Os investigadores encontraram vestígios de aves no motor da aeronave da Ryanair. Contudo, ainda não determinaram se uma colisão durante a descolagem esteve na origem da fratura.

Imagem do dano no avião da Ryanair

Ryanair: altitude baixa terá contribuído para o passageiro sobreviver

Fragmentos libertados pelo motor direito de um Boeing 737-800 partiram uma janela e perfuraram a fuselagem de um voo da Ryanair em julho, provocando uma descompressão durante a qual um passageiro ficou parcialmente projetado para fora do avião, concluiu uma investigação preliminar.

O acidente ocorreu a 10 de julho, cerca de nove minutos depois de o voo 1879, operado pela Malta Air em nome da Ryanair, ter descolado de Salónica, na Grécia, com destino a Memmingen, na Alemanha. A bordo seguiam 149 passageiros e seis tripulantes.

De acordo com o relatório preliminar do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos, uma das pás do ventilador do motor direito fraturou-se na raiz. Os danos subsequentes projetaram fragmentos contra a fuselagem, atingindo a janela da fila 11 e abrindo uma segunda perfuração na parte inferior do avião.

O incidente ocorreu quando a aeronave subia e se encontrava a cerca de 16 mil pés de altitude, perto de Polykastro, ainda em espaço aéreo grego. Os pilotos receberam inicialmente um aviso de vibração elevada no motor direito, reduziram a potência e iniciaram o procedimento previsto para esse tipo de anomalia.

A vibração diminuiu temporariamente, mas voltou depois a aumentar de forma acentuada. Seguiu-se um estrondo, a desativação do piloto automático e o aviso de altitude excessiva na cabina. A tripulação declarou emergência, iniciou uma descida imediata e regressou a Salónica, onde o avião aterrou sem novos incidentes.

Imagem do dano no avião da Ryanair

A altitude relativamente baixa poderá ter contribuído para o passageiro sobreviver, mas não tornou a situação segura. O incidente ocorreu durante a subida, a cerca de 16 mil pés, aproximadamente 4,9 quilómetros, e não à altitude de cruzeiro habitual, que ronda os 30 a 40 mil pés. A essa altitude, a diferença de pressão entre a cabina e o exterior tende a ser menor do que em cruzeiro, reduzindo a violência da descompressão.

Passageiro ficou preso na abertura

Os comissários de bordo disseram aos investigadores que ouviram e sentiram uma vibração forte e contínua e viram uma pequena quantidade de fumo ou nevoeiro no interior da cabina, antes de as máscaras de oxigénio serem libertadas.

Um dos tripulantes encontrou o passageiro do lugar 11F parcialmente preso na abertura deixada pela janela, que tinha desaparecido por completo. Vários passageiros conseguiram puxá-lo novamente para o interior do avião.

O homem, de 61 anos, sofreu ferimentos no pescoço e nos ombros e queimaduras provocadas pelo atrito, segundo informações recolhidas pela Associated Press. O NTSB classifica os ferimentos como graves.

Imagem do dano no avião da Ryanair

Depois de resgatado, o passageiro foi transferido para a fila 12, onde recebeu assistência de um médico que viajava no avião. Outro passageiro pediu aos tripulantes um objeto metálico pesado e levou uma caixa da zona de serviço para tentar bloquear a abertura até à aterragem.

Vídeos divulgados pela Rádio Salónica mostraram passageiros com máscaras de oxigénio, a janela destruída e, depois da aterragem, equipas de emergência a prestar assistência no corredor do avião.

Vestígios de aves não esclarecem ainda a causa

Os investigadores encontraram penas e outros vestígios de aves no motor e em várias pás, enviados para análise no Instituto Smithsonian. Embora sejam compatíveis com uma colisão durante a descolagem, quando a vibração começou a aumentar, o relatório ainda não confirma quando ocorreu o impacto nem se este causou a fratura.

A pá número 10 apresentava sinais de fadiga de grande amplitude em cerca de 37% da superfície de rutura, além de desgaste e deterioração num espaçador adjacente.

Inspeções por ultrassons realizadas em novembro de 2025 e maio de 2026 não detetaram fissuras. No ano anterior, porém, tinham sido comunicadas quatro suspeitas de colisão com aves no mesmo motor, com vestígios encontrados em dois casos.

A manutenção terá respeitado os intervalos exigidos, mas os investigadores vão avaliar a execução das inspeções e a eventual contribuição dos impactos anteriores para danos preexistentes.

Modificações de segurança ainda não tinham sido feitas

O NTSB apurou ainda que o avião não tinha recebido três conjuntos de modificações determinados pela Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos depois de acidentes anteriores envolvendo a fratura de pás em motores semelhantes.

As medidas incluem o reforço de fixadores, da cobertura do ventilador e do bocal de escape, com o objetivo de impedir que partes da nacela se separem e atinjam a fuselagem após uma falha no motor. A diretiva da FAA relativa à cobertura do ventilador aplica-se aos Boeing 737 das séries -600 a -900ER.

As alterações não eram ainda obrigatórias para esta aeronave: o prazo concedido pela FAA termina em julho de 2028. O relatório preliminar não atribui, nesta fase, o acidente à ausência das modificações.

A aeronave, com a matrícula 9H-QEU, tinha sido entregue nova à Ryanair em 2008 e era operada pela subsidiária Malta Air.

O avião estava equipado com motores CFM56-7B, fabricados pela CFM International, uma parceria entre a norte-americana GE Aerospace e a francesa Safran. Este modelo é utilizado nos Boeing 737 Next Generation, incluindo as séries 737-600, -700, -800 e -900, mas não em todos os aviões Boeing.

Investigação delegada aos Estados Unidos

A Autoridade Helénica de Investigação de Segurança Aérea e Ferroviária transferiu formalmente o processo para o NTSB em 16 de julho, ao abrigo do Anexo 13 da Convenção sobre Aviação Civil Internacional.

A Grécia participa na investigação como país onde ocorreu o acidente. Malta representa o Estado de matrícula e do operador, enquanto França e Estados Unidos participam por estarem associados ao fabrico do motor CFM56, produzido pela CFM International, uma empresa conjunta da Safran e da GE Aerospace. Boeing, FAA e Agência Europeia para a Segurança da Aviação também colaboram nos trabalhos.

Em julho, a presidente do NTSB, Jennifer Homendy, repreendeu o presidente executivo da Ryanair, Michael O’Leary, depois de este afirmar que a investigação se concentrava em danos provocados por um objeto estranho e não na idade ou manutenção do avião.

A agência respondeu que nenhuma dessas hipóteses tinha sido excluída e que O’Leary não estava autorizado a divulgar ou interpretar informação da investigação, segundo o jornal grego Kathimerini.

A Ryanair informou que não fará novos comentários antes da conclusão do inquérito. O NTSB salienta que as informações agora divulgadas são preliminares e podem ser alteradas à medida que a investigação avance.