
Agricultores das proximidades do Parque Nacional de Amboseli contestam a hipótese de os seus produtos estarem na origem das mortes
Quinze elefantes morreram no Parque Nacional de Amboseli, no Quénia, com suspeitas de envenenamento por cianeto, depois de terem comido tomates provenientes de explorações agrícolas próximas.
As autoridades estão a investigar como terá a substância tóxica chegado a um ecossistema onde animais selvagens e domésticos coexistem com áreas agrícolas.
Segundo revela uma reportagem da Associated Press, os produtores locais contestam, porém, a hipótese de os seus tomates terem estado na origem das mortes.
O caso agravou as preocupações com o crescente conflito entre as populações e a vida selvagem na região, à medida que a agricultura se expande nas proximidades do Parque Nacional de Amboseli.
As mortes representam também um revés nos esforços do Quénia para recuperar a sua população de elefantes, que passou de mínimos históricos para mais de 36.000 animais graças à redução da caça furtiva e ao reforço das medidas de proteção.
Elvis Muchai cultiva terrenos junto aos limites de Amboseli há duas décadas. Segundo disse à AP, durante todo esse tempo, nunca ouviu falar de agricultores que envenenassem animais selvagens.
Por isso, recebeu com ceticismo as notícias divulgadas no mês passado segundo as quais os 15 elefantes terão morrido devido a envenenamento por cianeto depois de comerem tomates que poderiam estar contaminados com a substância.
Muchai, produtor de tomate na região de Kimana, explica que as comunidades locais convivem há muito com os elefantes, apesar das perdas frequentes de culturas quando os animais atravessam a vedação elétrica do parque e entram nas explorações, sobretudo durante a estação seca.
“Estamos habituados a que os animais comam o que cultivamos”, afirmou.
No mês passado, o Kenya Wildlife Service anunciou a morte de 15 elefantes no ecossistema de Amboseli no espaço de um mês. As primeiras análises laboratoriais detetaram cianeto, enquanto as autópsias encontraram tomates nos estômagos dos animais.
Isaac Lekolool, responsável pelos serviços veterinários da agência queniana para a vida selvagem, afirmou que os elefantes apresentaram sinais de “paralisia e dificuldades respiratórias” antes de morrerem.
Os testes iniciais apontaram para envenenamento por cianeto, embora estejam ainda a decorrer análises para determinar a concentração da substância.
“Ainda temos de descobrir de onde veio este cianeto”, afirmou Lekolool, acrescentando que os elefantes também tinham comido melancias.
O responsável apelou a cuidados redobrados no manuseamento e utilização de pesticidas nas explorações agrícolas.
Kimana, junto a Amboseli, é uma das zonas agrícolas mais produtivas do Quénia. A região produz tomate, cebola e feijão-verde, que seguem depois para os mercados da capital, Nairobi.
As amostras analisadas para detetar substâncias tóxicas foram retiradas do conteúdo dos estômagos dos elefantes, enquanto continuam as análises às amostras de sangue, explicou Lekolool.
O veterinário rejeitou anteriores alegações de que o cianeto, cujo uso na atividade mineira é regulamentado pelo Governo, pudesse estar presente no parque devido a exploração mineira ilegal.
As áreas agrícolas têm vindo a expandir-se junto ao parque e o conflito entre pessoas e elefantes continua a ser a segunda principal causa de morte destes animais, depois da caça furtiva, segundo o Plano Nacional para os Elefantes do Quénia.
Entre 2000 e 2020, pelo menos 1.160 elefantes morreram em episódios relacionados com legítima defesa ou atos de retaliação por parte de comunidades que procuravam proteger as suas culturas, propriedades e vidas, refere o documento.
Duncan Juma, diretor de comunicação do Kenya Wildlife Service, excluiu, contudo, a hipótese de o conflito entre humanos e animais selvagens estar na origem destas mortes.
“A comunidade gosta destes animais“, afirmou.
O International Fund for Animal Welfare (IFAW) considera que a suspeita de envenenamento por cianeto evidencia a necessidade urgente de enfrentar as causas profundas dos conflitos entre pessoas e animais selvagens.
“À medida que pessoas e elefantes partilham cada vez mais o mesmo espaço, a proteção da vida selvagem e a defesa dos meios de subsistência das comunidades têm de avançar lado a lado”, afirmou a organização num comunicado.
Ben Wandago, diretor do IFAW para a África Oriental, defendeu que a suspeita de envenenamento por cianeto deve ser “investigada de forma urgente e exaustiva” e recomendou a adoção de medidas que permitam proteger as comunidades que vivem junto ao parque e facilitar a coexistência com os elefantes.
“Esta tragédia sublinha também a necessidade urgente de um controlo rigoroso e de um manuseamento responsável de substâncias altamente tóxicas, para impedir que cheguem ao ambiente natural”, afirmou.
Os agricultores duvidam que o cianeto possa ter origem nos produtos habitualmente utilizados nas explorações.
Muchai afirma nunca ter encontrado cianeto entre os pesticidas ou outros produtos químicos vendidos aos agricultores da região e sublinha que os produtos disponíveis no mercado estão sujeitos à regulamentação do Governo queniano.
“O produto químico de que estão a falar, nunca o vimos nem ouvimos falar dele aqui”, afirmou.
Só na última época agrícola, os elefantes destruíram cerca de 0,2 hectares da plantação de tomate de Muchai, causando-lhe prejuízos estimados em 500.000 xelins quenianos, cerca de 3.800 dólares (aproximadamente 3.350 euros).
“Vivemos com estes animais há muitos anos. Eles comem as nossas culturas e muitos de nós nunca receberam qualquer indemnização”, afirmou.