Uma petrolífera criada no Texas no ano passado quer investir cerca de 53 milhões de euros para perceber quanto petróleo existe em Jameson Land, no remoto leste do território ártico. Entre os responsáveis e colaboradores do projeto há várias figuras ligadas ao universo do Presidente norte-americano e o Governo local já deixou um aviso: ainda não autorizou os trabalhos
Uma barcaça puxada por um rebocador aproximou-se há poucos dias da costa de Jameson Land, uma região quase desabitada no leste da Gronelândia, e começou a deixar em terra cerca de uma dúzia de contentores com equipamento para procurar petróleo. Pertenciam à Greenland Energy.
A empresa norte-americana criada no Texas no ano passado acredita poder haver naquela região reservas no valor de cerca de 878 mil milhões de euros e está disposta a investir cerca de 53 milhões para descobrir se tem razão.
Só que o equipamento chegou antes das autorizações necessárias e o Governo gronelandês respondeu com uma “forte advertência”, lembrando que qualquer nova operação logística terá de ser previamente comunicada e aprovada.
Tudo isto acontece enquanto Donald Trump volta a falar em colocar a Gronelândia sob controlo dos Estados Unidos e, dois dias depois desse aviso, o próprio Presidente publicou na Truth Social uma imagem em que aparece gigantesco, debruçado sobre uma pequena aldeia gronlandesa.

A coincidência entre as ambições de Trump e a chegada de uma petrolífera norte-americana poderia ficar por aí, não fossem as pessoas que rodeiam o projeto. A Greenland Energy contratou Phil McGraw, o antigo apresentador de televisão conhecido como Dr. Phil, que integrou uma comissão de Trump sobre liberdade religiosa, para produzir uma série documental sobre aqueles a quem chama “modern-day wildcatters”, ou modernos aventureiros da prospeção petrolífera. Entre os administradores está também um veterano da Marinha dos Estados Unidos que trabalha no Golden Dome, ou “Cúpula Dourada”, o sistema de defesa antimíssil que Trump quer construir e para o qual já afirmou que controlar a Gronelândia é “vital”.
Larry Swets, presidente da Greenland Energy, grande acionista da empresa e alguém que, segundo o Guardian, tem acesso ao círculo de Trump, procura afastar o negócio petrolífero das ambições territoriais de Washington e garante que o projeto “não está relacionado com a anexação americana”.
A Greenland Energy também não chegou simplesmente à Gronelândia, escolheu um lugar e começou a furar.
O território, que pertence ao Reino da Dinamarca mas tem Governo próprio e decide sobre os seus recursos naturais, deixou de atribuir novas licenças petrolíferas em 2021 por razões ambientais. Antes dessa decisão, porém, a empresa britânica 80 Mile tinha conseguido direitos de exploração em Jameson Land e é através desse projeto que os norte-americanos querem entrar, financiando os trabalhos em troca de uma participação maioritária.
Esses direitos permitem continuar a desenvolver um projeto anterior à mudança de política, mas não dão carta branca para levar material para o terreno ou começar a perfuração, decisões que continuam dependentes das autoridades locais. A Greenland Energy anunciou inicialmente que queria abrir dois poços exploratórios, embora tenha entretanto reduzido o plano a um primeiro furo.
Antes de chegar à perfuração, porém, a empresa já tinha criado um problema com as autoridades locais.
Numa reunião com habitantes de Jameson Land em junho, um representante da Greenland Energy afirmou que a empresa tinha autorização para colocar o material em terra, o que não era verdade, e Larry Swets acabaria por reconhecer que “o entusiasmo pelo projeto levou-nos a comunicar de uma forma que criou confusão”. No mês seguinte, os moradores daquela região pouco povoada viram o rebocador aproximar a barcaça da costa e os contentores começaram a ser descarregados. O Governo confirmou depois que o objetivo era preparar a futura exploração petrolífera e a empresa responsável pelo transporte confirmou ao jornal dinamarquês de investigação Danwatch que a carga se destinava à Greenland Energy. O material ficou em terra, mas a autorização para fazer aquilo para que foi levado até ali continua por conceder.
A Greenland Energy recusou responder às perguntas do Guardian, que revelou o caso, mas tentou tranquilizar os acionistas numa carta em que descreveu como “construtivas” as reuniões mais recentes com as autoridades gronlandesas e disse estar “encorajada” pelos progressos para obter as aprovações que ainda faltam. O Governo local não obrigou a empresa a retirar os contentores, por considerar que seria uma medida desproporcionada, mas sublinhou que o pedido continua a ser analisado.

E há ainda uma dificuldade adicional: os poços planeados parecem localizar-se dentro de uma área protegida pela Convenção de Ramsar, o tratado internacional para a conservação de zonas húmidas, precisamente num território que há cinco anos decidiu deixar de conceder novas licenças para procurar petróleo.
A empresa continua, apesar disso, a preparar-se para avançar e prevê que um navio com cerca de 300 contentores de equipamento parta do Canadá a 12 de setembro, com a perfuração apontada para outubro caso as autorizações cheguem entretanto. Jeff Landry, governador republicano do Louisiana escolhido por Trump como enviado para a Gronelândia, acredita até que o território poderá estar a produzir petróleo “já no próximo ano”.
Até lá, a decisão continua nas mãos do Governo gronlandês, que tem diante de si um projeto petrolífero norte-americano com ligações ao universo de Donald Trump, equipamento já desembarcado, uma zona ambientalmente protegida e, do outro lado do Atlântico, um Presidente dos Estados Unidos que voltou a dizer que quer a própria Gronelândia.