Há um manancial de livros (difícil de quantificar) espalhado pelas redes sociais e cujas receitas não chegam aos seus autores ou editoras nem passam pelas caixas registadoras de livrarias, quiosques e hipermercados. Por entre as caixas de mensagens pessoais, há quem tenha grupos destinados à partilha de pirataria literária, que a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) estima custar mais de 75 milhões de euros.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google


Escolher

Ana (nome fictício) teve conhecimento dos grupos de Telegram de partilha de livros pirateados através de um vídeo no Instagram publicado por uma micro-influenciadora digital. “Depois de entrar no grupo percebi que era altamente desaconselhado falar do mesmo por fazer com que fosse descoberto e, por isso, eliminado – acredito que pelo próprio Telegram, por ser uma atividade ilícita, mas não tenho a certeza. Acho que se vão disseminando em modo passa-a-palavra”, conta ao ECO, acrescentando que aderiu a outros grupos que acabaram por ser eliminados.



Venda de livros cai 2% no segundo trimestre





O grupo em causa tem livros em português e noutras línguas, manuais escolares e audiobooks (narrados em áudio). Permite que qualquer pessoa partilhe ficheiros, mas encontra-se atualmente fechado a novos membros “com receio de ficar muito conhecido”. “Há programas na Internet que dão para retirar a barreira de segurança do ficheiro. Pode haver dias em que são partilhados dez livros e semanas sem nenhum”, afirma.

Os livreiros admitem ao ECO que é uma situação que os “preocupa bastante”. “A APEL tem conhecimento da existência de canais informais – diria até ilegais, porque não temos de ter medo de dizer as coisas como são – de partilha de livros em formato digital. A desmaterialização dos conteúdos aumenta o risco destes fenómenos que são, fundamentalmente, pirataria”, explica o presidente da associação.

O líder da APEL, Miguel Pauseiro, reconhece que “a vida fica facilitada quando existe disponibilização dos ficheiros descarregáveis”. “Por um lado, temos de repudiar esta situação e, por outro, alertar as pessoas, porque existe maior incidência nos jovens. É necessário respeitarmos o valor do livro, os direitos de autor e os direitos conexos”, refere.

A leitora ‘Ana’ chamou a atenção para a tecnicidade da segurança dos ebooks e deu como exemplo as lojas online da Bertrand e Wook, cujos ebooks só podem ser lidos nas suas plataformas digitais internas em vez de Kindle ou Kobo. Isto porque a Bertrand alterou a sua política de ficheiros digitais durante a pandemia e, recentemente, pôs de uma vez fim ao formato compatível com Adobe Digital Editions, fazendo que os livros digitais comprados no seu website ficassem apenas disponíveis na sua biblioteca interna. Contactada, a empresa portuguesa não quis prestar comentários.

Apesar de não conseguir quantificar a “parte substancial da população nacional que lê de forma ilegal”, o líder da APEL lembra que o último estudo sobre a pirataria, elaborado em 2011-2012, concluiu que o impacto económico era de 60 milhões de euros. “Se fizermos só uma atualização monetária deste valor, admitindo que nada se alterou, passamos para 75 milhões. Mas a minha perceção é de que [a situação] piorou, porque há muito mais grupos de Telegram e WhatsApp e a tendência para a digitalização dos conteúdos é cada vez maior. Temo que o impacto possa ser bem superior”, disse Miguel Pauseiro. Até ao final deste ano vai ser realizado um novo estudo com dados atualizados.

A Porto Editora está a acompanhar este fenómeno “com atenção e preocupação” e caracteriza-o como “um dos maiores desafios que a indústria de conteúdos culturais enfrenta atualmente”. “Temos consciência de que existem práticas de distribuição não autorizada de ebooks em canais digitais e redes sociais, embora a sua dimensão real seja difícil de quantificar com rigor”, assinala fonte oficial da editora liderada por Vasco Teixeira.

“Não temos dúvida de que qualquer forma de utilização ou distribuição ilícita de obras prejudica autores, tradutores, editores e todos os profissionais envolvidos na criação e disponibilização de conteúdos, comprometendo a sustentabilidade do ecossistema do livro e da leitura. Mais do que uma questão económica, trata-se também de uma questão de valorização da criação intelectual e do respeito pelos direitos de autor”, adverte a Porto Editora.

Ainda assim, a APEL reconhece que a indústria e o mercado se devem adaptar às novas formas de consumo, porque são “incontornáveis” e “não vale tentar parar o vento com as mãos”. Nomeadamente, modificar a curadoria das bibliotecas e modernizar os seus catálogos para abrangerem “os Dan Browns e as Freidas” [McFadden].

Mercado cresce menos de 1% até junho

No primeiro semestre, o mercado do livro cresceu menos de 1%. Segundo os dados apurados pela GfK, venderam-se cerca de 6,5 milhões de unidades, o que se materializou num volume de negócios de 94 milhões de euros. Trata-se de um aumento modesto de 0,8% em faturação e de 0,3% em livros vendidos.

Estamos a olhar para 2026 com alguma prudência. Posso dizer que entre janeiro e junho foram vendidos em Portugal cerca de seis mil novos títulos – que entraram no mercado com a venda de, pelo menos, uma unidade – além dos outros todos, mas o segundo semestre tende a ser melhor”, salienta o presidente da APEL, remetendo para os períodos de verão (férias), regresso às aulas (“livros obrigatórios”) e Natal (presentes).


Se me vêm dizer que os jovens não têm possibilidade de comprar muitos livros, respondo que a partilha de livros físicos sempre existiu. Empresta a uma amiga, que lhe empresta a si. Isso não é legal nem crime, como o é a utilização abusiva, a partilha em grupos de WhatsApp ou Telegram, onde estão dezenas de milhares de pessoas. Não faltam bibliotecas no nosso país.

Miguel Pauseiro

Presidente da APEL



A desaceleração ocorre após um 2025 em que o setor livreiro português registou um crescimento de 7,6% em valor e de 6,9% em unidades vendidas, totalizando cerca de 217,5 milhões de euros e 14,8 milhões de livros vendidos.



E quem se destacou nas prateleiras nos primeiros seis meses de 2026? Os livros com desafios em cenas de crime. O Murdoku está a ter um peso “muito significativo” nas vendas do primeiro semestre, além de continuar a performance positiva de vários títulos da Freida McFadden – autora de “A Criada” – ou o “Hospital de Alfaces”, de Pedro Chagas Freitas, e o “Hábitos Atómicos”, de James Clear. As obras de José Rodrigues dos Santos também continuam a sobressair nos rankings, bem como Dan Brown, com “O Segredo dos Segredos”, que foi lançado no final do ano passado.

Governo emite mais de 45 mil cheques-livro

A três semanas do final da segunda edição do programa de descontos em livros, criado pelo Governo para incentivar os hábitos de leitura entre os jovens, cerca de 35 mil pessoas entre os 18 e os 19 anos utilizaram os mais de 45 mil cheques-livros emitidos. No total, desde o dia 2 de janeiro até 30 de julho, foram emitidos 45.038 cheques-livro, dos quais 35.110 foram utilizados, segundo a informação transmitida ao ECO pelo Ministério da Cultura, Juventude e Desporto.



Parlamento aprova extensão do cheque-livro aos e-books





Estes vouchers digitais, da responsabilidade da DGLAB – Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, terminam oficialmente a 31 de agosto, após terem tido uma extensão de dois meses no prazo. Questionado sobre se haverá uma terceira edição e em que moldes, o gabinete de Margarida Balseiro Lopes disse que “neste contexto, considera-se prematuro proceder, nesta fase, a um balanço definitivo da iniciativa”. “Uma avaliação mais completa deverá ser realizada após o encerramento do prazo, quando estiverem disponíveis os dados finais de execução. Também a eventual renovação do programa e a possibilidade de integração de livros em formato digital deverão ser analisadas nesse âmbito”, explicou o ministério com a pasta da Cultura.