Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Muito boa tarde, Filomena Martins. Mais uma edição de “Quente e Frio”. Hoje é um dia especial também para quem gosta de tempo e toda mundo está fazendo a mesma pergunta: vai ou não se vai ver bem o eclipse? É então a pergunta que se impõe agora a duas horas de tudo começar.

Olha, não tenho boas notícias.

Oh, não.

Não. Sobretudo pra quem vive mais a norte, porque a faixa costeira do norte e do centro vai mesmo ter períodos de nebulosidade baixa e vai acontecer ao fim da tarde e isso faz a diferença entre ver ou não ver o eclipse. Portanto, é melhor o plano B, ir mais pro interior e aí está garantido, porque no resto da maior parte do continente, o céu deverá estar pouco nublado a limpo, mas junto à costa, sobretudo a norte do Cabo Raso, vão persistir aquelas nuvens baixas características do verão e, portanto, quem está a pensar observar o eclipse aí, não. Quem está a pensar ficar no interior, parte com vantagem.

E o tempo, está bom?

Isso está maravilhoso. E até com uma noite muito agradável para depois do eclipse ir jantar ali pertinho de onde estiver e voltar pra ver as Perseidas.

Pois é outro fenômeno que acontece hoje também.

À noite. E será uma noite quentinha, portanto, é ótimo pra ver as Perseidas.

E continua a existir diferença entre a costa e o interior?

Muito. Junto ao Atlântico, o ar marítimo e o vento norte, a nortada, mantém as temperaturas muito mais suportáveis. No interior, o calor continua muito intenso. Ainda há locais que podem aproximar-se dos 40 e até passar, chegar aos 41. O interior e o Algarve podem atingir-

Ali a zona de Évora subiu hoje, está com 39, mas já sabemos que ali à volta, certeza-

À Amareleja. Sim

…ultrapassa sempre os 40.

E na quinta-feira ainda há nove distritos sob aviso amarelo, devido à persistência dessas temperaturas mais elevadas. Na sexta, os avisos amarelos pelo calor já ficam só reduzidos a Bragança, Guarda e Castelo Branco. Ou seja, o calor começa a perder terreno. E é precisamente a partir daí que a previsão começa a ficar mais interessante ou desinteressante, conforme.

Não me digas que vais começar a estragar as férias a quem vai a meio do mês.

Incluindo eu.

E eu.

Olha, quem vai de férias neste fim de semana não deve olhar pro calor destes dias e assumir que vai encontrar semanas iguais. Os modelos começam a mostrar os primeiros sinais de que a atmosfera pode ficar mais mexida na segunda metade de agosto e a primeira mudança sim, pode acontecer já no sábado, dia 15.

Já é um clássico, não é? Há muitos anos que na segunda quinzena de agosto, muitas vezes chove.

Pois, é verdade. O jato polar, aquela corrente de ventos que eu estou farta de falar aqui, muito fortes, que anda a vários quilômetros de altitude à volta da Terra, deverá ondular. E quando isso acontece, ela permite a aproximação de perturbações com ar mais frio em altitude. À superfície ainda vamos ter calor, mas esta combinação vai fazer com que a atmosfera fique instável. Neste momento, há a possibilidade de aguaceiros e trovoadas dispersos no interior norte e centro, sobretudo ali nos distritos de Bragança, Vila Real, Viseu e Guarda. E depois, algumas células destas trovoadas poderão produzir granizo.

Granizo?

Acerto, mas esta é uma situação convectiva, é assim que se chama, e por isso muito irregular. Pode chover muito num sítio e não cair sequer uma gota a poucos quilômetros de distância. E a localização e intensidade das trovoadas ainda podem mudar nas próximas previsões. Estamos ainda muito incertos.

E depois deste sábado, o que vai acontecer?

Se calhar, começa aí a parte mais interessante, e também aquela com que é preciso ter mais cuidado em falar, porque os modelos estão a dar sinais de que o padrão atmosférico pode tornar-se menos monótono durante a segunda metade de agosto, mas ainda não concordam sobre o que vai mesmo acontecer. Há cenários em que este jato polar fica mais ondulado e permite a aproximação de mais depressões e bolsas de ar frio, e isso faz com que aumentassem as oportunidades de virem aguaceiros, trovoadas e precipitação. As previsões mensais do modelo europeu, por exemplo, que é o mais fidedigno pra nós, mostram mesmo um sinal de precipitação acima do habitual entre 17 e 24 de agosto, mas isto também se chover umas pingas d’água quando normalmente não chove nada, já dá este sinal. Isto não quer dizer, por exemplo, que venha aí uma semana de chuva. E há um outro cenário em cima da mesa, que é uma crista de altas pressões sobre o Atlântico, voltar a ganhar força e devolver a Portugal períodos de tempo seco e estável. Portanto, não estamos a anunciar o fim do verão, nem 15 dias de chuva, são só temperaturas progressivamente mais próximas dos valores normais e uma atmosfera potencialmente mais dinâmica, em que um dia pode ficar mais nuvoado e outro mais quente, e não é uma tendência pra cada dia, ainda é muito difícil fazer isso. Portanto, a mensagem é simples pra quem começa as férias, ainda há muito verão pela frente, talvez não seja má ideia deixar um lugar na mala pra uma melinha e um corta-vento.

Tem que ser. Um impermeável, não é?

Um impermeávelzinho.

E o calor consegue, agora vamos ao fenômeno. O calor consegue criar uma depressão?

Consegue. Quando ouvimos a palavra depressão-

Não mental.

Sim, essa também. Quando está chuva, pra mim, fica a depressão mental também.

E muito calor, então?

Não, isso o calor não me faz isso.

Aí a ti não te…

A palavra depressão na meteorologia está muito ligada à chuva, frentes, vento, mau tempo, mas há uma depressão que aparece sobre a Península Ibérica, e nós temos estes exclusivos, precisamente quando acontece o contrário, muito sol, tempo seco, um calor tremendo, e essa depressão chama-se baixa térmica ibérica. E o mais curioso é que o próprio calor É do próprio calor que ela nasce, porque durante um dia de verão o sol aquece intensamente o continente, o interior da península aquece muito mais depressa do que o Atlântico. O Atlântico funciona como uma enorme reserva de água relativamente fresca. O solo muito quente aquece, por sua vez, o ar que está imediatamente por cima também aquece, expande-se, torna-se menos denso, começa a subir, à medida que sobe, a pressão junto à superfície diminui e se este aquecimento for suficiente intenso e abranger uma grande região, instala-se sobre o interior da península a tal área de pressão relativamente baixa, que é a baixa térmica.

Portanto, calor consegue ajudar a fabricar uma depressão.

Sim, só que esta não é uma depressão como aquelas que chegam do Atlântico no inverno. A baixa térmica ibérica é uma estrutura provocada pelo enorme aquecimento da superfície e é muito mais marcada nas camadas inferiores da atmosfera, não vem lá de cima. E nós conseguimos sentir os seus efeitos, mas não a vemos. Só existe uma baixa térmica sobre o interior da península e ar mais fresco sobre o Atlântico, que favorece a entrada desse ar marítimo para terra, ou seja, a baixa térmica permite organizar as brisas e as circulações de verão, podendo levar a influência atlântica para o interior, ou seja, permitindo que os ares mais frescos do Atlântico venham cada vez mais para dentro, ou seja, equilibra isso tudo. É uma das peças da engrenagem. Podemos ter no mesmo dia a tal praia portuguesa relativamente fresca e temperaturas mais perto dos 40 °C muito no interior, porque aí o ar fresco já não consegue lá chegar. Claro que não trabalha sozinha esta depressão, entra aqui também o antecipante das ossos, a nortada, o relevo, a temperatura do oceano. E a depressão tende sempre a intensificar-se durante o dia, à medida que o continente aquece e depois enfraquece durante a noite. Mas é provavelmente uma das depressões mais estranhas do nosso verão. Não anuncia que o mau tempo chegou, é um sinal só de que a Terra aqueceu tanto que começou a mexer na própria pressão atmosférica, que é uma coisa difícil de mexer.

E esta é a grande noite das Perseidas, mas nem todas as estrelas cadentes são Perseidas.

Não, esta será a grande noite das Perseidas, a chuva de estrelas mais famosas do verão, e este ano com uma ajuda preciosa, porque praticamente não há lua a iluminar o céu e, portanto, a lua nova está escondida e vê-se muito melhor com o céu mais escuro. E as Perseidas acontecem todos os anos quando a Terra atravessa esta corrente de pequenas partículas deixadas pelo cometa 109P/Swift-Tuttle. Sabias isto?

Não. Mas não fica no ouvido.

Quando estes fragmentos entram na atmosfera a enorme velocidade, produzem aqueles riscos luminosos a que nós chamamos estrelas cadentes. Não são estrelas, e na esmagadora maioria dos casos, estamos a falar de partículas minúsculas que se destroem muito acima das nossas cabeças. As Perseidas estão agora no máximo e são de longe as grandes protagonistas destas noites, mas há uma pequena armadilha. Se virmos uma estrela cadente esta noite, ela não tem obrigatoriamente de ser uma Perseida, porque neste momento, há pelo menos três grandes chuvas de meteoros ativas ao mesmo tempo. Além das Perseidas, estão as Deltas Aquáridas do Sul, que permanecem ativas até 23 de agosto, e ainda há as Alfas Capricornídeas, que só terminam por volta de 15 de agosto. E elas não são todas iguais. As Perseidas são muito numerosas e muito rápidas. As Deltas Aquáridas parecem surgir de uma região do céu na direção do aquário. E as Alfas Capricornídeas dão normalmente muito menos meteoros, mas têm uma especialidade: produzem aqueles bólidos muito brilhantes, daqueles riscos de luz que parecem atravessar uma enorme porção do céu e que, por vezes, surpreendem até quem nem estava a observar uma chuva de estrelas.

E como é que sabemos de que chuva veio cada meteoro?

Bem, isso tens de ser especialista, mas os astrónomos fazem uma espécie de investigação ao rastro que se vê. Se prolongares mentalmente essa trajetória para trás, os meteoros pertencentes à mesma chuva parecem convergir num determinado ponto do céu, a que eles chamam radiante. Nas Perseidas, esse ponto fica na direção da constelação de Perseu. Nas Aquáridas, na região de Aquário e nas Capricornídeas, em Capricórnio. Há ainda uma quarta possibilidade. O meteoro pode não pertencer a nenhuma destas chuvas, porque há sempre meteoros daqueles esporádicos.

Solitários.

Andam por ali. Portanto, esta noite vale a pena estar a olhar para cima. A grande chuva é das Perseidas, mas o céu tem várias chuvas de estrelas a acontecer ao mesmo tempo. É quase uma noite com várias famílias de estrelas cadentes. Vamos ver se só uma é a estrela do espetáculo.

E outro ponto positivo é que não precisamos de óculos à noite para ver as estrelas.

Não, aqui é só olhar.

É só olhar e abraçar todo o céu que nós temos. Obrigada, Filomena Martins. Foi mais uma edição de “Quente e Frio”. É para ouvir em podcast.