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Correr para apanhar o autocarro, levantar uma caixa de cartão de leite com cada braço ou levar os animais de estimação a passear são acções que, aos 30 anos, não representam um grande esforço para a maioria das pessoas.

Mas aos 70 ou 80 anos, o panorama muda bastante. Os músculos são um dos tecidos que começam a deteriorar-se primeiro com o passar do tempo, o que acarreta uma perda de força. Mais concretamente, as fibras mais afectadas são as de contracção rápida, responsáveis por realizar movimentos céleres e potentes.

Mas esta perda muscular poderá ter os dias contados. Recentemente, uma equipa de investigadores liderada pelo professor Ryuichi Tatsumi, da Faculdade de Agricultura da Universidade de Kyushu (Japão), identificou uma molécula responsável por activar os mecanismos de reparação muscular. E, com algumas pequenas modificações, esta mesma molécula poderá também prevenir o envelhecimento.

A molécula chama-se factor de crescimento hepatocitário, ou HGF, e é uma proteína que, em condições normais, se encontra inactiva à volta das fibras musculares. No entanto, quando o tecido muscular sofre uma lesão ou é submetido a uma carga mecânica durante algum exercício intenso, o HGF é libertado e recruta as chamadas células satélite. Estas células são, na realidade, células estaminais que permitem manter e reparar o músculo esquelético e, sem a acção do HGF, encontram-se inactivas. Mas quando detectam o sinal, multiplicam-se, amadurecem e passam a fazer parte das fibras musculares danificadas. No entanto, na velhice, o sistema começa a falhar.

e56a6a31 da99 4207 820f 4dd5f6c16606O tempo muda tudo

“O HGF não desaparece necessariamente à medida que envelhecemos”, explica Ryuichi Tatsumi, autor do estudo. “Em vez disso, sofre alterações químicas após a sua síntese.” Mais concretamente, como demonstra o estudo, ocorre uma nitração, que consiste na adicção de um grupo nitro (-NO₂) a dois aminoácidos chamados tirosina que compõem o HGF. Assim que a nitração ocorre, o HGF deixa de se ligar eficazmente ao seu receptor e, por isso, embora esteja presente, já não consegue desempenhar a sua função. Os investigadores comparam a proteína danificada a uma chave enferrujada que já não encaixa na fechadura.

Para tal, recorreram a dois dos compostos que estão a suscitar maior interesse na indústria farmacêutica dos antioxidantes: o trissulfureto de glutationa (GSSSG) e o trissulfureto de ácido lipóico (LASSS). A chave destes compostos reside no trissulfureto, ou seja, em moléculas que contêm três átomos de enxofre ligados em sequência. Graças a esta estrutura, as moléculas conseguem reduzir a nitração no HGF e, por conseguinte, poderão aumentar a reparação muscular.

A surpresa surgiu com o LASSS

Durante os primeiros testes, nenhum dos compostos conseguiu restabelecer completamente a capacidade da proteína de se ligar ao seu receptor, mas o LASSS teve um efeito ligeiramente superior à mesma concentração que o GSSSG. Por isso, decidiram duplicar as doses e misturá-lo directamente com a proteína. Então, aconteceu algo inesperado. “Os resultados superaram as nossas expectativas”, comenta Tatsumi. “Sabíamos que os trissulfetos tinham diversas funções biológicas, mas nunca esperávamos que o simples facto de misturar o HGF com o LASSS produzisse um efeito tão marcante.”

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O que observaram foi que o HGF recuperava completamente a sua função e, além disso, tornava-se mais resistente à nitração. “O que isto nos indica é que o LASSS faz mais do que simplesmente neutralizar moléculas reactivas. Pode interagir directamente com o HGF e induzir uma alteração estrutural subtil, criando uma forma melhorada de ‘Super HGF’ que se liga com maior força ao receptor e resiste à nitração”.

E os resultados não se limitavam às células em cultura, mas verificavam-se também no tecido vivo. Quando testaram o composto em ratos com atrofia muscular na cauda, os que receberam o composto recuperaram muito mais cedo do que os que não o receberam. Por isso, dado que o composto tem uma maior capacidade de potenciar a reparação muscular, os investigadores já estão a conceber as próximas experiências, nas quais irão utilizar modelos animais envelhecidos para verificar se este efeito promissor se mantém na velhice murina.

O mais interessante deste estudo é que, por se tratar de um mecanismo tão conservado nos mamíferos, este tipo de terapias tem um grande potencial, tanto em seres humanos como em animais de companhia, para tratar os problemas musculares que surgem com a idade. Assim, correr para apanhar o autocarro, levantar duas embalagens de leite ou passear com os animais de estimação poderão voltar a ser actividades muito mais fáceis.