Universidade Católica Portuguesa

Francisco Carvalho Guerra
Morreu esta quinta-feira, aos 93 anos, uma das figuras maiores da ciência e do ensino superior portugueses. Para gerações de alunos da Universidade Católica do Porto era, simplesmente, Pai Guerra.
Nascido em Braga, na freguesia de São Pedro de Oliveira, a 19 de outubro de 1932, Francisco Carvalho Guerra cedo trocou o Minho pelo Porto, a cidade que adotou e que fez sua.
Concluiu o bacharelato em Farmácia, na Universidade de Lisboa, em 1954, e licenciou-se em Química Farmacêutica, na Universidade do Porto, em 1956. Oito anos mais tarde, doutorou-se em Bioquímica.
Seguiu-se a agregação, em 1970, e uma carreira docente que viria a torná-lo professor catedrático — jubilado, mais tarde, da Universidade do Porto e da Universidade Católica.
Foi na Universidade do Porto que começou a desenhar o que viria a ser o traço distintivo do seu percurso: a convicção de que Portugal precisava de fazer ciência e de fixar cientistas.
Esteve ligado à criação de algumas das unidades de investigação mais reputadas da instituição, com destaque para o Instituto de Biologia Molecular e Celular, e foi vice-reitor da Universidade do Porto entre 1985 e 1991. Cavaco Silva chamou-lhe um “empreendedor académico“.
Mas a obra que o imortalizou foi outra. Como primeiro presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica, cargo que ocupou ao longo de 15 anos, transformou uma instituição incipiente numa universidade de pleno direito.
Dotou o Norte de escolas em áreas até então quase monopolizadas por Lisboa e Coimbra, como era o caso do Direito, e em domínios então inovadores, com a criação da Escola Superior de Biotecnologia e a Escola das Artes.
Quem hoje estuda na Católica do Porto estuda, em boa medida, numa casa que o Pai Guerra levantou.
Foi o primeiro e único bastonário da Ordem dos Farmacêuticos antes do 25 de Abril, presidente da Sociedade Portuguesa de Bioquímica, membro da Academia das Ciências de Lisboa e da New York Academy of Sciences, e representou o país em comités da NATO.
Presidiu ainda à Forestis, prova de que a sua curiosidade não conhecia fronteiras disciplinares. Foi agraciado com a Grande-Oficial da Ordem da Instrução Pública, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, distinções pontifícias da Ordem de São Gregório Magno e a Medalha de Honra da Cidade do Porto.
Tratava alunos, colegas e investigadores como família de uma casa que sentia sua.
A sua presença imponente, gesto largo e voz retumbante escondiam, num primeiro contacto, uma das mais distintivas qualidades do “Pai Guerra”: a extraordinária generosidade, em pequenos e grandes gestos, com que muitas vezes marcou a vida de quem com ele se cruzava.
Deixa a sua casa, deixa a cidade que serviu e deixa um país mais rico em ciência do que aquele que encontrou. Braga viu-o nascer. O Porto chora-o como um dos seus.