Uma equipa de investigadores chineses e norte-americanos conseguiu provar aquilo que Charles Darwin apenas suspeitava desde 1875: existe, afinal, uma planta do género Saxifraga que é carnívora. A descoberta fecha um mistério botânico com um século e meio de existência.
A suspeita de Darwin
Ainda no século XIX, Darwin reparou que duas espécies de Saxifraga tinham pelos glandulares pegajosos, muito parecidos com os que existem noutras plantas carnívoras conhecidas.
O naturalista britânico chegou a propor que estas plantas poderiam alimentar-se de insetos, mas as experiências da altura não foram suficientes para o comprovar.
Para uma planta ser considerada carnívora, não basta prender insetos, é preciso que também os atraia ativamente e os consiga digerir, absorvendo os nutrientes.
Sem tecnologia para confirmar esse último passo, a teoria de Darwin ficou em suspenso durante mais de 150 anos.
Ilustração de Saxifraga umbrosa. D’après les aquarelles de J. Eudes dans: A. Guillaumin, Les Fleurs de Jardins, tome I: Les Fleurs de Printemps, Paul Lechevalier, 1929. Fonte: National Geographic Portugal
O que os cientistas descobriram agora
A equipa, liderada por Hang Sun, do Instituto de Botânica de Kunming, na Academia Chinesa de Ciências, estudou a Saxifraga candelabrum, uma planta que cresce a grande altitude no planalto do Tibete e nas montanhas de Hengduan, na China.
Através de análises químicas, os investigadores confirmaram que a planta liberta odores capazes de atrair pequenos mosquitos. Depois de capturados nos pelos pegajosos, os insetos são decompostos por uma enzima digestiva chamada fosfatase.
Fotografias mostram os pelos glandulares vermelhos e pegajosos e os insetos capturados em diferentes partes da planta. a. Plantas com flores que prosperam nas fendas das rochas. b. Plantas cobertas por insetos capturados. c. Haste ereta; grande plano do ráquis. d. Folha com um insecto capturado. e. Cálice e pedicelo. Fonte: Revista Nature Communications
A prova mais definitiva veio de uma técnica de marcação isotópica, que permitiu seguir o percurso do azoto (nitrogénio) presente nos insetos até aos tecidos da própria planta, demonstrando que a Saxifraga não só captura como também absorve nutrientes das suas presas.
A análise genética reforçou a descoberta, ao revelar que esta planta partilha genes ligados à atração, digestão e absorção de nutrientes com outras espécies carnívoras já conhecidas.
Convergência filogenética e processos-chave de atração, captura, digestão e absorção de presas, comprovados por experiências de campo, ensaios enzimáticos e marcação com isótopos estáveis. 15N designa um isótopo estável de azoto. Fonte: Revista Nature Communications
Um habitat inédito para plantas carnívoras
Ao contrário da maioria das plantas carnívoras, que crescem tipicamente em pântanos, a Saxifraga candelabrum desenvolve-se entre os 2500 e os 3300 metros de altitude, em solo rochoso, seco e pobre em nutrientes.
Segundo os investigadores, esta adaptação faz todo o sentido, pois, em solos pobres em nitratos, capturar e digerir insetos torna-se uma forma eficaz de obter os nutrientes que faltam ao solo. É a primeira vez que este comportamento é confirmado num ambiente alpino.
Entretanto, sabe-se que a espécie não está ameaçada, crescendo de forma saudável na sua área de distribuição atual, e não é afetada, para já, pelas alterações climáticas ou pela atividade humana.
A planta Saxifraga candelabrum, em flor, captura insetos com os seus pelos glandulares pegajosos. Crédito: Xin-Jian Zhang, via CNN
Pode haver mais plantas carnívoras “escondidas”
Ao expandirem a análise genética a outros grupos de plantas com estruturas semelhantes, os cientistas encontraram dezenas de genes ligados à digestão de insetos espalhados por várias famílias botânicas. Isto sugere que o comportamento carnívoro pode ser muito mais comum entre as plantas com flor do que se pensava.
Atualmente, das mais de 350 mil espécies de plantas com flor conhecidas, apenas cerca de 750 são reconhecidas como carnívoras.
Com esta descoberta, publicada há poucos dias na revista Nature Communications, os investigadores acreditam que muitas outras espécies, hoje vistas apenas como plantas com pelos pegajosos por acaso, possam na verdade ter capacidades digestivas ainda por identificar.




