Paul D. Maley nasceu menos de 24 horas depois de um eclipse solar total, em maio de 1947. O presságio não podia ser mais claro, mas só se tornou evidente pouco mais de uma década depois quando encontrou um vizinho em San Antonio, no Texas, a manipular um equipamento que nunca tinha visto: um telescópio. Observou a Lua pela primeira vez. Essa experiência “incrível” marcou-o para sempre e, enquanto muitos portugueses e espanhóis vão ter a oportunidade de ver pela primeira vez um eclipse solar total, Paul D. Maley vem à Península Ibérica ver o seu 90.º.
O astrónomo norte-americano identifica-se como um “caçador de eclipses” e, como ele, existem milhares de pessoas que juntam dinheiro para poder acompanhar pelo mundo a trajetória conjunta do Sol e da Lua, em busca da escuridão temporária visível apenas numa curta faixa de totalidade do eclipse. Sempre foi algo “extra” para Paul, que trabalhou durante mais de 40 anos como engenheiro de controlo de voos espaciais no Johnson Space Center, da NASA. Agora reformado, aproveita todas as oportunidades para continuar a aumentar a sua lista que conta com mais de 300 países e territórios já visitados.
Em 79 anos de vida, viu 89 eclipses. Nem todos foram totais, é verdade, e em alguns encontrou o infeliz acaso de o Sol estar tapado não só pela Lua, mas também por um conjunto de nuvens densas. Aliás, foi o que aconteceu em 1970, a primeira vez que decidiu fazer-se à estrada para ver um eclipse total. Paul D. Maley tinha acabado de concluir os seus estudos universitários e decidiu conduzir cerca de 1.500 km, com um amigo, para ver o fenómeno pela primeira vez. “Guiámos aquela distância toda — já nem sei quantas horas foram — e, como seria de esperar, estava encoberto e a chover, sem qualquer hipótese de escaparmos às nuvens”, descreve em entrevista ao Observador.
Depois de uma segunda tentativa no Quebeque que teve o mesmo destino, Paul conseguiu, através de um colega de trabalho que geria uma agência de viagens, liderar um grupo internacional com o objetivo de levar dezenas de pessoas a ver um eclipse na Colômbia. “Fiz isto sem nunca ter visto um eclipse solar total, mas sabia o que tinha de fazer. Já tinha cometido erros suficientes para saber o que fazer”, confessa o astrónomo, admitindo que mesmo nessa viagem a meteorologia se sobrepôs à vontade dos viajantes.
“Mas, em 1979, organizei outro grupo e fomos até ao Canadá para observar um eclipse total, e foi perfeito. Estava um frio terrível, com muita neve, mas correu tudo muito bem”, conta Paul, descrevendo que se sentiu “maravilhoso” após ter experienciado a escuridão, durante dois minutos e 47 segundos. “Passar das experiências anteriores, em que tínhamos ficado sem ver nada por causa das nuvens, para uma que foi perfeita, foi bastante impactante”. E, desde então, nunca mais parou.
Às vezes vai sozinho, outras com a mulher, que conheceu numa destas excursões que organizou, ou então desenha uma rota e traz dezenas — ou centenas — de pessoas para o acompanhar. É o que vai acontecer no dia 12 de agosto, tendo planeado uma viagem para 103 pessoas verem o eclipse solar em conjunto, em Burgos, no norte de Espanha. Mesmo depois de ver este fenómeno 89 vezes, partilha que continua a sentir-se impressionado com a sua magnitude. “Não há dois eclipses iguais e as experiências são sempre completamente diferentes”.
No fim de cada viagem, regista tudo no portal Eclipse Chaser Log, uma plataforma criada por aficionados dos eclipses para os que mais se interessam por esta matéria. Lá, todos os “caçadores de eclipses” registam onde assistiram ao fenómeno, se foi total ou parcial, quanto tempo estiveram na totalidade e até as condições meteorológicas. Nesta plataforma, utilizada pelos maiores entusiastas internacionais, Paul é a pessoa que já viu mais eclipses em todo o mundo.