O rover Perseverance, da NASA, continua a revelar segredos surpreendentes sobre Marte. Ao analisar três rochas claras na Cratera Jezero, o veículo detetou coríndon com crómio, um mineral que, na Terra, está na origem de pedras preciosas como rubis e safiras.

Embora não haja “rubis marcianos” visíveis à superfície, a descoberta é inédita e pode ajudar a explicar episódios extremos da história geológica do planeta.

Um sinal raro nas rochas de Jezero

As rochas analisadas, denominadas Hampden River, Coffee Cove e Smiths Harbour, foram estudadas em 2025 com o instrumento SuperCam do Perseverance da NASA.

Através de espectroscopia de luminescência resolvida no tempo, o rover disparou um laser sobre os minerais e mediu a luz libertada pelos seus átomos. Os resultados apresentaram picos de luz aos 692,7 e 694,1 nanómetros, uma assinatura típica de coríndon contendo crómio.

É precisamente o crómio que dá aos rubis terrestres a sua tonalidade vermelha. Na amostra Smiths Harbour, a luminescência persistiu cerca de três milissegundos, um valor compatível com o coríndon observado em amostras da Terra.

Porque é que isto é tão inesperado?

O coríndon é uma forma cristalina de óxido de alumínio. Em geral, necessita de materiais ricos em alumínio e pobres em silício, além de temperaturas muito elevadas ou condições associadas a processos tectónicos.

O problema é que as três rochas marcianas onde foi encontrado são ricas em plagioclase, um mineral que normalmente “captura” o alumínio para formar silicatos. Ou seja, não seria expectável encontrar coríndon nestas condições.

Além disso, tratam-se de float rocks: pedaços de rocha soltos da formação original e que podem ter sido transportados desde outra área. Isto torna mais difícil determinar a sua origem exata, mas também permite ao Perseverance aceder a pistas sobre regiões que não percorreu.

O rover Perseverance da NASA está à procura de pedras preciosas.

A resposta pode estar no impacto que formou a cratera

A hipótese mais forte aponta para o enorme impacto que formou a Cratera Jezero há milhares de milhões de anos. Um evento desta dimensão pode gerar pressões e temperaturas extremas, capazes de alterar profundamente as rochas e criar minerais pouco comuns.

Há também evidências de atividade hidrotermal antiga na região. A interação entre rochas e fluidos quentes poderá ter criado, localmente, as condições químicas favoráveis à formação de coríndon.

Os investigadores não estão a dizer que Marte esteja coberto de rubis. O mais provável é que existam pequenos grãos de coríndon com crómio aprisionados nas rochas. Ainda assim, é uma descoberta valiosa: poderá oferecer uma nova janela para os impactos violentos, o calor e a presença de água no passado distante do Planeta Vermelho.