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Afonso do Ó avisa que Portugal regista um consumo muito próximo do limite da oferta. “Devemos pensar nisto como um seguro”.

Os problemas começaram no final de Junho e prolongaram-se por semanas: Almada ficou sem água em diversos momentos. As primeiras queixas foram na Costa da Caparica, mas os cortes mantiveram-se mais tarde, sobretudo entre as 22h e as 6h.

Mas a culpa não é da natureza. Afonso do Ó, consultor de Água e Restauro Ecológico do World Wide Fund for Nature (WWF) Portugal, salienta que a região de Almada, e não só, “tem uma origem de água fabulosa”.

Afonso refere-se ao maior aquífero da península Ibérica, o aquífero da margem esquerda do rio Tejo. Abastece os concelhos da margem sul do Tejo, através de furos, fornecendo água a cerca de 500 mil pessoas.

“Isso só me faz pensar que tudo o que se está a passar tem a ver com o sistema tecnológico de captação e abastecimento, não com uma falência da origem. Provavelmente, o problema é o sistema estar obsoleto ou a funcionar mal”, avisa, no Jornal de Negócios.

Afonso do Ó explica que os aquíferos não têm grandes variações de água: respondem muito tardiamente às variações da precipitação, ao contrário dos rios e das barragens.

“Presumo que o que faz falta na Câmara da Almada é reforçar o sistema de captação”, reforça.

Chuva não dura sempre

2026 registou um Inverno muito chuvoso em Portugal, sobretudo na zona Centro.

É água que dá alguma margem “mas isso não dura para sempre. As estatísticas e os modelos de alterações climáticas não nos mostram que vamos ter muitos mais anos chuvosos. O mais provável é termos agora três ou quatro anos com muito pouca chuva”.

O consultor alerta para um dos principais problemas em Portugal: “Vivemos no limite da procura face à oferta que temos, que é a água que está disponível nas barragens, nos furos e por aí fora. A nossa procura é tão elevada que facilmente num ano normal ou um bocadinho abaixo do normal, esgotamos essa oferta”.

“Estamos num nível de consumo de água tão elevado que faz com que rapidamente possamos entrar numa situação de escassez – que é faltar a água face à procura – mesmo sem haver um cenário dramático a nível climático. (…) Na maior parte dos anos, temos problemas de falta de água”, lamenta o especialista.

Seguro

Para Afonso, a utilização da água deve ser pensada “como um seguro”.

“Temos de fazer um consumo de água que garanta que, no ano que vem, mesmo que não chova, haverá água suficiente para o que precisamos”.

O consultor da WWF reforça que, em Portugal, “falta uma cultura da gestão do risco que existe em países que lidam com este problema há mais tempo, como na Austrália, no estado da Califórnia ou até no Sul da Espanha”.

Perder um terço da água não deveria acontecer, com o investimento que o país fez nas infraestruturas: “Claramente não precisamos de mais infraestruturas, precisamos de reduzir essa perda”.