Ali mesmo ao lado está uma das instalações mais importantes da Armada espanhola, num local fulcral para a NATO, que agora pode ver chegar um potencial inimigo
O anúncio foi feito quase como uma espécie de motor económico para uma região que faz fronteira com Portugal, mas agora soam os primeiros alertas para o que está prestes a acontecer na Galiza.
Está para chegar “o maior projeto internacional das últimas décadas” naquela região, de acordo com a conselheira de Economia e Indústria local, María Jesús Lorenzana, que preferiu puxar pelo lado bom, enquanto surgem alertas que dão que pensar.
A construção da primeira fábrica de veículos elétricos da China em Espanha está a causar polémica. Se economicamente é tido como certo que a chegada da SAIC Motor a Ferrol vai ser um galvanizador, as preocupações de segurança estão a deixar muitos de pé atrás.
Falamos da dona da MG, que já vende mais de 350 mil veículos por ano no continente europeu, e que pretende cimentar essa sua posição. O objetivo com a instalação de uma fábrica em Espanha passa por contornar as elevadas tarifas que a União Europeia colocou sobre os automóveis produzidos na China, algumas delas a 45%.
É que Bruxelas entende que Pequim está a inundar o mercado comunitário com veículos de baixo custo, pelo que tentou arranjar mecanismos de o evitar. Perante isso, as marcas chinesas pensaram numa solução alternativa: construir e exportar já dentro dos 27.
O orçamento inicial deste projeto aponta para 200 milhões de euros e para a criação de mil empregos diretos, estimando-se uma produção anual de 120 mil veículos. O governo da Galiza concedeu à fábrica um caráter de “projeto industrial estratégico”, o que acelera todas as burocracias necessárias para tal empreendimento, prevendo-se que as obras arranquem em 2027 e que a produção possa começar ainda em 2028.
Se tivermos ainda em conta que a 13 quilómetros dali, em Mandiá, se deverão localizar várias infraestruturas auxiliares, percebem-se as palavras de María Jesús Lorenzana, que sabe que este investimento tem ainda de ir ao Conselho de Ministros de Espanha.
Entusiasmo do lado galego, portanto, mas preocupação em Madrid, onde, de acordo com o El País, o Ministério da Defesa e o Centro Nacional de Inteligencia (CNI) já emitiram alertas para o que aí vem.
Desde logo por questões militares. É que a distância entre a zona de Ferrol onde vai ser feita a construção e o porto exterior é de apenas cinco quilómetros. É precisamente nessa zona que está a principal instalação da Marinha espanhola no norte do país, com cinco fragatas instaladas para lidar com eventuais ameaças.
Além disso, em Ferrol estão vários mecanismos e dispositivos de defesa, desde logo um centro de certificação e manutenção de mísseis e torpedos. É também ali que se constroem as fragatas mais modernas da Marinha espanhola.
Olhando para tudo isso, o Ministério da Defesa de Espanha vê razões para preocupações – é “uma ameaça”, avisou, segundo o El Mundo – com a instalação de uma fábrica de uma empresa que pertence ao Estado chinês naquela mesma zona.
O El País escreve que a ministra da Defesa, Margarita Robles, já transmitiu a sua preocupação ao presidente da Galiza, mas o comprometimento de Alfonso Rueda parece estar mais virado para que se avance o projeto, já que o responsável o considera estratégico para recuperar o tecido industrial da sua região.
Resta saber como vai evoluir a questão, ainda para mais com uma Espanha frágil na NATO, onde continua a ser atacada pelos Estados Unidos. A possibilidade de vir a ser alvo de espionagem e até de ciberataques da China certamente que não agradará à Aliança Atlântica.