A Ucrânia quer o que sempre quis, a diferença é que agora há mais gente a querer
Depois da vitória na Turquia que o presidente dos Estados Unidos rapidamente transformou em derrota, a Ucrânia vê na NATO uma esperança renovada de ter algo que precisa “urgentemente”.
Com a Rússia a insistir numa lógica de ataques maciços com combinações mortais de mísseis e drones, as defesas antiaéreas da Ucrânia estão perante uma pressão que ainda não se tinha visto.
E se a cimeira da NATO em Ancara acabou com uma surpreendente promessa de Donald Trump de permitir a produção de intercetores Patriot em solo ucraniano, o último flick flack do presidente dos Estados Unidos funcionou como um tirar do pão da boca à Ucrânia.
Agora, e numa altura em que também vão ocorrendo episódios no seu próprio território – caiu um míssil na Polónia e foi encontrado um drone com explosivos num aeroporto da Alemanha -, a NATO tenta chegar-se à frente para fazer vezes da promessa norte-americana e conseguir suprir as tais “necessidades urgentes”.
De acordo com o secretário-geral da Aliança Atlântica, tudo está a ser feito para dar à Ucrânia aquilo que é preciso. Quão preciso? Basta ver que a Ucrânia não conseguiu abater um único míssil no mais recente ataque a Kiev, sendo que Volodymyr Zelensky já avisou que a Rússia se prepara para aumentar a produção de mísseis para o inverno.
O presidente da Ucrânia admite que a demora na entrega de mais armamento também serve para fazer com que Kiev tenha outro nível de “compromisso” para falar sobre uma eventual paz com a Rússia. E isso é algo que Volodymyr Zelensky parece disposto a trocar.
“É importante ultrapassar as barreiras e tomar as decisões políticas necessárias. Literalmente todos os dias as vidas das pessoas na Ucrânia dependem da resiliência dos nossos parceiros na Europa e nos Estados Unidos”, afirmou depois de uma reunião com Mark Rutte.
Na memória do presidente da Ucrânia estavam os 24 mísseis balísticos que ajudaram a matar 17 pessoas em Kiev de terça para quarta-feira. Os dados preliminares da Força Aérea ucraniana indicam que foram abatidos 98 dos 115 drones lançados, mas os mísseis passaram todos.
Na ótica de Volodymyr Zelensky isso tem de estar relacionado com a quebra no fornecimento de material defensivo. De acordo com o próprio, a chegada de mísseis defensivos na primeira metade de 2026 foi cerca de um terço da vista no mesmo período em 2025.
Com a Rússia a tentar aumentar a capacidade de produção e de lançamento de mísseis, a Ucrânia admite mesmo que Moscovo se esteja a preparar para poder lançar 100 mísseis balísticos todos os meses para atacar infraestruturas logísticas, industriais e outros componentes de apoio militar.
“A guerra de atrito entrou numa nova fase”, avisou o conselheiro do presidente da Ucrânia para o desenvolvimento da tecnologia de defesa, Serhii Beskrestnov, numa mensagem publicada no Telegram.
A falha é particularmente grave em relação aos Patriot, algo que Volodymyr Zelensky entende ser, pelo menos em parte, justificado pela guerra no Médio Oriente, que passou a ser o principal foco dos Estados Unidos este ano.
Notícias recentes já apontaram que as Forças Armadas norte-americanas estão a começar a ter dificuldades em garantir stock para as suas próprias necessidades – a agência Associated Press aponta que os níveis de armazenamento caíram pelo menos 65% desde março -, pelo que se torna natural que o envio para os aliados também seja colocado em causa.
Para se perceber a importância destes sistemas, basta ver que são os únicos capazes de intercetar mísseis Iskander-M, S-400 ou, ainda mais relevante, mísseis Zircon, uma das coqueluches de Vladimir Putin.
O problema agora é que a Ucrânia não pode esperar, mas há mais quem precise destas armas. A Lockheed Martin já avisou que tem capacidade de produzir dois mil por ano até 2030, mas basta ver que só os Estados do Médio Oriente já dispararam mais de 1.100 Patriot em três meses de guerra para perceber a escassez que todos enfrentam.