Xin-Jian Zhang

Os cientistas confirmaram que uma espécie de planta coberta de pelos pegajosos é carnívora, validando uma hipótese formulada por Charles Darwin há mais de 150 anos.
Em 1875, Darwin publicou um tratado sobre plantas carnívoras no qual sugeria que várias espécies poderiam possuir hábitos insetívoros. Entre elas estavam Saxifraga rotundifolia e Saxifraga umbrosa, cujos tricomas glandulares se assemelham aos encontrados em algumas plantas carnívoras.
Contudo, para ser considerada carnívora, uma planta tem de atrair, capturar, digerir e absorver nutrientes das suas presas. As experiências realizadas por Darwin com espécies do género Saxifraga não conseguiram demonstrar de forma conclusiva que estes requisitos fossem cumpridos.
Um novo estudo, publicado esta terça-feira na Nature Communications, análises laboratoriais e estudos genéticos, concluiu que Saxifraga candelabrum confirma a hipótese do naturalista britânico.
Os investigadores demonstraram que a planta atrai, captura, digere e absorve nutrientes das suas presas, tornando-se a primeira espécie carnívora confirmada da família Saxifragaceae e, até ao momento, também da ordem Saxifragales.
A carnivoria vegetal evoluiu várias vezes de forma independente ao longo da evolução das plantas com flor e permite às plantas obter nutrientes essenciais, como azoto e fósforo, em ambientes onde o solo é pobre nestes elementos.
Segundo o The New York Times, os investigadores utilizaram recintos de rede e vidro para demonstrar que a planta atrai insetos através de um odor libertado pelas flores. Verificaram ainda que a captura é seletiva.
Os tricomas glandulares retêm sobretudo pequenos insetos, como mosquitos, enquanto as moscas de maiores dimensões, responsáveis pela polinização das flores, raramente ficam presas.
Numa segunda fase, a equipa aplicou um reagente fluorescente capaz de revelar a atividade de enzimas digestivas. Os tricomas da planta emitiram fluorescência, confirmando que estava a ocorrer digestão ativa das presas.
Por fim, para determinar se a planta absorvia efetivamente os nutrientes resultantes da digestão, os investigadores alimentaram-na com moscas enriquecidas com um isótopo estável de azoto e analisaram posteriormente os seus tecidos.
A S. candelabrum demorou cerca de duas semanas a digerir as moscas. Após esse período, os cientistas detetaram o isótopo de azoto nos tecidos da planta, confirmando que os nutrientes provenientes das presas tinham sido absorvidos.
A descoberta faz de S. candelabrum a primeira espécie carnívora confirmada na família Saxifragaceae. Os investigadores consideram que existem centenas, ou mesmo milhares, de espécies com tricomas pegajosos semelhantes que poderão justificar investigação adicional para determinar se também apresentam formas de carnivoria ainda desconhecidas.