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“Quente e Frio” na Rádio Observador, aquele momento em que espreitamos o tempo previsto para amanhã. Filomena, boa tarde.

Olá, boa tarde.

Está aí um dia de verão, mas amanhã o tempo vai começar a mudar. É isso?

É isso mesmo, exatamente. Ainda podemos ter amanhã 39 °C, esta sexta-feira, mas alguma coisa vai começar finalmente a mexer-se na atmosfera e depois de vários dias de calor persistente, esta sexta é o dia da transição. Vai continuar muito quente no interior. Há avisos amarelos, aliás, de calor em grande parte do território. Há noites tropicais com mais de 20 °C, mas durante a tarde podem aparecer no norte os primeiros aguaceiros e trovoadas.

E o país, Filomena, vai continuar dividido entre a costa atlântica e o interior?

Vai, o padrão não mudou. Junto ao litoral norte e centro, amanhã pode começar com umas nuvens baixas, nevoeiro e as máximas ficam muito contidas. O Porto continua com o seu ar condicionado atlântico bem ligado e Lisboa deve ficar ali perto dos 30 °C. Mas as máximas moderadas não significam necessariamente noites frescas, porque em vários pontos do litoral e do sul vamos continuar com mínimas nos 20 °C ou mais, portanto, com noites tropicais boas pra ver as perceidas. São mesmo boas. Esplanada e perceidas. O resto bebe quem quer, água ou o que quiser. O IPMA mantém para estes dias agora ainda céu geralmente pouco nublado a limpo, com mais nebulosidade já lá acima na faixa costeira norte e centro. No interior é tudo ao contrário. Mirandela pode aproximar-se dos 39 °C, Chaves e Castelo Branco nos 36 °C, Bragança nos 35 °C e Guarda nos 32 °C e são estes os distritos a amarelo. O Alentejo também continua muito quente, embora já abaixo dos picos dos últimos dias, e o Algarve mantém calor, sobretudo longe da costa. No mar também há dois verões. A costa ocidental continua bastante fresca e o Algarve já é outra coisa, está mais quentinho, porque a circulação atlântica e a nortada favorecem o afugentamento das águas frias junto à costa oeste. A novidade chega durante a tarde e não é boa pra quem vai de férias, incluindo a pessoa que está aqui. Porque vai aumentar a possibilidade de aguaceiros e trovoadas no interior norte, já na sexta-feira, sobretudo naquelas regiões mais montanhosas.

Muito bem, então e a chuva depois continua sábado, é isso? No dia em que muitos milhares de portugueses voltam de férias e muitos estão a caminho das férias, não é?

É exatamente isso. Uma ondulação do jato polar, aquela corrente de ventos que anda aqui à volta da Terra muito lá em cima e muito depressa, vai permitir a aproximação de uma perturbação, vai colocar ar relativamente mais frio em altitude por cima da península, que está ainda muito quente aqui junto à superfície. Portanto, isso cria grande instabilidade e o verdadeiro salto nestas mudanças acontece no sábado, quando a chuva pode chegar também ao interior centro. Portanto, sexta-feira ainda é um dia de calor, mas já não é apenas mais um dia quente de agosto, é o dia que começa a mudança.

Pronto, vamos ao fenômeno deste “Quente e Frio”. Já sabemos onde é que pode chover no sábado, Filomena. Por que é tão difícil saber exatamente onde chove?

É uma das previsões mais difíceis da meteorologia. Acabei de dizer que sábado pode haver aguaceiros em Bragança, Vila Real, Viseu e Guarda, mas o mapa pode mudar entretanto alguns quilômetros. Isso não significa necessariamente que a previsão inicial, esta, esteja errada. Uma trovoada de verão é uma das coisas mais difíceis de prever e de colocar no mapa. É muito diferente termos uma grande frente atlântica com centenas de quilômetros a atravessar Portugal e dizer que vai chover aqui e ali, aí percebe-se. Neste caso, estamos a falar de uma convecção, uma trovoada é uma convecção. O sol aquece, aquece o ar que está por cima, esse ar quente e úmido sobe e se encontrar condições favoráveis, vai formar aquelas grandes nuvens de desenvolvimento vertical e fazer uma trovoada. O problema é que pequenas diferenças fazem uma diferença enorme. Uma serra, um vale, um pouco mais de umidade, uma mudança de direção do vento, dois graus na temperatura, podem ajudar uma célula a formar-se num lugar e não noutro. E ainda o problema de escala. Um modelo meteorológico divide a atmosfera numa enorme grelha, uma célula de trovoada pode ser mais pequena do que aquilo que o modelo consegue representar diretamente. Portanto, estes processos, como a convecção e as nuvens, estão precisamente entre as fontes de incerteza que os modelos têm dificuldade em representar.

Filomena, então como é que eles anunciam as trovoadas para determinados lugares?

Os meteorologistas não olham apenas para uma previsão. O que eles estão a fazer, em relação ao modelo europeu, que é o mais usado, é utilizar ensembles. Correm o modelo muitas vezes, introduzindo pequenas diferenças nas condições iniciais e na própria representação dos processos atmosféricos. Se muitas dessas simulações produzirem trovoadas aproximadamente na mesma região, aumenta a confiança pra ali. Se cada uma colocar a chuva num sítio diferente, a incerteza é muito maior. E isso ajuda também a perceber quando eles põem 60% de probabilidade de precipitação, não significa que seja 60% todo o dia, é uma probabilidade que ali, de fato, chova. Portanto, se no sábado tiver alguém em Trás-os-Montes e o telemóvel mostrar uma trovoada desenhada por cima da cabeça, não significa que às 16h vá, de fato, ver trovoada. Significa que a atmosfera tem condições para provocar trovoadas naquela região. Se um dia destes apanhar uma grande carga d’água e não cair uma gota Noutro sítio a poucos quilómetros, é mesmo assim.

É mesmo assim. Vamos à curiosidade. Estão a começar os furacões do Atlântico. Já começou a época, Filomena?

A época já começou há algum tempo, mas não tem existido. Aliás, era sabido que este ano haveria menos. O Atlântico começa agora a acordar. A fase mais ativa da temporada é agora e o mapa do National Hurricane Center dá-nos um exemplo particularmente bom, além dos sistemas já acompanhados nos últimos dias, em que estão a ser vigiadas duas ondas tropicais no Atlântico, porque podem atravessar o oceano e transformar-se em ciclones tropicais. É preciso perceber que a maioria dos furacões, muita gente não sabe, nascem em África, na África Ocidental, ali na região do Senegal, por trás de Cabo Verde. São simpáticos, têm ali um corredor. Durante o verão, as chamadas perturbações, ondas tropicais ou ondas do leste africano, atravessam o continente, chegam à costa ali por trás de Cabo Verde e quando encontram o Atlântico tropical suficientemente quente e uma atmosfera favorável, começam a organizar tempestades em torno de uma zona de baixa pressão, vem daí a expressão “furacões de Cabo Verde”, e são ciclones que se desenvolvem neste extremo do Atlântico tropical, perto ou a oeste do arquipélago, e a partir dessas ondas africanas. Não significa que todos os furacões atlânticos nasçam ali, mas grande maioria nasce e alguns dos grandes furacões de longa duração, precisamente nesse corredor é que se formam. Depois acontece algo curioso: podem nascer relativamente perto uns dos outros e acabarem em lugares completamente diferentes, porque eles não decidem sozinhos pra onde vão, depende dos ventos. É imaginar uma rolha num rio. Algumas das peças fundamentais é a cintura de altas pressões subtropicais que apanham no Atlântico, associada à alta dos Açores, Bermudas. Se essa barreira estiver forte e prolongada pra oeste, eles vão em direção às Caraíbas e à América. Se surgir uma abertura provocada por uma onda depressionária, eles podem escapar para norte e depois recurvar pra nordeste e, portanto, um ciclone pode chegar às Caraíbas, outro aos Estados Unidos e outro fazer uma enorme curva no meio do Atlântico e acabar aqui na Península Ibérica. Portanto, nascem no mesmo corredor e depois a atmosfera decide pra onde é que vão.

Muito bem, “Quente e Frio” com Filomena Martins. Filomena, até amanhã.

Até amanhã.