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Paleontólogos da Argentina descobriram um crocodilo pré-histórico mortífero com dentes “serrilhados como lâminas” que triunfou no Triássico há cerca de 237 milhões de anos, antes de os grandes dinossauros chegarem e usurparem o trono.

“Consideramo-los os predadores de topo do Triássico”, diz Ariel Cardillo, doutorando de paleontologia de vertebrados no Conselho Nacional Científico e de Investigação Técnica da Argentina (CONICET) e autor principal do estudo. “Eram animais mesmo grandes comparados com o resto do ecossistema.”

Desde o focinho agressivo até à cauda, a nova espécie Shakajlura riojanensis teria quase 6 metros de comprimento. “Pode não parecer muito, mas a maioria da fauna do Triássico era muito pequena”, diz Cardillo. A mandíbula do Shakajlura deveria ser tão potente como a dos crocodilos da actualidade e cada dente era “como uma faca saindo da boca”, acrescenta.

Cardillo e os seus colegas publicaram a descoberta no início deste Verão na revista Papers in Paleonthology.

O Shakajlura também informa os paleontólogos sobre um período pouco conhecido da história da Terra, quando a vida selvagem estava a recuperar da “Grande Morte”. Este evento cataclísmico pôs fim ao Pérmico há cerca de 252 milhões de anos e foi, possivelmente, a maior extinção em massa do planeta.

“Os ecossistemas terrestres estavam a começar a voltar ao que eram antes da grande extinção”, diz Keegan Melstrom, paleontólogo da University of Central Oklahoma, que não participou no estudo. “Quem sobrevivesse a esta extinção em massa, herdaria a Terra.”

Um ‘Lagarto Abençoado’

Em 2017, os colegas de Cardillo estavam a escavar um depósito fóssil do Triássico Tardio na Formação de Chañares, na província argentina de La Rioja, quando viram parte de uma mandibula superior a espreitar na rocha. Extraíram-na, juntamente com muitos outros fósseis, e enviaram-nos para o Museu de La Plata.

No total, a equipa encontrou ossos do crânio, partes de mandíbulas superiores e inferiores, um osso da coluna, fragmentos de membros e um osso quase completo da bacia. Juntos, os fósseis sugeriram à equipa que tinham encontrado um paracrocodilomorfo, um primo antigo dos crocodilos.

Escolheram o nome Shakajlura riojanensis por fazer uma alusão parcial à província de La Rioja, onde o fóssil foi descoberto; “Shakajlura” é uma palavra Kakán, uma língua falada pelo povo Indígena Diaguita que vive na região, e significa “lagarto abençoado”. O nome alude à raridade da descoberta – o último fóssil deste grupo descoberto na Argentina foi descrito em 1997, há quase três décadas.

O Shakajlura deveria usar as suas mandíbulas repletas de punhais para mastigar presas como dicinodontes, herbívoros de grande porte semelhantes a ungulados que precederam os mamíferos. Dada a improbabilidade de o Shakajlura ser aquático – foram necessários milhões de anos para os crocodilianos se adaptarem a um estilo de vida mais marinho –, talvez tenha usado as suas patas e postura vertical para perseguir presas em vez de recorrer a emboscadas, como o seu parente moderno, diz Cardillo. Os dicinodontes, que se deslocavam em manadas, deveriam ser alvos fáceis para os carnívoros, acrescenta. No entanto, ele sublinha que a equipa ainda não procedeu a uma análise biomecânica a fim de descobrir a velocidade potencialmente alcançada pelo crocodilo.

Melstrom diz ter ficado impressionado com o tamanho do Shakajlura, mas apresenta-se cauteloso quanto a conclusões sobre a forma como este caçava. Segundo ele, deveria haver algum tipo de emboscada em jogo, semelhante à forma como os leões esperam no meio da erva.

“Não era certamente uma chita – não andava a correr atrás de nada até o apanhar”, diz Melstrom, embora também não o imagine só à espera, como os crocodilos modernos, e especule que poderia fazer perseguições curtas.

Tiranos de uma Nova Época

A biodiversidade do Triássico Inicial e Médio, há 252-237 milhões de anos, é menos conhecida do que a de períodos posteriores porque existem relativamente poucos depósitos fósseis conhecidos dessas épocas. No entanto, estes períodos temporais são importantes para os paleontólogos porque representam uma vasta mudança ecológica que aconteceu em todo o planeta.

Durante “A Grande Morte”, erupções vulcânicas colossais libertaram dióxido de carbono e dióxido de enxofre, sufocando o oxigénio dos oceanos. Estas mudanças eliminaram a maioria das espécies do planeta e seriam necessários milhões de anos para a biodiversidade da Terra começar a recuperar. No início do Triássico, a maior parte das criaturas ainda não atingira nada que se parecesse com os tamanhos dos períodos subsequentes do Jurássico e do Cretáceo.

“O Triássico é um período difícil de navegar”, diz Cardillo. “Temos esta extinção – a Extinção em Massa do Fim do Pérmico – e depois uma lacuna no nosso conhecimento dos ecossistemas.”

O fim do reinado do Shakajlura é uma dessas lacunas, diz Cardillo, uma vez que ele não sabe ao certo o que terá ditado o destino fatídico da criatura.

“Estes antepassados de grande porte são um enigma – por que razão se extinguiram no fim do Triássico?”, interroga. Talvez houvesse populações relativamente pequenas com grandes domínios distribuídos pela paisagem, o que os tornava vulneráveis a perturbações. A concorrência com os primeiros dinossauros carnívoros também poderá ter desempenhado um papel, acrescenta.

Independentemente do que tenha derrubado o Shakajlura, a sua descoberta ajuda a demonstrar que, antes de os grandes dinossauros assumirem o poder, criaturas semelhantes a crocodilos dominaram partes do planeta. E primos distantes seus – vestígios dessa dinastia outrora poderosa – sobreviveram e foram comendo todos os tipos de presa ao longo dos 237 milhões de anos que se seguiram.

“Esta época”, acrescenta Melstrom, “representa um período imediatamente anterior ao nascimento do mundo moderno.”