Laura V. Cuaya

Quatro dos cães que participaram no estudo: Morante, Kunkun, Odin e Molly
Os cientistas observaram o interior dos cérebros de cães enquanto estes viam imagens de pessoas com diferentes expressões faciais.
As imagens cerebrais revelaram que os rostos humanos felizes ativam uma região específica do cérebro canino e, pela primeira vez, forneceram evidências de que os cães conseguem distinguir entre algumas expressões faciais negativas humanas, nomeadamente medo, raiva e tristeza.
Num novo estudo, publicado esta segunda-feira na iScience, os investigadores começaram por se concentrar na felicidade, uma expressão que estudos anteriores sugerem ter um significado particular para os cães. Para isso, submeteram oito cães a exames de ressonância magnética funcional enquanto lhes mostravam imagens de pessoas desconhecidas com expressões felizes ou neutras.
Segundo o Phys.org, os rostos felizes provocaram uma maior atividade numa região do córtex temporal que se estende ao núcleo caudado. O córtex temporal está envolvido, entre outras funções, no processamento de informação visual e social, enquanto o núcleo caudado tem sido associado ao processamento de recompensa no cérebro dos cães.
“Os seres humanos são muito bons a perceber pequenos detalhes no rosto, e os cães também. Isto torna os cães muito interessantes. Ao estudar os seus cérebros, podemos compreender que adaptações se desenvolveram para sustentar a sua compreensão social e emocional dos seres humanos”, explicou o primeiro autor do estudo, Raúl Hernández-Pérez.
A equipa quis então saber se as mesmas regiões cerebrais respondiam de forma semelhante a outras emoções. Numa segunda experiência, mostrou a 12 cães imagens de pessoas com expressões de felicidade, raiva, medo e tristeza e analisou a atividade cerebral através de métodos de aprendizagem automática.
Os investigadores verificaram que a região identificada na primeira experiência respondia de forma particularmente distinta aos rostos felizes. A atividade nessa região permitiu distinguir a felicidade de cada uma das três expressões negativas. No entanto, a mesma análise não permitiu distinguir entre os diferentes tipos de expressão negativa.
Quando os investigadores analisaram padrões de atividade em todo o cérebro, encontraram diferenças mais específicas. Conseguiram distinguir entre rostos que expressavam medo e rostos que expressavam raiva, bem como entre medo e tristeza. Não conseguiram, contudo, distinguir entre raiva e tristeza.
Estes resultados constituem a primeira evidência de que o cérebro dos cães pode representar de forma diferente algumas expressões faciais humanas negativas específicas.
Neste estudo, todos os participantes caninos eram cães de companhia. Os cães de vida livre, por exemplo, vivem num ambiente social diferente e podem ter experiências distintas com os seres humanos, pelo que podem processar os sinais humanos de outra forma. Além disso, o número reduzido de animais e a composição da amostra limitam a possibilidade de generalizar os resultados a todos os cães.
Os investigadores pretendem agora adotar uma perspetiva mais centrada nos cães para compreender melhor como estes integram diferentes sinais sociais e emocionais quando interagem com os seres humanos. Trabalhos futuros deverão também comparar diretamente a forma como os cérebros humanos e caninos processam os mesmos sinais emocionais.