A Rússia dispara atualmente mais mísseis numa semana do que a Ucrânia recebe dos seus parceiros ao longo de vários meses
A Europa está a tentar encontrar mais mísseis intercetores Patriot para entregar à Ucrânia, numa altura em que Kiev corre contra o tempo para reforçar a defesa contra mísseis balísticos russos antes do esperado agravamento dos ataques no inverno, revela o Politico.
“Estamos literalmente a lutar por cada míssil”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sybiha. O país precisa de centenas de intercetores, mas a produção de novos mísseis não chegará a tempo, enquanto a guerra com o Irão pressionou ainda mais os arsenais norte-americanos.
A escassez é particularmente grave nos mísseis PAC-3 e PAC-2, considerados uma das poucas defesas eficazes da Ucrânia contra os rápidos mísseis balísticos russos. Em julho, a defesa antiaérea ucraniana intercetou apenas 29 dos 195 mísseis balísticos lançados pela Rússia, segundo o Ministério da Defesa ucraniano.
Mykhailo Fedorov, antigo ministro da Defesa da Ucrânia, alertou que a Rússia dispara atualmente mais mísseis numa semana do que a Ucrânia recebe dos seus parceiros ao longo de vários meses. Embora Kiev esteja a desenvolver o intercetor nacional Freyja, este ainda precisa de investimento, trabalho de engenharia e testes antes de poder assumir essa função.
Enquanto isso, a Alemanha, um dos principais aliados militares da Ucrânia, já forneceu sistemas Patriot e mísseis, mas enfrenta agora um dilema: continuar a responder às necessidades urgentes de Kiev ou preservar os stocks considerados necessários para a sua própria defesa e para cumprir os compromissos com a NATO.
“Estamos realmente a chegar aos nossos limites”, afirmou o brigadeiro-general Jürgen Schrödl, do Ministério da Defesa da Alemanha, citado pelo Politico. A pressão está também a aumentar sobre países como a Polónia, Espanha e Grécia. Varsóvia confirmou ter enviado alguns intercetores PAC-3, mas a decisão provocou críticas internas devido aos receios sobre a capacidade de defesa do próprio país.
A dependência dos Patriot torna também essencial a posição dos Estados Unidos. A maioria dos intercetores PAC-3 é produzida em território norte-americano, pelo que a sua venda e os acordos de produção dependem de decisões da administração de Donald Trump.
O presidente norte-americano chegou a admitir que a Ucrânia poderia produzir intercetores Patriot concebidos pelos EUA sob licença, mas recuou posteriormente, afirmando que a questão ainda estava a ser discutida.
Mesmo que o acordo avance, Matthew Whitaker, embaixador norte-americano junto da NATO, avisou que uma produção a longo prazo não resolverá a escassez imediata, uma vez que os primeiros mísseis demorariam a ser fabricados.
A Ucrânia também assinou um acordo para receber PAC-2 produzidos na Alemanha, mas estes não deverão chegar antes do próximo ano. Perante a falta de intercetores, Kiev está a intensificar as conversações com os aliados europeus, procurando mísseis disponíveis nos arsenais de países como Espanha e Grécia. O problema é que vários governos consideram já insuficientes os seus próprios sistemas de defesa aérea e mostram relutância em abdicar de munições.
Para a Ucrânia, a margem de manobra é cada vez menor. Enquanto tenta garantir, comprar ou trocar todos os intercetores possíveis, aproxima-se o inverno e com ele a necessidade de reforçar rapidamente a proteção contra os mísseis balísticos russos.