A necessidade desta transformação surgiu depois de a Ucrânia ter conseguido reduzir significativamente a eficácia dos drones russos

A Rússia conseguiu transformar grande parte da sua frota de drones em armas praticamente imunes às interferências eletrónicas ucranianas, recorrendo a tecnologia fornecida pela China.

A conclusão é de uma investigação conduzida por Tatarigami, fundador do grupo de análise ucraniano Frontelligence Insight, citado pelo Euromaidan, que considera Pequim um elemento decisivo para a continuidade da ofensiva aérea russa.

Segundo a análise, Moscovo alterou profundamente a forma como utiliza os seus drones após enfrentar dificuldades causadas pelos sistemas de guerra eletrónica desenvolvidos pela Ucrânia.

Os pequenos drones FPV (first-person-view) passaram, em grande parte, a utilizar cabos de fibra ótica para transmitir sinais, eliminando a necessidade de comunicações por rádio e tornando-os praticamente impossíveis de bloquear. Já os drones de ataque de maior alcance, que não podem recorrer à fibra ótica devido à distância que percorrem, foram equipados com redes de rádio em malha (“mesh”), muito mais resistentes às tentativas de interferência.

A necessidade desta transformação surgiu depois de a Ucrânia ter conseguido reduzir significativamente a eficácia dos drones russos. Desde 2022 e 2023, a maioria dos aparelhos utilizava comunicações sem fios ou navegação por satélite, vulneráveis aos sistemas de bloqueio eletrónico produzidos por empresas ucranianas. Em combinação com armas convencionais, redes de proteção e outras defesas, estas tecnologias limitaram o impacto das ofensivas russas.

A mudança ganhou força na primavera de 2025, durante a contraofensiva russa na região de Kursk, no oeste da Rússia. O grupo de drones Rubicon Center utilizou drones FPV com fibra ótica para destruir ou danificar centenas de veículos ucranianos em poucas semanas, contribuindo para a retirada das forças de Kiev.

Atualmente, a Rússia lança cerca de 10 mil drones FPV por dia e, em setores considerados estratégicos, 60% destes aparelhos já utilizam fibra ótica, de acordo com Tatarigami.

Embora estes drones continuem a poder ser abatidos ou travados com barreiras físicas, existe uma limitação importante: já não podem ser neutralizados através de interferência eletrónica.

Também os drones de ataque de longo alcance sofreram alterações. Em fevereiro, a Starlink desativou milhares de terminais de satélite que tinham sido contrabandeados ou roubados e que eram utilizados por forças russas para controlar os drones Geran, dos quais Moscovo lança cerca de cinco mil por mês.

Em resposta, os programadores russos aceleraram a adoção de redes “mesh”, nas quais cada drone funciona como um nó de comunicação. Este sistema pode ser alvo de interferência, mas apenas se todos os nós forem bloqueados em simultâneo, tornando essa tarefa muito mais difícil.

A investigação conclui ainda que a indústria russa não consegue produzir internamente todos os componentes necessários para esta nova geração de drones. Perante essa limitação, Moscovo recorreu à China.

Segundo o Washington Post, as exportações chinesas de fibra ótica para a Rússia aumentaram de 190 mil quilómetros em maio de 2025 para 527 mil quilómetros em agosto do mesmo ano, enquanto, nesse período, a Ucrânia recebeu apenas 115 quilómetros. Para as redes de comunicação em malha, a Rússia passou também a depender dos modems XK-F358, produzidos pela empresa chinesa Shenzhen Xingkai Technology.

Para Tatarigami, a Ucrânia e os seus aliados não conseguirão travar estes drones apenas através de sistemas defensivos. O analista defende que a resposta passa por cortar o fornecimento de componentes chineses, alargando as sanções e os controlos de exportação não apenas aos fabricantes de modems, mas também aos produtores de fibra ótica, bobinas e equipamentos associados à sua produção.

Segundo a investigação, o objetivo deve ser atingir toda a cadeia de abastecimento que sustenta a evolução tecnológica dos drones russos.