Os estudiosos que afirmam que Homero influenciou a Bíblia não são figuras marginais; têm a história a seu favor
Se adora “A Odisseia” e gostaria de ver um spin-off do filme mais popular deste verão, Dennis MacDonald tem uma boa notícia para si.
Uma releitura do poema épico de Homero já foi escrita. Basta abrir a Bíblia para ver como Homero — o poeta cego e autor da antiga obra épica — também moldou algumas das histórias mais populares sobre Jesus em partes importantes do Novo Testamento, diz MacDonald.
O sucesso de bilheteira de Christopher Nolan desencadeou debates sobre geopolítica, a escolha de uma mulher de pele escura como Helena de Tróia e a participação de um ator trans a interpretar um guerreiro grego. No entanto, MacDonald, um estudioso da Bíblia, está no centro de um debate pouco notado sobre a obra de Homero, que tem vindo a ganhar força há anos.
MacDonald e um pequeno grupo de outros especialistas bíblicos afirmam que o ADN dos poemas épicos de Homero está presente em todo o Novo Testamento. As histórias bíblicas clássicas — como Jesus a caminhar sobre as águas, o encontro com um homem possuído por demónios que vivia entre os túmulos e o episódio em que Paulo é confundido com um deus após um naufrágio — foram inspiradas em “A Odisseia” e “A Ilíada”, de Homero, dizem.
Os autores destas narrativas bíblicas não estavam a plagiar Homero, diz MacDonald, que acredita que utilizavam a mimese — um recurso literário comum na época — para injetar em Jesus “esteróides narrativos”, permitindo-lhe competir com os heróis mitológicos gregos e romanos. O poema tem quase 3.000 anos, tendo surgido séculos antes de o Novo Testamento ter sido canonizado.
MacDonald diz que queriam mostrar que Jesus era o “super-herói supremo”.
“O objetivo de muitas destas histórias é demonstrar que Jesus é superior a figuras como Aquiles, Ulisses, Hermes e outros”, afirma MacDonald à CNN, citando personagens famosas da mitologia grega. “Jesus não é apenas melhor do que os heróis homéricos – é mais inteligente e mais compassivo”.
As opiniões de MacDonald contradizem a visão tradicional de muitos estudiosos bíblicos sobre a criação do Novo Testamento. Embora alguns especialistas reconheçam a influência de Homero em certas passagens, a maioria acredita que as fontes primárias das epístolas do Novo Testamento provêm, na verdade, das escrituras judaicas e de tradições orais — baseadas em relatos de testemunhas oculares sobre as curas e parábolas de Jesus, transmitidos de geração em geração.
Ainda assim, as afirmações de MacDonald são relevantes, em parte, devido a dois movimentos opostos. Existe um movimento nacional que defende a obrigatoriedade do ensino da Bíblia nas escolas públicas e a exposição dos Dez Mandamentos em locais públicos. Para alguns cristãos dos EUA, a Bíblia é o resultado de uma inspiração divina — algo que consideram essencial para compreender o que significa ser americano.
Por outro lado, cresce também — impulsionada por estudiosos — a consciência pública de que o Novo Testamento foi formado por aqueles a que um especialista chama de “escritores-fantasma de Deus”. Estes estudiosos defendem que as narrativas bíblicas foram moldadas por pessoas escravizadas que compuseram o Novo Testamento, pelos autores de “evangelhos perdidos” que nunca integraram o cânone bíblico e até pelas influências cruzadas das filosofias estóica e platónica que circulavam no mundo antigo.
O choque entre estes dois movimentos gira em torno de questões que as pessoas têm vindo a levantar há séculos:
Quem escreveu a Bíblia? Foi Deus ou foram os seres humanos? Ou, talvez, ambos?
Homero influenciou as representações de Jesus?
Os estudiosos que afirmam que Homero influenciou a Bíblia não são figuras marginais; têm a história a seu favor.
Segundo alguns especialistas, teria sido difícil para os primeiros autores do Novo Testamento escapar à influência de Homero. As epopeias homéricas eram, nas palavras da estudiosa da Bíblia Margaret M. Mitchell, o “manual de teologia e a referência cultural do mundo greco-romano”.
As crianças romanas decoravam Homero na escola. As pessoas escravizadas recitavam a sua poesia em festas sofisticadas oferecidas pelos seus senhores. Os políticos citavam Homero, e as casas eram decoradas com frescos que retratavam Ulisses e outras personagens homéricas.
Homero, o poeta épico grego. Atribui-se-lhe a autoria de *A Odisseia*, no século VII ou VIII a.C. foto Universal History Archive/Universal Images Group/Getty Images
No seu tempo, Homero era o que Shakespeare é para nós hoje: uma presença incontornável, mesmo para quem nunca o leu, afirma um especialista.
“Costumo dizer aos meus alunos: independentemente do local onde estudaram ou de qual foi a sua formação escolar, provavelmente já tiveram contacto com Shakespeare de uma forma ou de outra”, diz Robyn Faith Walsh, especialista em cristianismo primitivo da Universidade de Miami.
“Mesmo que não tenha lido Shakespeare, já foi exposto a alguns dos elementos dos seus enredos”, diz à CNN, citando o filme de 1999 10 Coisas que Odeio em Ti, baseado na peça A Megera Domada, de Shakespeare.
Walsh observa que a perspetiva de MacDonald sobre o Novo Testamento não é um caso isolado entre os estudiosos da Bíblia.
“A ideia de Jesus como uma figura que faz lembrar um herói não é de todo absurda”, afirma. “Qualquer pessoa do mundo antigo com instrução suficiente para produzir literatura teria lido Homero.”
No entanto, alguns estudiosos discordam de MacDonald quanto à extensão da influência de Homero no Novo Testamento. MacDonald aponta a influência homérica em três livros do Novo Testamento: os Evangelhos de Marcos e Lucas e o livro dos Atos dos Apóstolos. Embora Walsh considere plausível que Homero tenha exercido alguma influência na caracterização de Jesus, não subscreve a totalidade nem os detalhes das comparações feitas por MacDonald. Outro especialista, Robert Rabel, acusa MacDonald de exagerar na sua análise e de fazer “comparações forçadas”.
Os primeiros autores cristãos não corriam o risco de associar Jesus a Ulisses — uma personagem cuja astúcia, crueldade e natureza enganadora eram bem conhecidas no mundo da igreja cristã primitiva —, afirma Mitchell, professor de cristianismo primitivo na Faculdade de Teologia da Universidade de Chicago.
“A tradição homérica estava por toda a parte no mundo antigo, e os primeiros seguidores de Cristo dificilmente estavam isolados desta influência omnipresente…”, diz Mitchell à CNN. “Contudo, a tese de que partes importantes do Novo Testamento dependem do empréstimo literário, da imitação e da transvaloração de Homero é grosseiramente exagerada.”
Como é que A Odisseia e o filme de Nolan se comparam com a Bíblia
Se leu A Odisseia ou viu o filme, pode tirar as suas próprias conclusões. Abra o Novo Testamento e analise as provas.
Walsh aponta uma clara ligação entre Homero e as histórias de Jesus. A Odisseia e os Evangelhos partilham um recurso narrativo em que tanto Ulisses como Jesus atuam como agentes infiltrados. Ocultavam a sua identidade até mesmo das pessoas mais próximas.
Uma cena de “A Odisseia”, filme que já arrecadou mais de 700 milhões de dólares a nível mundial desde a sua estreia há menos de um mês. foto Melinda Sue Gordon/Universal Pictures
Em A Odisseia, Ulisses diz ao Ciclope — o monstro que encontra numa gruta — que o seu nome é ‘Ninguém’. Quando regressa a casa, em Ítaca, disfarça-se de mendigo e esconde a sua identidade da sua mulher, Penélope, e do seu mais leal criado, Eumeu.
Ao longo dos Evangelhos, Jesus oculta inicialmente a sua identidade de Messias até dos seus discípulos mais próximos. Este ocultamento é chamado de “segredo messiânico“.
Mesmo quando realiza milagres, Jesus pede aos discípulos que não contem a ninguém, diz Walsh.
Os heróis de ambas as histórias ocultavam a sua identidade como uma decisão estratégica para ajudar a cumprir as suas missões: Ulisses, para se vingar dos pretendentes da sua mulher; e Jesus, para realizar a sua missão, que implicaria a sua morte sacrificial, afirma Walsh.
Um leitor do Evangelho de Marcos, por exemplo, reconheceria ecos de Homero nos esforços de Jesus para esconder a sua identidade, diz Walsh.
“É exatamente assim que Ulisses é apresentado na obra de Homero”, afirma ela. “Ele não revela quem é até estar pronto para o fazer, e é isso que o herói faz. Este é um grande indício de que o autor do Evangelho de Marcos leu Homero. Leu A Odisseia e viu que o herói se revela quando está pronto.”
Matt Damon monta um arco e flecha numa cena de “A Odisseia”. A sua personagem, Ulisses, é vista pelos outros como uma divindade — de uma forma não muito diferente da forma como Jesus é visto por alguns no Novo Testamento. foto Melinda Sue Gordon/Universal Pictures
MacDonald aponta outra passagem famosa do Novo Testamento que envolve Paulo, um dos fundadores da igreja primitiva.
Numa passagem do livro dos Atos, Paulo sofre um naufrágio enquanto viaja para Roma. Sobrevive ao chegar a uma ilha onde os habitantes o confundem com um deus, depois de sobreviver à picada de uma víbora.
Em A Odisseia, um Ulisses em estado deplorável sofre um naufrágio e chega à costa, onde encontra uma princesa chamada Nausícaa. Depois de Ulisses tomar banho para remover o sal e a sujidade do naufrágio, a princesa pergunta-se em voz alta se ele seria um deus.
“Em ambos os casos, tem-se a pessoa que sobrevive a um naufrágio e que passa a ser interpretada como uma divindade”, diz MacDonald.
MacDonald aponta ainda outras semelhanças de enredo entre o poema de Homero e o Novo Testamento.
Em A Odisseia, Ulisses cai num sono profundo no convés do seu navio quando surge uma emergência no mar. Este episódio inspira uma passagem do Evangelho em que Jesus dorme sobre uma almofada na popa do barco durante uma violenta tempestade.
Noutra passagem, Jesus caminha sobre as águas. Esta história remete para o deus Hermes, que voa sobre as águas em A Odisseia. E, numa das cenas mais comoventes do Evangelho, Jesus é ungido com óleo por uma mulher (nos capítulos 13 e 14 de Marcos) – semelhante à história da unção de Ulisses por uma mulher idosa no Canto 19 d’A Odisseia, afirma MacDonald.
Jesus vs. Ulisses
Existe uma outra comparação entre Homero e a Bíblia que demonstra paralelos entre Jesus e Ulisses, ao mesmo tempo que afirma a superioridade de Jesus, diz MacDonald. Envolve histórias de horror.
Numa cena arrepiante, Jesus encontra um homem possuído por demónios que vive em cavernas, ou túmulos. Quando Jesus pergunta o nome do homem, este responde: “O meu nome é Legião, porque somos muitos.” O homem é tão forte fisicamente que as correntes não o conseguem conter. É uma das poucas cenas da Bíblia em que Jesus tem dificuldade em curar alguém. Mas Jesus acaba por curar o homem e lança os demónios a uma manada de porcos, que cai de um precipício e se afoga.
Esta ilustração retrata uma história do Novo Testamento na qual Jesus expulsa demónios de um homem possesso e os envia para uma manada de porcos, que corre em direção ao mar e se afoga. foto Hulton Archive/Hulton Archive/Getty Images
Ulisses encontra dois monstros, com resultados diferentes. Estas cenas aparecem tanto no poema épico como no filme. Encontra o Ciclope numa gruta e Circe, uma poderosa feiticeira que atrai os homens de Ulisses para a desgraça. Ulisses cega o Ciclope e escapa a Circe com a ajuda de uma erva mágica, mas não sem antes perder alguns dos seus homens.
“Marcos queria que os seus leitores reparassem que Jesus era um herói melhor e mais poderoso do que o de Homero; enquanto Ulisses cegou um monstro, Jesus devolveu a sanidade a um monstro”, escreve MacDonald no seu livro Mythologizing Jesus (Mitologizando Jesus). “Jesus é um herói da compaixão.”
MacDonald, cujo pai era um pregador fundamentalista, diz ter sido marginalizado por alguns colegas devido às suas afirmações. Brinca dizendo que alguns dos seus críticos sofrem de “homerofobia” — uma reação exagerada à ideia de que Homero exerce uma forte influência sobre partes do Novo Testamento.
Afirma também que é perigoso alegar que o Novo Testamento é fruto de inspiração divina.
“Uma vez que se reivindicam revelações de Deus, é provável que surjam a arrogância e, algo pior, a competição social”, diz. “Os Evangelhos do Novo Testamento são escritos sofisticados e criativos de intelectuais cristãos primitivos, que moldaram a figura de Jesus e os seus ensinamentos para atender aos desafios humanos dos seus leitores da antiguidade.”
Mas o que acontece quando se diz a alguém que o Novo Testamento é uma criação literária? Há pessoas cuja fé se baseia numa Bíblia infalível e que afirmam ter tido a sua vida transformada pela crença de que “toda a Escritura é inspirada por Deus“.
Matt Damon como Ulisses. Tal como Jesus, precisa de superar monstros malignos nas suas jornadas. foto Melinda Sue Gordon/Universal Pictures
Walsh, professor na Universidade de Miami, tem outra perspetiva. Ela diz que é importante as pessoas lembrarem-se que tudo o que sabemos sobre o passado nos chega através dos seres humanos, e que as pessoas têm frequentemente dificuldade em interpretar os acontecimentos e em encontrar sentido em experiências profundas.
“Em vez de minar a fé, alguns leitores acham que reconhecer estas marcas humanas torna os textos mais interessantes e, de certa forma, mais próximos da nossa realidade”, refere Walsh.
O debate sobre os poemas épicos de Homero não é uma novidade. Segundo os historiadores, já na Antiguidade se discutiam quais os locais por onde Ulisses passou nas suas viagens e se a sua mulher, Penélope, teria ou não sido fiel. Séneca, o filósofo romano, defendia que as pessoas interpretavam erradamente a mensagem dos poemas épicos de Homero.
Diz-se que a popularidade de A Odisseia prova que as pessoas estão dispostas a voltar ao cinema. Mas isto também prova outra coisa: já não usamos togas nem navegamos por mares “cor de vinho” povoados de monstros, mas a natureza humana permanece a mesma.
Homero, o poeta enigmático, continua a provocar-nos e a inspirar-nos.