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De segunda a sexta, pode contar com o “Quente e Frio” na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva, mas quem nos traz as previsões sempre certas é a Filomena Martins. Olá, Filomena, boa tarde.
Olá, João.
Eu vou de férias. Hoje é o meu último dia aqui de trabalho, tenho semanas de férias pela frente e quero saber como vai estar o tempo nos próximos dias. Aliás, muitos portugueses que estão neste momento também de férias esta semana.
Para esta semana, as notícias são boas.
OK.
Aliás, são boas também para quem quer ver o eclipse, porque o dia mais quente desta semana, que vai ser uma semana de muito calor, deverá ser quarta-feira, que é precisamente o dia do eclipse.
Muito bem. E sem nuvens, que é importante para vermos este fenômeno.
Isso já é mais difícil de dizer. As temperaturas é fácil, começaram a subir já esta segunda-feira, aumentam terça e na quarta, várias zonas do interior podem aproximar-se dos 40 °C. E o calor vai manter-se assim, muito intenso até sexta, antes de surgirem sinais de uma mudança durante o fim de semana, com a descida das temperaturas e possibilidade do regresso dos aguaceiros e trovoadas. E esta, que é a má notícia, porque é nesta que eu vou de férias, João.
Pois, não me digas que vamos ter de andar de guarda-chuva no fim de semana.
É provável. É uma subida importante esta que vamos ter esta semana, vai estar realmente muito calor, sobretudo no interior, mas há uma diferença em relação ao que está a acontecer em Espanha e França. Aí, sim, estão com uma nova vaga de calor, já não sei qual é, já deixei de contar. Será mais intensa, será muito intensa a configuração de cúpula de calor sobre parte da Europa Ocidental. Portugal continua a fugir, a escapar a estas cúpulas, a estas ondas de calor, por causa da margem atlântica. A dorsal anticiclônica que traz o calor também nos vai trazer ar quente, mas a influência do Atlântico e o vento norte travam o aquecimento junto à costa e, portanto, vamos ficar aqui mais fresquinhos. O IPMA já colocou Bragança, Vila Real, Viseu e Guarda sob aviso amarelo para o tempo quente terça e quarta-feira, e os 40 °C podem aparecer localmente, quer na zona transmontana, quer no interior alentejano.
Muito bem, então o ideal é aproveitar esta semana. Quem pode, no fim de semana podemos ter de precisar do guarda-chuva. Na costa, Filomena, continua fresco ou nem por isso?
Continua fresquinho. Os tais contrastes de verão que temos tido. Enquanto o interior aquece, o litoral continua muito mais fresco. Porto, por exemplo, fica pelos 25, 26 °C, Viana também na casa dos 20 e muitos, Aveiro e Leiria bastante abaixo dos valores do interior. Lisboa sobe para cerca de 32 °C na quarta-feira, ainda assim muito longe dos 39, 40 °C do Nordeste. O contraste não existe apenas entre o litoral e interior, ficas a saber. Existe também entre o dia e a noite. Nas zonas interiores mais secas e de maior altitude, a amplitude térmica pode ultrapassar facilmente os 20 °C de diferença. Guarda e Viseu podem ter tardes de mais de 30 °C e madrugadas perto dos 14 °C.
Uma grande diferença de temperatura.
No Algarve, Faro mantém as noites tropicais com temperaturas que dificilmente vão baixar dos 20 °C.
As coisas estão então melhores a sul nesse respeito.
Certo.
No dia do eclipse, que é já quarta, já tens os óculos de proteção?
Já tenho os óculos de proteção, claro. Não sei por quê, porque eu vou estar aqui dentro.
Se eventualmente fores lá fora ver este fenômeno.
Não dá. Tens de saber onde é que ir e onde é que ir é saber, se vires o pôr do sol, já sabes que podes ir. Portanto, vais escolher.
Bem, e neste dia de eclipse, quarta-feira, o que podemos esperar?
Tempo favorável em todo o território, com o céu pouco nublado ou limpo, mas há uma variável muito importante que só se vai saber muito perto da hora. Se há nevoeiro ou nuvens baixas junto ao litoral norte e centro. A sul, tudo bem. No litoral pode haver algumas nuvens ou nublinas, e isso só ali mesmo em cima da hora. No interior, o cenário é favorável completamente. E pronto, vais para o meio do mar, não tens nada que saber.
Muito fácil. Entretanto, tu, Filomena, queres trazer aqui um fenômeno e é de trovoadas que vais falar, é isso?
Sim, sobretudo destas trovoadas secas, com trovões enormes, relâmpagos e depois quase não chove. As trovoadas podem regressar, eu já disse, no próximo fim de semana, se confirmar o aumento da instabilidade, primeiro no Norte e depois, eventualmente, descer para todas as outras regiões. É assim sempre no verão, porque é um tipo de trovoada muito particular para o verão e muito perigoso. E nós conhecemo-lo, o céu parece que escurece de repente, sucedem-se os relâmpagos, os trovões, que até fazem estremecer as janelas, e no fim caem apenas umas gotas enormes e não chove. E a explicação está no percurso que a chuva tem que fazer até ao solo. Dentro da nuvem de trovoada, o cumulonimbo, a precipitação forma-se normalmente como se fosse uma nuvem trovoada, o problema é o que encontra cá embaixo. Depois de vários dias de calor, as camadas inferiores da atmosfera estão muito quentes e muito secas e à medida que as gotas caem, parte da água evapora-se e desaparece antes de chegar ao chão. É só isso. Os meteorologistas chamam vírga à chuva que cai da nuvem, mas se evapora antes de atingir a superfície. Visto à distância, até se pode ver uma cortina de chuva suspensa debaixo da nuvem, mas depois vê-se aquela precipitação, parece que aqui, só que ela não chega cá abaixo.
Então os trovões e os relâmpagos são só pra assustar? Há pessoas que sofrem imenso com estes fenômenos.
E são perigosos, é preciso ter cuidado, porque se formam dentro da nuvem e as descargas podem atingir o solo mesmo quando praticamente não chove. É por isso que algumas trovoadas vão fazer um barulho assustador, que é enorme a atividade elétrica e depois ficam só aquelas gotas Mas um raio pode provocar um incêndio sem que caia chuva suficiente para molhar a vegetação. Além disso, a evaporação da precipitação arrefece o ar e pode gerar fortes correntes descendentes de vento, que ao chegarem cá abaixo, espalham-se rapidamente e provocam rajadas muito intensas. Por isso, se as trovoadas regressarem no próximo fim de semana, não é apenas a quantidade de chuva que interessa acompanhar. Uma trovada que quase não deixa água no chão pode trazer raios e vento forte, exatamente uma combinação que menos interessa depois de uma semana de calor.
É preciso estar atento. Vamos fechar a edição desta segunda-feira com uma curiosidade, até porque vais falar das perigosas caravelas portuguesas.
Sim, porque elas já andam pelo País Basco, pelo Golfo de Biscaia, andam lá muito em cima. Esses bichos com nomes portugueses parecem medusas e aparecem muito mais ao norte do que muita gente esperaria. A chegada das caravelas portuguesas à costa do País Basco levou a que fossem restringidas algumas praias, se suspendessem os banhos e provocou muitas picadas. A primeira coisa a dizer é que a caravela portuguesa não é uma medusa, ao contrário do que muita gente pensa, e também não nada até ao País Basco. Ela chama-se Physalia physalis, e uma colónia formada por esses organismos especializados que funcionam em conjunto é que chegou ao País Basco, porque elas à superfície têm uma bolsa cheia de gás, geralmente azulada ou violeta, que funciona quase como uma pequena vela. E é precisamente essa vela que ajuda a explicar estas viagens tão grandes. A caravela não consegue escolher para onde vai. Ela é levada pelas correntes oceânicas e empurrada pelo vento à superfície. Uma determinada e combinada circulação marítima e ventos persistentes pode concentrar estes organismos e levá-los até as zonas costeiras muito afastadas dos locais onde normalmente andam. E é também por isso que podem aparecer muitas, praticamente de um dia para o outro, num certo sítio. Não é uma explosão súbita da população naquela praia, foi o vento que as levou e concentrou ali, quando elas estavam dispersas pelo oceano. Nem todas as caravelas têm a vela orientada exatamente da mesma forma, por isso é que podem ir parar a sítios também diferentes. E aquele aspeto bonito, que a gente já viu, engana, porque os tentáculos podem estender-se por muitos metros e possuem células capazes de provocar picadas muito dolorosas, mesmo quando a caravela já deu à costa. Portanto, encontrar uma na areia também não é para lhes mexer. O episódio do País Basco mostra uma coisa interessante. Para perceber onde vão aparecer caravelas portuguesas, não basta olhar para a temperatura do mar, é preciso seguir o vento e as correntes.
E é preciso estar atento e fugir destas caravelas portuguesas.
É bom não mexer.
Isso mesmo. Filomena Martins, muito obrigado. Amanhã estás de regresso para uma nova edição do “Quente e Frio”, sempre também disponível em podcast. Obrigado.
Estarei.