O Presidente dos EUA, Donald Trump, assinou esta segunda-feira uma ordem executiva que diminui o número de vacinas recomendadas em idade infantil de 18 para 11. Uma das vacinas retiradas é a vacina conjunta contra o sarampo, papeira e rubéola, sendo que a imunização contra estas doenças deverá ser feita com vacinas em doses separadas, algo que está a preocupar os especialistas. Trump pediu também ao Departamento de Justiça que conteste as leis estaduais sobre vacinas, numa tentativa de condicionar a decisão de cada estado. Numa conferência de imprensa, o Presidente norte-americano relacionou ainda as vacinas com o autismo, seguindo uma tese (sem base científica) defendida pelo secretário da Saúde, Robert F. Kennedy Jr.
A ordem executiva recomenda a vacinação infantil universal contra 11 doenças, em vez das 18 recomendadas até agora pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA. As vacinas excluídas da lista são as contra COVID-19, gripe, rotavírus, hepatite A, hepatite B, meningite bacteriana e VSR (Vírus Sincicial Respiratório), detalha a agência Reuters. Estas vacinas passam apenas a ser recomendadas para a população em idade pediátrica considerada de risco.
Donald Trump criticou o número de doses de vacinas administradas durante a idade pediátrica, que podem chegar às 72 nos EUA. “Estamos a exigir 72 injeções para as nossas lindas, saudáveis, adoráveis e delicadas crianças”, lamentou o Presidente dos EUA.
A ordem recomenda também a administração da vacina conjunta contra o sarampo, papeira e rubéola (designada como VASPR) em três doses diferentes, administradas em consultas separadas. O Presidente norte-americano sugeriu que a vacina poderia ser “bastante letal” se administrada de uma só vez, comparando a administração a despejar uma garrafa de refrigerante no corpo de uma criança. Quando um jornalista questionou Trump sobre que evidências apontam para que a vacina tríplice possa ser “letal” para as crianças, o chefe de Estado dos EUA, citado pela BBC, respondeu: “O que eu ouvi é que algumas pessoas dizem que é assim”.
No entanto, atualmente, não existem nos Estados Unidos vacinas separadas contra o sarampo, a papeira e a rubéola para crianças. Para além disso, especialistas em saúde pública citados pela agência Associated Press manifestaram preocupação com o facto de o espaçamento entre vacinas sugerido por Trump poder aumentar o risco de as crianças contraírem entre consultas doenças contra as quais há imunização.
O presidente da Academia Americana de Pediatria, Andrew Racine, alerta que o anúncio gera incerteza, medo e confusão, e “não há necessidade disso”. Segundo o especialista, as anteriores recomendações deveriam ter sido mantidas. “A ciência sobre as vacinas e a sua eficácia não mudou”, disse Andrew Racine. Já o pediatra e investigador Paul Offit, do Hospital Pediátrico da Filadélfia, vinca que as recomendações de Trump “simplesmente não têm base científica” e que é irresponsável lançar dúvidas sobre uma vacina que protege contra o sarampo — numa altura em que o país enfrenta a sua maior epidemia da doença dos últimos 30 anos. “O dano que isso causará é… semear o caos e confusão no sistema, de modo que as pessoas não tenham certeza do que devem fazer”, alertou o especialista.
“A sugestão de que separar as vacinas contra sarampo, papeira e rubéola tenha algum benefício é incorreta tanto do ponto de vista científico quanto em relação à resposta imunológica”, sublinha, por outro lado, a pediatra Molly O’Shea, do Michigan. “Na verdade, a resposta imunológica é melhor quando são administradas juntas. Não há benefício algum em separá-las”, garante a médica.
I’m a doctor. This executive order is wrong. The President does not have the expertise to make these changes.
Vaccines are overwhelmingly safe. Vaccines are effective. Vaccines DO NOT cause autism.
Breaking up vaccines will mean children have to get more shots to get the same… https://t.co/9RoPfVsU8h
— U.S. Senator Bill Cassidy, M.D. (@SenBillCassidy) August 10, 2026
A ordem executiva assinada por Trump foi até criticada pelo presidente republicano da Comissão de Saúde do Senado, Bill Cassidy (que é médico gastroenterologista). “Sou médico. Esta ordem executiva está errada”, escreveu o senador da Louisiana na rede social X. “O Presidente não tem a experiência necessária para fazer essas mudanças. As vacinas são extremamente seguras. As vacinas são eficazes. As vacinas NÃO causam autismo. Dividir as vacinas significa que as crianças vão precisar de tomar mais doses para obter a mesma proteção, e não menos. Isso aumentará a hesitação em relação à vacinação e tornará as crianças menos seguras”.
De acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, a vacina VASPR é segura e reafirma que separar a vacina em várias doses não traz qualquer benefício às crianças. “Não há evidências científicas publicadas que demonstrem qualquer benefício em separar a vacina combinada em três doses individuais”, realça aquele organismo, acrescentando que “a maioria das pessoas que recebem a vacina não apresenta problemas sérios” e que tomar a vacina “é muito mais seguro do que contrair sarampo, papeira ou rubéola”.
Nos EUA, a vacinação das crianças em idade infantil é uma competência dos estados norte-americanos, e não do governo federal, mas muitos dos governos estaduais republicanos deverão seguir as recomendações da Casa Branca. No âmbito jurídico, a ordem instrui o Departamento de Justiça, e nomeadamente o procurador-geral dos EUA, a processar os estados que tenham em vigor leis que entrem em conflito com a autoridade parental, a liberdade religiosa e a igualdade perante a lei — uma medida que deverá abranger sobretudo estados democratas, onde as regras de vacinação infantil obrigatória são mais rígidas.
Perante os jornalistas, na Sala Oval da Casa Branca, Donald Trump relacionou a vacinação infantil com o aumento das perturbações do espectro do autismo. “Há décadas, as crianças recebiam apenas uma pequena parte das vacinas exigidas hoje. Naquela época, as pessoas eram muito mais saudáveis. E, claro, as altas taxas de autismo observadas agora não existiam“, disse o Presidente norte-americano, difundindo uma tese defendida há vários anos por grupos radicais e até pelo próprio Secretário da Saúde, Robert F. Kennedy Jr. — um conhecido cético das vacinas. “Portanto, há uma razão para essas taxas de autismo. E vamos reduzir esses índices para níveis muito mais próximos dos anteriores”, continuou Trump. A tese surgiu em 1998, quando foi publicado um estudo (que mais tarde se veio a revelar fraudulento), do médico britânico Andrew Wakefield, e que relaciona a administração da vacina conjunta contra o sarampo, papeira e rubéola com o autismo.
Contudo, os vários estudos realizados até ao momento desmentem uma ligação entre a vacinação e o aumento da prevalência de autismo. Por exemplo, um grande estudo recente, realizado na Dinamarca em 2019, e que analisou mais de 650 mil crianças, concluiu que não existe qualquer relação entre essa vacina e o autismo.
Em dezembro do ano passado, Trump ordenou ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos que analisasse a forma como países comparáveis tratam as recomendações de vacinação e que considerasse a possibilidade de atualizar as orientações dos Estados Unidos da América em resposta. O departamento, liderado pelo secretário da Saúde Robert F. Kennedy Jr. respondeu reduzindo o número de vacinas que recomenda para cada criança, mas esta medida foi posteriormente bloqueada judicialmente. O mesmo pode suceder agora.
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