Honestino Guimarães com a filha, Juliana, em foto reproduzida no documentário “Honestino”.Pandora Filmes / Divulgação
Ganha sessão de pré-estreia nesta quarta-feira (12) em Porto Alegre o filme Honestino (2025), que fecha com o oscarizado Ainda Estou Aqui (2024) e o documentário Doutor Araguaia (2024) uma trilogia recente e informal sobre três casos emblemáticos de desaparecimentos políticos durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985).
Dirigido por Walter Salles, Ainda Estou Aqui é a cinebiografia de Eunice Paiva (1929-2018), viúva do deputado federal cassado Rubens Paiva, levado de sua casa, no Rio de Janeiro, em janeiro de 1971.
Doutor Araguaia, de Edson Cabral, conta a história do médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho, o Dr. Juca, morto por tropas militares em setembro de 1972, no sul do Pará.
Bruno Gagliasso interpreta o líder estudantil nas cenas ficcionais do documentário “Honestino”.Luciana Melo / Divulgação
Honestino, de Aurélio Michiles, é um belo documentário que retrata a vida e a luta de Honestino Guimarães, o Gui, líder estudantil que foi preso cinco vezes entre 1964 e 1973 — e nunca mais foi visto depois do último encarceramento, quando tinha 26 anos. O filme mistura depoimentos, imagens de arquivo e dramatizações nas quais o personagem é interpretado pelo ator Bruno Gagliasso. Assinada por André Finotti, que coescreveu o roteiro com Michiles, a montagem recebeu o troféu Redentor no Festival do Rio do ano passado.
A sessão de pré-estreia, às 19h de quarta, será no CineBancários (Rua General Câmara, 424, no Centro Histórico de Porto Alegre). Depois da exibição, haverá bate-papo sobre memória e direitos humanos com a presença de Roberta Baggio, professora de Direito Constitucional e coordenadora da Comissão da Memória e da Verdade da UFRGS, e de Paulo de Tarso Carneiro, militante político que participou da resistência à ditadura. A conversa será mediada pelo jornalista Fabio Canatta, e os ingressos custam R$ 14 (R$ 7 a meia-entrada). Na quinta (13), o filme entra em cartaz no mesmo cinema e também na Cinemateca Paulo Amorim.
Diretor dos documentários O Cineasta da Selva (1997) e Segredos do Putumayo (2020), o amazonense Aurélio Michiles foi contemporâneo do goiano Honestino Guimarães na Universidade de Brasília (UnB). Michiles cursou o Instituto de Artes e Arquitetura entre 1970 e 1973, enquanto Honestino estudava Geologia.
Então aluno do Ensino Médio, Honestino iniciou sua militância no movimento estudantil de Brasília em 1963, após a repressão brutal da polícia em uma manifestação que pedia a diminuição do preço da passagem de ônibus. Filiado à Ação Popular, organização clandestina originada de movimentos sociais católicos, ele chegou a ser presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).
O documentário reconstitui sua trajetória a partir de cartas, poemas, fotos, filmes de época, cenas ficcionais e muitos depoimentos. Gravações antigas trazem os relatos de Dona Rosa, a mãe de Honestino, e Norton, um de seus irmãos, ambos já falecidos. Entre os entrevistados de Michiles, estão José Genoino, Franklin Martins, Almino Afonso, Jorge Bodanzky, a biógrafa Betty Almeida e Jean Marc von der Weid (presidente da UNE que foi preso pelo regime militar e banido do país em 1969, após ser trocado pelo embaixador da Suíça sequestrado por grupos guerrilheiros). Há também os depoimentos de Isaura Botelho, a primeira esposa, Juliana Botelho Guimarães, filha do casal, e Shoshana Rapoport Furtado, companheira do líder estudantil durante o período em que ele viveu clandestino no Rio de Janeiro.
Juliana Botelho Guimarães em cena do depoimento no documentário “Honestino”.Luciana Melo / Divulgação
Cada depoimento acrescenta camadas à personalidade de Gui, mas algumas características se repetem, como a consciência social (uma herança de família), a capacidade de persuasão pela palavra, a coragem, a resiliência e o amor por viver. Mesmo mesmo perseguido, mesmo na clandestinidade, Honestino não deixava de atuar no campo político e de fazer as coisas de que gostava, como ouvir samba em um boteco ou jogar futebol na praia. Quando se acentuaram as chamadas quedas — as prisões e os desaparecimentos —, ele se recusou a sair do Brasil. Mais do que isso: passou uma reprimenda em um colega que fugiu para o Chile por medo de morrer: “Você tem que reconhecer que o seu problema não é político. O seu problema é de recuo ideológico”.
E cada depoimento de Juliana é carregado de emoção. A filha de Honestino guarda pouquíssimas lembranças do pai, mas essas memórias perduram; há raríssimas fotos, mas elas são a prova de uma existência, a prova de um amor paterno, “a prova de que ele me segurava nos braços”.
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