Durante o eclipse, a observação do fenómeno deve ser feita com recurso a óculos certificados pela norma internacional ISO 12312-2, com marcação CE, sob pena de poder ser gerada uma queimadura da retina. A diretora do Serviço de Oftalmologia da ULS de Santa Maria alerta que olhar para o sol de forma prolongada, e sem proteção adequada, pode provocar uma lesão “indolor e definitiva” na retina.
“Caso as pessoas olhem de forma fixa e prolongada para o sol, a lesão que provoca na retina é indolor e definitiva. As células morrem, e não há possibilidade de recuperação, nem tratamento cirúrgico”, alerta Mun Faria, em declarações ao Observador.
Olhar de forma prolongada para o sol, mesmo que parcialmente coberto pela lua, pode “provocar uma lesão das células fotorrecetoras da retina [responsáveis por filtrar diferentes níveis de luz e cor], que é imediata”, realça a médica, acrescentando que, geralmente, “o doente só se apercebe no dia seguinte”.
Nestes casos, os oftalmologistas nada podem fazer para reverter o quadro de lesão na retina, limitando-se a realizar um exame, designado por tomografia de coerência ótica, para confirmar o diagnóstico, indica Mun Faria. Se a exposição for breve, “provoca inflamação das células, que podem recuperar”, acrescenta a médica.
Assim, a responsável alerta para a importância de utilização de óculos certificados, e lembra que outros materiais (como radiografias, CD ou óculos de sol) não protegem o olho contra os raios infravermelhos, que são os responsáveis pelas lesões na retina. O impacto na retina pode traduzir-se, nas horas seguintes, na diminuição da visão central, no aparecimento de uma mancha escura, bem como visão distorcida ou alteração na visão cromática das cores.
No programa Guia para o Eclipse, da Rádio Observador, o médico Miguel Lume, responsável pela área da retina da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, sublinhou também que a lesão provocada pela observação do eclipse sem óculos certificados pode ser permanente, mas ressalvou que, “na maioria dos casos”, os doentes “recuperam espontaneamente”. Cerca de 20% dos doentes ficam “com redução significativa da acuidade visual” e, mesmo nos restantes casos, a recuperação da visão apenas “é parcial”.
O especialista apela ao comportamento da população durante o eclipse, para que, depois do fenómeno astronómico, o país não se veja confrontado “com uma epidemia de casos de retinopatia solar”.
Não são raros os casos — descritos na literatura científica e noticiados nos órgãos de comunicação social — de pessoas que ficaram com lesões oculares devido à observação de eclipses. Em abril de 2024, o Departamento de Saúde de Quebec, no Canadá, informou ter recebido 28 relatos de lesões na visão relacionados com a observação do eclipse solar total que foi visível na América do Norte. Os casos incluíam inflamação da córnea e retinopatia solar e foram comunicados por optometristas. As autoridades do Quebec estimavam, no entanto, que o número de casos seria muito superior.
Em 2017, o Washington Post revelou o caso da jovem Nia Payne, à data com 26 anos, que olhou para o sol sem proteção adequada durante seis segundos, entusiasmada para ver o histórico eclipse solar total de agosto desse ano na cidade de Nova Iorque. O resultado: uma lesão na retina, que se traduziu no aparecimento de uma mancha negra na visão. A jovem acabou por se dirigir ao serviço de urgência do centro oftalmológico do Hospital Mount Sinai, onde os médicos confirmaram a lesão.
No Journal Français d’Ophtalmologie é descrito o caso de um homem de 44 anos que procurou cuidados médicos devido a um longo histórico de desconforto visual no olho direito, com deficiência na fixação visual. O paciente relatou ter observado o sol durante um eclipse ao longo de cerca de 10 a 15 minutos — sem proteção — quando tinha 16 anos. Imediatamente após a observação do eclipse, o homem apresentou visão turva, situação que persistiu durante décadas no olho direito.
Os efeitos adversos da radiação solar no olho humano são conhecidos há muito tempo, com o primeiro caso clínico de retinopatia solar a ser descrito ainda no século XVII. No Journal of Optometry, são relatados quatro casos de jovens com retinopatia solar aguda grave após observação do eclipse solar de 4 de janeiro de 2011, que foi visível também em Portugal e em grande parte da Europa e Médio Oriente. Nenhum usou proteção ocular adequada. Todos apresentaram visão turva, mas em três dos quatro casos as lesões foram consideradas reversíveis.
Notícia atualizada às 14h30 com a informação de que a população da região Centro (distritos de Coimbra, Leiria, Guarda, Viseu, Aveiro e Castelo Branco) é abrangida pela urgência de Oftalmologia da ULS de Coimbra, que funciona em permanência durante todo o ano