Peter Rejcek, NSF / Wikipedia

“Cataratas de Sangue” da Antártida

As “Blood Falls” da Antártida contêm água salgada rica em ferro, que oxida e fica vermelha quando entra em contacto com o ar. Micróbios dão novas pistas sobre as origens antigas deste fenómeno geológico.

Num dos vales desérticos e secos da Antártida Oriental, um fenómeno natural conhecido como Cataratas de Sangue (Blood Falls) liberta ocasionalmente água salgada de uma impressionante tonalidade vermelho-alaranjada.

A salmoura escorre do glaciar Taylor para o lago Bonney e é rica em ferro, que oxida e adquire uma cor semelhante à ferrugem quando entra em contacto com o ar. O tom carmesim é tão intenso que pode ser visto nas imagens de satélite do Google Maps.

O cenário ensanguentado, juntamente com a paisagem árida que o rodeia, dificilmente parece um ambiente acolhedor para a vida.

Um novo estudo centrou-se agora num complexo ecossistema microbiano que prospera no gelo, na lama e nos sedimentos manchados de vermelho, e reforça a hipótese de que os antepassados destes organismos tenham percorrido uma longa distância para ali chegar.

Os resultados do estudo, publicados na semana passada na Nature Geoscience, permitiram aos autores identificar, no material avermelhado junto à frente do glaciar Taylor, uma comunidade microbiana com numerosos organismos associados a ambientes marinhos, apesar da grande distância que separa o local do oceano.

As descobertas reforçam a hipótese de que as cataratas sejam alimentadas por uma massa de água marinha isolada há muito tempo e ajudam a compreender a capacidade de adaptação dos micróbios.

“Encontrar aquilo que é, na prática, um oásis marinho em pleno funcionamento num deserto polar, a mais de 32 quilómetros do oceano, foi extraordinário”, explicou à Popular Science Andrew Allen, biólogo marinho da Scripps Institution of Oceanography, da Universidade da Califórnia, e autor principal do estudo.

“A comunidade microbiana diversificada que encontrámos mantém uma ligação biológica a um antigo ambiente marinho, ao mesmo tempo que demonstra a extraordinária resiliência e capacidade de adaptação da vida”, acrescentou.

Allen e os colegas analisaram 167 amostras de sedimentos, água e ar recolhidas na região dos Vales Secos de McMurdo, bem como numa enseada próxima coberta de gelo, utilizada como referência.

As análises genéticas revelaram que as amostras recolhidas em torno das Cataratas de Sangue continham numerosos eucariotas microbianos, organismos constituídos por células com núcleo e outros organelos delimitados por membranas, associados a ambientes marinhos.

Entre os grupos identificados encontram-se diatomáceas, dinoflagelados, haptofitas e ciliados. Mais de 60% das diatomáceas encontradas nas amostras de lama vermelha e sedimentos tinham, de facto, ligações ancestrais a formas de vida oceânicas.

Alguns dos procariotas analisados, organismos unicelulares sem núcleo nem organelos delimitados por membranas, também apresentavam origens marinhas.

Nos locais próximos, pelo contrário, predominavam comunidades microbianas terrestres e de água doce, o que sugere que algo de particular está a acontecer nas Cataratas de Sangue.

“Pensamos que esta descarga periódica de salmoura cria um habitat onde os micróbios marinhos conseguiram persistir”, explicou Allen à Scientific American.

Quanto à forma como ali chegaram, “a origem destes micróbios marinhos específicos parece ser mais compatível com a hipótese de antigas inundações do que com a dispersão pelo vento”.

Investigações anteriores indicam que, há milhões de anos, quando a Antártida era mais quente do que atualmente, o oceano poderá ter inundado esta região da parte oriental do continente.

Quando as águas recuaram, uma parte terá ficado aprisionada sob o glaciar Taylor à medida que este avançava, há cerca de 2,5 milhões de anos, segundo um comunicado sobre o estudo.

Os cientistas já tinham descoberto anteriormente bactérias associadas a ambientes marinhos, um tipo de procariota, na água salgada das Cataratas de Sangue. Alguns investigadores, porém, suspeitavam que os sedimentos e organismos marinhos pudessem simplesmente ter sido transportados até ali por ventos fortes.

A recente descoberta de eucariotas cujos antepassados viviam no mar reforça a hipótese de uma antiga origem oceânica para a água das Cataratas de Sangue.

O novo estudo também permitiu conhecer melhor os próprios micróbios.

As análises sugerem que alguns dos eucariotas existentes nas proximidades apresentam um enriquecimento de vias celulares relacionadas com a fotossíntese, a resposta ao stress, a reparação celular e a capacidade de sobreviver em ambientes com elevada salinidade.

O estudo é “digno de nota” pelas provas de que estes micróbios “se adaptaram a ambientes muito diferentes dos habitats em que evoluíram”, explicou à Smithsonian Brent C. Christner, microbiólogo ambiental da Universidade da Florida que não participou na investigação.

“Os micróbios que documentaram desenvolveram estratégias que lhes permitem sobreviver nos vales secos, apesar de as condições serem muito diferentes das do ambiente marinho ancestral”, acrescentou.

E não se limitaram a adaptar-se a um ambiente diferente. O local onde hoje vivem é extremamente hostil, o que evidencia a impressionante resistência destes microrganismos.

No futuro, os eucariotas marinhos poderão ajudar os investigadores a determinar com maior precisão quando ficou isolada a água salgada das Cataratas de Sangue, conclui Allen.