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Especialistas da USP orientam familiares sobre os sinais iniciais da doença, os riscos da desorientação e as medidas que ajudam a preservar a segurança e a autonomia dos pacientes
Redação
08 Ago 2026 10:15
Na semana passada, um idoso com doença de Alzheimer deixou o hospital onde estava internado, em Ribeirão Preto, e mobilizou familiares e autoridades até ser localizado em segurança poucas horas depois. O episódio chama atenção para um dos principais desafios enfrentados por quem convive com a doença: como preservar a autonomia do paciente sem comprometer sua segurança. O Brasil tem mais de 2 milhões de pessoas com demência, número que pode chegar a 5,5 milhões até 2050. Cerca de 80% dos casos permanecem sem diagnóstico formal. Pesquisa Datafolha mostra que persistem mitos sobre a doença: 68% consideram a perda de memória natural do envelhecimento e apenas 27% afirmam buscar informações sobre Alzheimer. Nesta entrevista, o neurologista Vitor Tumas, professor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), e o geriatra Julio Cesar Moriguti, professor da Divisão de Geriatria da FMRP-USP, explicam os sinais iniciais do Alzheimer, os riscos da desorientação e os cuidados que familiares e cuidadores devem adotar para prevenir desaparecimentos e acidentes.
O Alzheimer costuma apresentar quais sinais iniciais, e em que momento a família deve procurar avaliação médica?
Dr. Júlio Cesar: Os primeiros sinais costumam ser esquecimentos frequentes que começam a atrapalhar a rotina. Essa rotina seria repetir as mesmas perguntas, esquecer compromissos importantes, perder objetos com frequência ou até ter dificuldade para acompanhar conversas e até realizar tarefas que antes eram simples. A família deve procurar avaliação médica quando perceber que esses esquecimentos deixam de ser ocasionais e passam a interferir na vida diária. Então, quanto mais cedo o diagnóstico for feito, maiores são as chances de iniciar o tratamento, controlar os sintomas e planejar os cuidados necessários.
Dr. Vitor: O sintoma mais comum na doença de Alzheimer é a queixa de falha de memória e a falha de memória recente. Ou seja, a pessoa fica com dificuldade para registrar coisas novas. Esquece coisas de há pouco tempo e não antigas, por exemplo, esquece onde guardou um objeto, esquece que disse algo e conta a mesma coisa repetidas vezes. Claro que isso pode ser uma queixa entendida como comum do envelhecimento, mas no envelhecimento há mais uma sensação de que você não tem mais a mesma memória que antes, mas não chega a ser algo tão grave.
Muitas pessoas associam o Alzheimer apenas à perda de memória. Quais outros sintomas podem indicar a progressão da doença e comprometer a autonomia do paciente?
Dr. Vitor: É verdade que o sintoma inicial mais comum é a amnésia, mas existem outras formas de apresentação da doença. As outras três formas de início dos sintomas incluem uma em que a pessoa tem dificuldade para encontrar palavras durante uma conversa. Outra ocorre quando há dificuldades visuoespaciais: a pessoa perde a noção do espaço. Ela pode sair de casa e se perder, deixando de se localizar em ambientes conhecidos. Também pode ter dificuldade para procurar um objeto e não encontrá-lo, em razão de alterações na percepção visual. Uma quarta forma de apresentação é a mudança de comportamento, geralmente caracterizada por um quadro de apatia e dificuldade para resolver problemas do dia a dia. A doença de Alzheimer, porém, é progressiva, de modo que essas alterações cognitivas tendem a se agravar com o tempo, causando uma perda de autonomia.
A desorientação no tempo e no espaço é um dos sintomas mais preocupantes. Em que fase da doença isso costuma ocorrer e quais são os principais riscos?
Dr. Júlio Cesar: A desorientação costuma aparecer nas fases intermediárias da doença. Não é na fase leve, inicial. É na intermediária. Embora possa surgir mais cedo em algumas pessoas, é variável. O paciente pode não saber que dia é, onde está ou como voltar para casa, mesmo em locais familiares. Os principais riscos são sair de casa e não conseguir retornar, sofrer acidentes, atravessar ruas sem atenção, ficar exposto ao calor, ao frio, à chuva, além de passar muitas horas sem alimentação, água ou a medicação. Por isso, quando esses sintomas aparecem, é importante que a pessoa não permaneça sozinha em situações que possam oferecer risco.
Quais medidas práticas podem ser adotadas pela família para reduzir o risco de um paciente com Alzheimer sair de casa ou se perder?
Dr. Júlio Cesar: Algumas medidas simples podem aumentar bastante a segurança. Por exemplo, manter os portões e as portas com travas seguras, sem impedir a saída em caso de emergência. Evitar que a pessoa fique sozinha em caso de desorientação. Deve também informar vizinhos e pessoas próximas sobre a condição do paciente, para que possam ajudar caso o encontrem sozinho. Outra dica é fazer com que o paciente use uma pulseira, cartão ou outro identificador com nome, telefone e contato da família. Essas medidas ajudam a prevenir o desaparecimento e facilitam uma localização rápida caso isso ocorra.
Dr. Vitor: Isso geralmente é um problema nas fases intermediárias e avançadas da doença. Os pacientes podem não perceber a falha cognitiva que têm. Eles não percebem o quão grave é a perda cognitiva nem o risco que correm. Por isso, muitas vezes querem sair de casa e agir de maneira autônoma. Essa é uma situação muito crítica para algumas pessoas, especialmente em casos típicos, como o de um homem que sempre foi o responsável pela casa e fazia tudo sozinho. De repente, alguém começa a tolher sua liberdade, e isso pode gerar um grande conflito. O que fazer? É difícil responder com uma regra geral. Na verdade, isso vai depender das características de cada caso. Em algumas situações, é recomendável que o paciente utilize algum tipo de identificação, com telefone para contato, permitindo que seja localizado caso se perca. São estratégias que a família ou o cuidador precisam elaborar de acordo com cada realidade. Mas, quando o quadro é muito grave, não há muitas alternativas. É preciso manter o portão trancado e retirar a chave para impedir que o paciente saia sozinho. Ao mesmo tempo, quando ele demonstra muita vontade de sair, é importante criar oportunidades para que isso aconteça de forma segura, com o acompanhamento de um familiar ou cuidador. Outra possibilidade é adaptar a rotina para que ele mantenha a sensação de autonomia. Cada situação deve ser avaliada individualmente, considerando a personalidade do paciente e o estágio da doença.
Quando uma pessoa com Alzheimer desaparece, quais devem ser as primeiras providências da família? Existe um período de espera recomendado antes de acionar as autoridades?
Dr. Júlio Cesar: Não é necessário esperar, assim que perceber o desaparecimento, os familiares devem iniciar as buscas nos locais que a pessoa costuma frequentar e informar imediatamente a polícia informando que se trata de uma pessoa com Alzheimer. Também é importante reunir fotos recentes, informar as roupas que ela vestia, possíveis problemas saúde e os locais onde pode tentar ir.
Embora o Alzheimer ainda não tenha cura, quais hábitos ajudam a preservar a saúde cerebral e podem reduzir o risco de demência ou retardar a evolução da doença?
Dr. Júlio Cesar: É possível adotar alguns hábitos saudáveis ao longo da vida e isso ajuda a proteger a saúde do cérebro. Como praticar atividade física regularmente, manter uma alimentação equilibrada, rica em frutas, verduras, grãos e peixes. Deve controlar a pressão alta, diabetes e colesterol. Evitar o tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Também precisa manter a mente ativa com leitura, jogos, aprendizado de novas habilidade e outras atividades intelectuais, deve também preservar o convívio social e participar de atividades com familiares e amigos. E, caso ocorra, deve corrigir rapidamente aquelas dificuldades de visão e audição.
Dr. Vitor: Embora não seja possível evitar todos os casos de Alzheimer, é possível reduzir o risco de demência e retardar a progressão da doença com hábitos saudáveis. O controle de doenças como hipertensão, diabetes e colesterol elevado é um dos principais fatores de prevenção. Além disso, o neurologista recomenda a prática regular de atividade física, alimentação equilibrada inspirada na dieta mediterrânea, exercícios de estimulação cognitiva, como leitura e jogos, e a manutenção de uma vida social ativa. Segundo ele, essas medidas apresentam benefícios comprovados e são mais eficazes do que tratamentos sem respaldo científico.