Tekever

Plataforma AR3-EVO da Tekever

Nenhum país fabrica tantos drones militares como a Ucrânia, diz Volodymyr Zelenskyy. E, mesmo assim, Kiev continua a contar com os AR3 da portuguesa Tekever para uma parte da guerra. Parece contradição. Não é.

Há uns dias, o ZAP deu a notícia de que a Rússia dizia ter abatido um drone de reconhecimento ucraniano AR3, fabricado pela portuguesa Tekever, na região fronteiriça de Briansk, junto à Ucrânia.

A Tekever fornece estes drones à Ucrânia desde 2022, através de um fundo internacional liderado pelo Reino Unido, e a própria empresa, embora “muito limitada na informação” que podia transmitir, confirmou o seu envolvimento em 2023.

Também tem sido notícia frequente no ZAP a forma como a Ucrânia mudou a face da guerra, ao mostrar-se capaz de produzir drones em massa, de todos os tipos — montados, se for preciso, por “donas de casa na cozinha a brincar com legos“, como diz o CEO da alemã Rheinmetall.

Mas então, porque precisa dos portugueses da Tekever?

A palavra é a mesma, “drone“, mas serve para coisas muito diferentes — no preço, no tamanho e naquilo que fazem. Das fábricas ucranianas saem sobretudo aparelhos pequenos e baratos, os FPV, feitos para atingir um alvo e desaparecer com ele.

O AR3 é o oposto: descola, cumpre a missão e volta para casa (se não for abatido, como parece ter acontecido há dias). Passa horas no ar à procura de alvos e depois entrega-os à artilharia e aos mísseis.

Onde a Ucrânia domina é na quantidade. Os drones da Tekever trazem outras valias, que não se contam pelo número de aparelhos.

Volodymyr Zelenskyy garantiu, a 15 de julho, que o país já fabrica dez milhões de drones por ano, e que quer chegar ao dobro, com a ajuda dos parceiros europeus.

Um responsável do programa de drones do Pentágono, citado pela Reuters, calcula que só os FPV ucranianos cheguem a seis ou sete milhões este ano. É mais do que os Estados Unidos conseguem fazer.

FPV é a sigla inglesa de “visão na primeira pessoa“: o operador pilota o aparelho como se fosse a bordo, através de uma câmara montada à frente. Custa uma fração de um míssil, leva normalmente explosivos e, quase sempre, fica destruído no impacto.

Só em 2025, as tropas ucranianas receberam três milhões destes drones. Em junho, o Ministério da Defesa dava conta de que 95% dos que a sua agência compra já saem de fábricas ucranianas.

Os “olhos” que encontram os alvos

A guerra do AR3 é outra: não vai contra um tanque ou trincheira. Fica no ar, durante horas, a vigiar uma área enorme: localiza posições, segue movimentos, aponta coordenadas. É o olho que encontra o alvo, que depois entrega aos “drones baratos”, à artilharia ou aos mísseis.

A bordo, cabe quase tudo: câmaras de alta resolução, sensores térmicos, radares, equipamento para apanhar as comunicações do inimigo. Descola sem pista e aguenta-se no ar mesmo quando o GPS e as ligações estão a ser empastelados.

A versão mais recente, o AR3 EVO em configuração convencional de asa fixa chega às 22 horas de voo e mantém ligação a 230 quilómetros, garante a Tekever.

Estes drones são substancialmente mais caros, mas são normalmente reaproveitados, missão após missão. Não estão a competir com os milhões de FPV montados na Ucrânia: são complementares.

Nos contratos conhecidos, não é Kiev que compra à Tekever: as aquisições são feitas pelo Reino Unido para entrega à Ucrânia.

Desde o início da invasão, o Reino Unido já encomendou à empresa cerca de 270 milhões de libras (315 milhões de euros) em drones para entregar aos ucranianos. Parte desse dinheiro vem de outros países, através de um fundo internacional montado para apoiar a Ucrânia.

A Tekever diz que o AR3 já passou das 10 mil horas de voo em combate na Ucrânia e que a guerra obrigou a mais de cem alterações no aparelho.

O balanço é simples. De um lado, a quantidade e a rapidez ucranianas. Do outro, uma máquina que não se improvisa numa fábrica montada à pressa. Não competem: fazem falta os dois.