Um espirro, uma gargalhada, um ataque de tosse. Situações banais do dia a dia, mas que, para muitas mulheres, podem traduzir-se em episódios de perda involuntária de urina. E em vergonha.

A incontinência urinária é uma realidade comum a milhares de mulheres, que continua a ser vivida em silêncio e embaraço, prejudicando a qualidade de vida, sobretudo nas mulheres acima dos 50 anos. No entanto, esta não tem de ser uma consequência inevitável da idade: é, isso sim, uma condição de saúde com tratamento. Só que é necessário virar costas à vergonha para dar o primeiro passo: procurar ajuda.

61%

das mulheres portuguesas com mais de 50 anos já teve episódios de incontinência urinária

Foi a vontade de compreender melhor o impacto da incontinência urinária na vida das mulheres portuguesas, que levou a Ausonia Discreet a promover um estudo nacional sobre o tema, conduzido pela Spirituc – Investigação Aplicada junto de uma amostra de 1.200 mulheres com mais de 50 anos residentes em Portugal. E os números confirmam o que já se esperava: 61% das mulheres portuguesas com mais de 50 anos já teve episódios de incontinência urinária. Um retrato que confirma a elevada prevalência desta condição, mas que também evidencia um paradoxo: continua a ser um problema de saúde sobre o qual ainda se fala pouco e envolto num enorme estigma social.

De acordo com este estudo, os dados mostram que a prevalência da incontinência urinária aumenta com a idade. Entre as mulheres dos 50 aos 54 anos, 57,8% já tiveram episódios; entre os 55 e os 64 anos, a percentagem sobe para 59,4%; e, a partir dos 65 anos, atinge os 64,4%.

A frequência também merece atenção. Para muitas mulheres, não se trata de uma situação pontual: 39% referem perdas de urina pelo menos uma vez por semana e, entre estas, 18% relataram episódios diários.

As situações em que estes episódios acontecem são igualmente reveladoras da forma como a condição se cruza com os gestos mais simples do quotidiano. Tossir ou sentir uma vontade súbita de ir à casa de banho são as circunstâncias mais referidas (65%), seguindo-se os espirros (55,5%).

Apesar de a incidência aumentar com a idade, os resultados do estudo ajudam a desmontar uma ideia ainda muito enraizada: envelhecer não significa ter inevitavelmente de viver com perdas de urina. A condição é frequente, mas isso não a torna uma consequência incontornável da idade.

A incontinência urinária não afeta apenas o corpo. Tem também um impacto profundo na forma como muitas mulheres vivem o seu dia a dia, seja no campo social, profissional e até íntimo.

1 em cada 5

mulheres deixou de fazer atividades de que gostava por causa da incontinência urinária

Os números ganham ainda maior significado quando traduzidos em comportamentos concretos. Uma em cada cinco mulheres deixou de fazer atividades de que gostava por causa da incontinência urinária. Entre as atividades abandonadas destacam-se o exercício físico (38,3%), os passeios (24,2%) e os convívios (10,1%).

A condição acaba, assim, por limitar rotinas, reduzir momentos de lazer e favorecer o isolamento. A vergonha continua a ser um dos principais fatores que alimenta este silêncio: entre as mulheres que nunca falaram sobre os episódios, quase metade admite sentir desconforto em abordar o tema.

A incontinência urinária é uma condição amplamente conhecida. Segundo este estudo, 98,3% das mulheres dizem conhecer esta condição e 89% afirma saber que existe tratamento. Ainda assim, metade das mulheres com incontinência urinária nunca procurou ajuda profissional.

29%

das mulheres nunca falaram com ninguém sobre os episódios de incontinência urinária que experienciam

Ao mesmo tempo, 29% nunca falaram com ninguém sobre os episódios que experienciam – nem com amigas nem com familiares, preferiram o isolamento do silêncio. Entre estas mulheres, três em cada quatro justificam este silêncio por considerarem que as perdas são pouco frequentes ou simplesmente uma “coisa da idade”. Outras admitem que a vergonha continua a impedir estas conversas.

Os dados revelam, então, que o maior obstáculo já não parece ser a falta de informação, mas antes a resignação e a normalização de um problema feminino que continua a ser encarado como inevitável e “normal”. A pergunta impõe-se então: se tantas mulheres sabem que existe solução, o que continua a impedi-las de dar o primeiro passo rumo a uma vida com mais qualidade onde rir à gargalhada não tem de implicar sentir medo?

Numa condição que continua envolta em vergonha e silêncio, o maior desafio é precisamente quebrar esse silêncio. É necessário entender que falar sobre a incontinência urinária e procurar aconselhamento médico não significa resignação. Bem pelo contrário: significa dar o primeiro passo para recuperar qualidade de vida.

De acordo com este estudo, entre as mulheres que já falaram sobre os episódios de incontinência urinária, 75% escolheram o médico de família. O estudo revela ainda que este profissional é a principal fonte de informação sobre saúde íntima feminina para 74% das inquiridas e o primeiro recurso procurado por 70% dos casos.

Ora, se o problema está identificado e o caminho para a solução também, é fundamental ultrapassar a vergonha e vencer o estigma, para conseguir recuperar uma qualidade de vida à qual todas as mulheres deveriam ter direito.

NOTA: Os dados citados neste artigo provêm de um estudo nacional promovido pela Ausonia Discreet e conduzido pela Spirituc – Investigação Aplicada, com uma amostra de 1.200 mulheres portuguesas com mais de 50 anos (margem de erro: ±2,8%; intervalo de confiança: 95%). O trabalho de campo decorreu entre fevereiro e março de 2026.