Durante a pandemia, surgiu uma notícia fantástica: em Itajaí, teria ocorrido grande redução de casos de covid – e isto graças à ivermectina. Mas havia um problema com os dados – que vou destrinchar hoje.
Tudo começa pelo prefeito de Itajaí, Volnei Morastoni, que se notabilizou por promover uma série de medidas supostamente profiláticas contra a covid, que iam desde o uso de homeopatia até a ivermectina, passando pela ozonioterapia retal. Falando especificamente da ivermectina, ocorreu uma campanha de distribuição nos postos de saúde entre julho e dezembro de 2020.
Em janeiro de 2022, um grupo de pesquisadores encabeçado por Flávio Cadegiani publicou um estudo analisando os resultados. A conclusão impressionante: 44% de redução de infecções entre os que tomaram ivermectina (IVM).
Itajaí promoveu uma campanha de distribuição de ivermectina nos postos de saúde entre julho e dezembro de 2020. Foto: Rafael Henrique/Adobe Stock
O desenho do estudo continha dois braços: os cidadãos que tinham recebido doses de ivermectina e aqueles que não receberam.
O grupo da ivermectina era fácil de quantificar: bastava coletar os registros nas UBSs. E o outro grupo? Como saber quantos não foram às UBSs? Considerou-se a diferença entre o total da população do município menos os cidadãos que receberam ivermectina. Parece plausível, não? Mas de onde veio o número de habitantes? Os autores dizem “dos registros da população do município”, mas sabemos que no Brasil os municípios não registram em tempo real quantos cidadãos moram lá. Então podemos inferir qual foi a única fonte disponível usada pelos pesquisadores (apesar de não citada no texto, o que é uma falha): o IBGE, que fez Censo em 2010 e, com base nele (e nos nascimentos e mortes registrados por município) publica estimativas populacionais para os anos seguintes. E aqui está a chave: os autores usaram a estimativa projetada da população, não a população contada (que era desconhecida em 2020). O número de munícipes considerado no estudo para aquele ano foi de 223.128 – e deste total foi extraído o número de cidadãos acima de 18 anos: 161.545.
Mas então veio o Censo – e os resultados detalhados por faixa etária seriam conhecidos apenas a partir de 2023 (depois da publicação do estudo da ivermectina). Baseado no Censo, o IBGE também atualizou as estimativas dos anos anteriores, via retroprojeção. Isto escancarou a diferença:
A população em 2020, em vez de pouco mais de 223 mil habitantes (valor considerado no estudo), era de 255.200 habitantes. Motivo da diferença: Itajaí foi uma cidade que recebeu um grande contingente de novos habitantes via migração interna, algo que não é captado nas estimativas (que consideram apenas nascimentos e óbitos). A população adulta, em vez dos 161.545 considerados pelos pesquisadores, era de 191.732: 19% a mais. E o que isto importa? Tudo! Pois é daí que tiramos o denominador na taxa de infecções. Compare os dados – em primeiro lugar, os números originalmente considerados no estudo (baseados na estimativa do IBGE pré-Censo):
E agora os números já corrigidos pela população retroprojetada pelo IBGE após o Censo de 2022:
A taxa de infecção no grupo que não recebeu ivermectina cai de 6,6% para 4,0%. Ou seja, a taxa de infecção que antes era quase metade no grupo da ivermectina agora passa a ser apenas 7,5% menor.
Mas, mesmo a diferença sendo quase simbólica, ainda assim alguém poderia argumentar que esta taxa era menor no grupo IVM. No entanto, aí entra outro ponto fundamental: era impossível os pesquisadores terem detalhamento do grupo que não recebeu a ivermectina, a começar pela estrutura etária – e menos ainda sobre os seus fatores de risco e comorbidades. Em outras palavras: estavam comparando um grupo com detalhamento conhecido (obs.: supostamente conhecido, já que não foi liberado acesso aos microdados que eles usaram) com um grupo do qual não se sabia quase nada (nem mesmo o tamanho exato).
O fato de se usar uma estimativa populacional e, com isto, automaticamente não se saber detalhes do grupo que não usou ivermectina, deveria obrigatoriamente constar no campo de limitações – mas o estudo omitiu esta informação-chave.
Um número que está no estudo, mas não foi explicado pelos autores: no período anterior à distribuição da ivermectina, a incidência de covid foi de 0,6% no grupo que mais tarde receberia ivermectina e de altos 2,7% no grupo não-IVM, uma diferença altíssima (um risco relativo 4,2 vezes maior).
Só isto já deveria ter acendido o alerta para os pesquisadores, pois uma diferença considerável na taxa de infecção entre os grupos indicava que existia um (ou vários) fatores de confusão. Poderia ser por diferente composição demográfica, ou risco à exposição e/ou maiores cuidados com medidas não-farmacológicas, como máscaras e contato social. Em outras palavras, esta diferença pré-distribuição entre os grupos deveria ter impedido os pesquisadores de fazer qualquer comparativo, pois desde o começo já era sabido: os grupos eram diferentes.
Resumindo, este foi um exemplo de estudo realizado mesmo com limitações metodológicas claras conhecidas desde o início. Os achados publicados quanto à taxa de infecção não condizem com a realidade (uma vez ajustados os números) e não permitem concluir nada a respeito da eficácia do fármaco testado. Ainda assim, justo este estudo foi promovido à exaustão por aqueles que defendiam o uso da ivermectina, o que mostra que o debate estava muito mais focado na vontade de usá-la que no embasamento científico.
Em nota, o município de Itajaí diz que utilizou a dosagem de ivermectina na população como tratamento profilático para a covid, sem em nenhum momento negar a utilização das medidas sanitárias e de imunização determinadas pela Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina e pelo Ministério da Saúde. Afirma ainda que a vacinação foi iniciada em janeiro de 2021 e, nos meses seguintes, uma grande estratégia de imunização foi implantada no município, que também investiu na ampliação dos leitos de UTI para a covid. “As ações correspondem a uma política de saúde da gestão passada, não tendo continuidade na presente gestão municipal”, diz o texto.
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