Vão custar 3,9 mil milhões de euros, mas prometem transportar as capacidades da marinha portuguesa para um novo patamar, mais tecnológico e de olhos postos na caça a ameaças aéreas e submarinas

O contrato ainda não foi assinado, mas a compra da nova geração de fragatas já dá que falar. Os detalhes ainda estão a ser afinados entre Portugal e Itália, mas uma coisa é certa, as três novas fragatas FREMM EVO construídas pelos estaleiros Fincantieri vão custar 3,9 mil milhões de euros, financiados através do mecanismo europeu SAFE. Mas quais foram as características que levaram a Marinha a escolher esta plataforma e o que faz dela um salto significativo nas capacidades navais portuguesas?

As fragatas da classe FREMM EVO são a evolução da Fragata Multi-Missão Europeia, utilizada pela marinha francesa e italiana. Ao contrário das versões projetadas no início da década de 2000, as fragatas que Portugal vai comprar são construídas de raiz com arquitetura de guerra centrada em dados e integração nativa de drones, sendo capaz de se defender contra enxames de drones, sejam aéreos ou de superfície. 

As capacidades destas plataformas brilham ainda mais quando comparadas com as atuais capacidades da Marinha portuguesa. As FREMM EVO vão substituir três das cinco fragatas da frota, as da Classe Vasco da Gama, que entraram em serviço na década de 90 e estão em fim de vida.

A diferença entre o tamanho das duas embarcações é significativa. As velhas fragatas da Classe Vasco da Gama tinham 3.200 toneladas, 115 metros de comprimento e 14 de largura. Os novos vasos de guerra disparam para 144 metros de comprimento e quase 20 de largura e um deslocamento de sete mil toneladas. Estas maiores dimensões dão uma maior estabilidade aos navios em alto mar, uma qualidade apreciada por uma Marinha que tem de proteger as águas do Atlântico, bem como capacidade para dois hangares para helicópteros.

Estas dimensões permitem-lhe também equipar o navio com muito mais capacidades. As FREMM EVO são equipadas com radar AESA de faces fixas capaz de vigilância 360º. Apesar de serem maiores, transportam menos marinheiros a bordo, uma vez que as capacidades de automatização permitem que o navio seja operado por uma tripulação de 140 marinheiros. As fragatas Vasco da Gama tinham capacidade para uma tripulação de 180 marinheiros.

Para o Governo e para as Forças Armadas, a compra destes equipamentos permitirá a Portugal cumprir os objetivos capacitários da NATO (Capability Targets), acrescentando uma “bolha” de defesa antiaérea de alta intensidade e capacidades de topo na luta antissubmarina. Na vertente aérea, dispõem de silos verticais (VLS) prontos para disparar mísseis antiaéreos Aster 15 e Aster 30, este último capaz de intercetar ameaças a distâncias superiores a 100 km, incluindo mísseis balísticos e hipersónicos.

Já na vertente de subsuperfície, são consideradas das mais avançadas do mundo na caça a submarinos. O casco, os motores e as hélices foram desenhados para mitigar ruídos e vibrações, conferindo ao navio capacidades que o torna extremamente difícil de detetar. Em paralelo, trazem o sonar rebocado de profundidade variável CAPTAS-4, desenrolado na popa para superar as camadas térmicas do oceano e detetar submarinos a longas distâncias.

À CNN Portugal, o Almirante Henrique Gouveia e Melo, antigo Chefe do Estado-Maior da Armada, garantiu que estas fragatas são “vocacionadas para o Atlântico porque são essencialmente antisubmarinas”, mas que mantêm as capacidades convencionais de defender o território português contra “mísseis hipersónicos”.

Mas, perante uma “área marítima extensíssima numa posição geoestratégica de elevado valor” e com poucos recursos ao seu dispor, o antigo CEMA admitiu que esta compra faz com que a marinha evolua para “uma marinha mais disruptiva”, desenvolvendo a robótica militar para “poupar recursos e expandir a capacidade”

Nisto, as FREMM EVO funcionam como o escudo de proteção e nódulo de comando indispensável para acompanhar o futuro Navio de Múltiplas Funções, o NRP D. João II, o “catalisador desta nova marinha híbrida” concebido para gerir enxames de drones. Como sublinhou Gouveia e Melo, “não podemos cair no vácuo de apostar numa marinha totalmente robotizada esquecendo a parte convencional”, sendo estas três fragatas o elemento que garante a base das capacidades da marinha.

Em declarações à CNN Portugal, o ministro da Defesa revelou mais detalhes sobre os valores envolvidos. Nuno Melo admitiu que do pacote de 3,9 mil milhões “cerca de 3 mil milhões são pela aquisição das fragatas tout court e 0,9 relativamente à sustentabilidade destes equipamentos”, destacando que o objetivo é investir “no ciclo de vida, para que estes equipamentos não fiquem parados numa base militar como já aconteceu no passado”.

Horas mais tarde, o executivo adiantava em comunicado que “a sustentação do ciclo de vida dos navios, seus sistemas, e armas, será integralmente realizada em Portugal, como corolário do processo de capacitação nacional e da revitalização do Arsenal do Alfeite, podendo representar mais de 85% em valor global de sustentação dos meios”.

Toda a manutenção dos navios será realizada em Portugal, e apenas em casos pontuais de tecnologias proprietárias de Estados terceiros, tal como já se passa presentemente noutros meios da Marinha, em que a sustentação será efetuada através de organizações cooperativas internacionais entre Estados”, acrescenta o Ministério chefiado por Nuno Melo.

A sustentação das três fragatas por um período não inferior a 30 anos, bem como uma “forte incorporação de empresas nacionais”, a transferência de tecnologia e a revitalização do Arsenal do Alfeite, já estavam previstas no acordo entre Portugal e Itália anunciado em 20 de julho.