A maior ameaça às cidades ucranianas pode surgir com pouco ou nenhum aviso.

Nos últimos meses, a Ucrânia colocou a Rússia sob pressão com ataques que atingiram a capacidade de refinação de petróleo russa, provocaram longas filas nas estações de serviço e incendiaram centros de logística comercial. Mas a Rússia explorou uma vulnerabilidade fundamental da Ucrânia — a escassez de mísseis intercetores contra mísseis balísticos — para lançar ataques aterradores e de alta velocidade contra cidades ucranianas, combinados com outros ataques de longo alcance que já fizeram centenas de vítimas civis.

Numa única noite, na semana passada, uma barragem de mais de duas dezenas de mísseis balísticos e antinavio atingiu a região da capital ucraniana. Todos os mísseis passaram pelas defesas ucranianas, matando pelo menos 17 pessoas e ferindo dezenas de outras.

Os ataques aéreos russos de grande escala contra a Ucrânia são complexos: num ataque concentrado nas regiões de Kiev e Lviv na noite de 30 de junho, a Rússia lançou quatro mísseis antinavio, nove mísseis balísticos, 61 mísseis de cruzeiro e perto de 300 drones de ataque contra alvos em todo o país, segundo a Força Aérea ucraniana.

Mas os mísseis balísticos russos parecem ser a ameaça que mais preocupa a liderança ucraniana. Os ataques russos com mísseis balísticos contra a Ucrânia acontecem enquanto Kiev procura desesperadamente repor o seu stock de mísseis intercetores de defesa aérea Patriot, de fabrico norte-americano, uma das poucas armas capazes de abater um míssil balístico.

Há quanto tempo são utilizados os mísseis balísticos?

Os mísseis balísticos não são uma novidade na guerra: a Alemanha nazi utilizou pela primeira vez o foguetão V-2 durante a Segunda Guerra Mundial e a “guerra das cidades”, durante a guerra Irão-Iraque nos anos 1980, assistiu a sucessivas vagas de mísseis Scud — descendentes do V-2 — que provocaram o caos entre as populações civis. Mas a tecnologia para derrotar mísseis balísticos avançou significativamente desde a Guerra Fria. O intercetor PAC-3 do Patriot dirige-se diretamente contra o alvo, destruindo-o através de pura energia cinética, em vez de utilizar uma ogiva explosiva — em termos simples, uma bala a atingir outra bala.

Numa declaração divulgada na semana passada, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, apelou a mais intercetores.

“Os intercetores de mísseis balísticos poderiam ter salvado as vidas daqueles que morreram hoje”, afirmou. “É muito importante que os nossos parceiros compreendam que os atrasos no fornecimento, ou a falta de vontade em disponibilizar sistemas antibalísticos, conduzem diretamente a vítimas e destruição tão horríveis. Os parceiros que ainda não estão preparados para assumir um papel mais ativo no fornecimento de intercetores podem ajudar através da aplicação de novas sanções. Uma parte significativa da produção russa de mísseis balísticos continua sem estar sujeita a sanções.”

A Ucrânia dispõe de duas vezes e meia menos intercetores do que tinha em 2025, enquanto a Rússia tem o dobro de mísseis balísticos, disse Zelensky à CNN na quarta-feira, acrescentando que passa os dias a fazer “milhões” de chamadas telefónicas, em negociações pouco transparentes com aliados para conseguir mais.

Um polícia está ao lado de corpos dentro de sacos de plástico, de pessoas mortas durante ataques com mísseis balísticos e drones russos, numa estação ferroviária na região de Kiev, a 5 de agosto de 2026. Mykola Tymchenko/AFP/Getty Images

Quais são as principais ameaças às cidades ucranianas?

A ameaça às cidades ucranianas pode ser, em grande medida, dividida em três grandes categorias: mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones, normalmente lançados a partir de território russo ou de zonas da Ucrânia ocupadas pela Rússia. Mais perto das linhas da frente, os russos têm utilizado drones de ataque mais pequenos para aterrorizar zonas civis na Ucrânia, tendo como alvo estações de serviço e veículos. No início deste mês, um vendedor de comida na região sul de Kherson sobreviveu por pouco a um ataque com um drone FPV, num tipo de ataque habitualmente descrito como “safari de drones”.

A Ucrânia já demonstrou a sua capacidade e engenho no combate aos drones russos. Estes dispositivos são relativamente baratos e abundantes: a Rússia produz em massa o Geran-2, uma versão do drone Shahed, de conceção iraniana, e introduziu melhorias, incluindo motores a jato, bem como drones isco para aumentar a eficácia dos seus ataques com drones. Mas a Ucrânia dispõe de um conjunto de defesas em várias camadas contra os drones relativamente lentos, e a sua experiência no combate a drones passou a ser procurada depois da guerra entre os EUA e o Irão.

Os mísseis de cruzeiro transportam normalmente uma carga muito maior do que um drone. Propulsionados por motores a jato, conseguem geralmente voar a baixa altitude para evitar a deteção. A Missile Defense Advocacy Alliance afirma que o Kalibr — um míssil de cruzeiro lançado a partir do mar e utilizado por navios de superfície e submarinos russos — pode voar a cerca de 20 metros acima do mar ou 50 metros acima do solo.

Um míssil balístico, pelo contrário, tem uma velocidade e uma trajetória muito diferentes. Impulsionado por motores de foguetão, o míssil segue uma trajetória elevada antes de descer em direção ao alvo. Os alcances variam, mas as velocidades são extremas: o míssil balístico russo de curto alcance Iskander voa a seis a sete vezes a velocidade do som e pode transportar até 700 quilogramas de explosivos. Um míssil balístico intercontinental de longo alcance — originalmente concebido para transportar ogivas nucleares para fora da atmosfera antes de voltar a entrar nela — pode voar de uma plataforma de lançamento nos Estados Unidos, atravessar o Círculo Polar Ártico e atingir um alvo na Rússia no tempo que demora a entregar uma pizza, 30 minutos ou menos. Nos ataques recentes contra Kiev, as sirenes de alerta aéreo soaram ao mesmo tempo que os impactos.

A Rússia lançou o míssil Oreshnik, uma arma hipersónica de alcance intermédio, em algumas ocasiões contra a Ucrânia, em ataques vistos como sinais da vontade de Moscovo de escalar o conflito. Mas sistemas de curto alcance, como o míssil balístico Iskander, têm sido a principal arma utilizada pelas forças russas. Autoridades ucranianas afirmam que os russos também adaptaram mísseis de defesa aérea S-400 para serem utilizados como mísseis balísticos contra alvos ucranianos.

Uma moradora de um edifício residencial de vários andares que ficou danificado abraça a filha na sequência de um ataque com mísseis russos à capital ucraniana, Kiev, a 6 de julho de 2026. Genya Savilov/AFP/Getty Images

Que diferença faria a produção de mísseis Patriot para a Ucrânia?

Perante a escassez de intercetores e o agravamento dos ataques contra as suas cidades, Kiev tem pressionado Washington para produzir conjuntamente o sistema Patriot. O Presidente norte-americano, Donald Trump, deu a entender, à margem da cimeira da NATO realizada no mês passado em Ancara, que poderia estar disposto a autorizar a produção conjunta do Patriot na Ucrânia, mas posteriormente pareceu frustrar as esperanças ucranianas, afirmando: “Estamos a falar sobre isso, mas é difícil oferecer esse tipo de tecnologia.”

Entretanto, autoridades ucranianas afirmam que a Rússia está a reforçar o seu arsenal com mísseis balísticos norte-coreanos, aumentando ainda mais a ameaça.

Vladyslav Vlasyuk, enviado presidencial ucraniano para as sanções, afirmou que a Ucrânia identificou um míssil norte-coreano KN-23 — equivalente ao Iskander russo — que recentemente destruiu uma casa em Radushne, na região rural de Dnipropetrovsk, matando seis pessoas, incluindo três crianças, enquanto outras cinco crianças continuam desaparecidas após o ataque.

O KN-23, afirmou, “é praticamente um equivalente exato do Iskander russo. Até partilham componentes idênticos, incluindo componentes de fabrico ocidental. Este é um exemplo da dependência da Rússia da ajuda militar da Coreia do Norte. Os mísseis norte-coreanos estão a matar civis ucranianos, tal como os russos.”

E a lacuna na defesa antimíssil da Ucrânia pode aumentar devido à guerra entre os EUA e o Irão. Como a CNN noticiou na semana passada, os militares norte-americanos consumiram quase quatro quintos de outro sistema de defesa antimíssil, o Terminal High-Altitude Area Defense, segundo várias fontes familiarizadas com o assunto. O stock de intercetores Patriot diminuiu cerca de metade desde o início da guerra, segundo duas fontes familiarizadas com o mais recente relatório sobre os stocks.

“A defesa contra mísseis balísticos continua a ser um problema difícil”, afirmou a analista militar Dara Massicot numa publicação no X, depois de uma recente visita de investigação à Ucrânia. “Os problemas com os intercetores Patriot são conhecidos. A Ucrânia sabe o que tem de ser feito e, na minha opinião, chegou o momento de considerar o Plano B e o Plano C sobre como reduzir o potencial russo de lançamento.”

E enquanto Kiev pondera os Planos B e C, o tempo está a esgotar-se para as cidades ucranianas, à medida que a Rússia continua a intensificar a sua campanha de mísseis.

Svitlana Vlasova, da CNN, contribuiu para este artigo.