altos.

O Japão tem cerca de 1,14 biliões de dólares investidos em Treasuries, consolidando a posição cimeira depois de a China começar a reduzir a sua exposição. Mas não só. O Japão terá cerca de 1,2 biliões de dólares em ações e mais de 300 mil milhões em dívida corporativa norte-americana.

Uma desvalorização persistente do iene “poderá obrigar as autoridades japonesas a vender parte dessa carteira [especialmente de dívida pública americana] para financiar futuras intervenções cambiais. Esse cenário aumentaria a oferta de dívida norte-americana no mercado, pressionando em alta as yields e encarecendo o financiamento do governo norte-americano”, realça Paulo Monteiro Rosa recordando que são, no entanto, os investidores norte-americanos a deter a maior parte da dívida pública dos EUA de 40 biliões de dólares. O Japão representa apenas 3% dessa dívida. Ainda assim, com a intervenção, verificou-se um alívio nos juros da dívida pública norte-americana. “Os EUA evitaram assim uma subida das yields das suas obrigações, que iria encarecer os custos de financiamento da sua economia”, salienta Ricardo Evangelista.

Na semana passada as taxas de juro da dívida norte-americana a 30 anos atingiram o nível mais elevado desde 2007.