Houvesse a categoria de melhor título de série, já teríamos um favorito para o próximo Emmy. Traduzindo direto do inglês, seria vida, Larry e a busca pela infelicidade, uma quase história da América. Lançada pela HBO no final de junho, a série tem o último episódio agora à disposição dos assinantes da plataforma.
“Larry e a Busca da Infelicidade“, como foi apresentada no Brasil, reúne o genial e mal-humorado Larry David com o simpático e afável Barack Obama para contar a história dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos.
Obama entrou com a sua produtora, a Higher Ground, criada em sociedade com a mulher, Michelle, e David trouxe o seu costumeiro personagem, aquele tipo cheio de si, irritado e idiossincrático, frequentemente insuportável na sua rabugice.
Cada um dos sete episódios reconstitui três ou quatro eventos célebres da história americana, sempre com alguma pimenta adicionada por Larry David para atrapalhar os acontecimentos. Rimos sempre dele, aparentemente, mas, na realidade, é ele que está rindo dos americanos. Nem sempre se nota, e às vezes pode parecer sem graça, mas Larry nunca deixa de acrescentar um humor fino aos casos que encena.
Colunas
Vou dar um pequeno spoiler para que o leitor tenha uma ideia do formato da série. No primeiro episódio, um dos esquetes é sobre Rosa Parks, uma ativista que, em 1955, se recusou a sentar no fundo do ônibus, como exigia a lei segregacionista do estado de Alabama. O seu gesto impulsionou a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.
Na série, Rosa se senta ao lado de Larry no ônibus, mas a conversa dele é tão chata e sem sentido que ela prefere se mudar para a parte de trás com os outros negros —atrasando o fim da segregação em algumas semanas.
Sempre temperados por boas doses de absurdo, os esquetes tratam, entre outros temas, do debate em torno da própria declaração da independência, do caso Watergate, da invenção do telefone, do antissemitismo de Henry Ford, do assassinato de Abraham Lincoln e da chegada do homem à Lua.
Obama brilha como ator no último esquete do episódio final. Ele e Larry David trocam de papéis ao evocar o dia, em 2014, em que o então presidente apareceu diante dos jornalistas na Casa Branca para falar sobre o Estado Islâmico usando um terno bege. A escolha da cor foi considerada inapropriada para a gravidade da situação, causou polêmica, debates na imprensa e muita piada.
Ao rir desse episódio banal, e não de outros momentos históricos da gestão Obama, a série “Larry e a Busca da Infelicidade” reforça que o seu foco são os exageros e a pompa que envolvem esses 250 anos de independência.
Larry David é cocriador de “Seinfeld”, exibido de 1989 a 1998, talvez a melhor sitcom já escrita, e também autor “Segura a Onda“, que durou de 2000 a 2024, na qual se reinventou como ator, além de roteirista. Ao longo de 12 temporadas, criou um alter ego genial, que contracena com atores amigos, e faz observações afiadas sobre tudo que diga respeito ao seu cotidiano, sempre na direção oposta ao politicamente correto.
Barack e Michelle Obama criaram a Higher Ground —terreno mais elevado, em tradução literal— em 2018. Entre as dezenas de projetos de séries, filmes e podcasts que vem desenvolvendo desde então, o mais badalado foi o documentário “Indústria Americana”, distribuído pela Netflix, que venceu o Oscar em 2020. O filme documenta o choque cultural causado pela gestão chinesa de uma fábrica americana de vidros para veículos.
Entro de férias e retorno em 9 de setembro.
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