Recentemente, uma equipe de pesquisadores do Japão começou a investigar como a hibernação artificial poderia afetar a memória de animais. Para realizar essa investigação, os cientistas implantaram memórias nos animais e os colocaram em hibernação por 2 dias. Assim, poderiam analisar completamente como a memória se mantinha e se estruturava nesse tempo.

De acordo com o artigo publicado na revista Science, todo o processo feito pela Unidade de Pesquisa da Memória do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa com os camundongos investigou as redes neurais através de aparelhos de ressonância. Anteriormente, os testes mostraram que durante a hibernação, os animais tinham seus cérebros diminuídos e as conexões neurais eram deterioradas uma a uma.

Porém, o novo estudo se propôs a entender como isso ocorreria com memórias de longo prazo, daquelas que não há necessidade de se utilizar a todo tempo. Por isso, desde que nasceram os cientistas fizeram pequenos testes para implementar memórias nos animais e depois os hibernaram, para assim compreender como ocorre essa “diminuição” neural.

A implementação de memórias

Primeiramente, é necessário lembrar que há animais, como as marmotas alpinas e os Esquilos terrestres europeus que mantém a memória mesmo depois de longos períodos de hibernação. O chefe do estudo, Kazumasa Tanaka, disse à Live Science:

Alguns estudos relatam que suas memórias estão intactas, mesmo depois, para que eles possam se lembrar de coespecíficos [membros da mesma espécie], como seus amigos, ou eles podem se lembrar dos locais de sua comida”.

Assim, investigar como isso poderia ocorrer em animais que perdem as conexões neurais, como os humanos pode ser revolucionário. Por isso, os pesquisadores escolheram os camundongos. 

Em suma, dentro do cérebro, há um processo de transmissão de sinais chamado potenciação a longo prazo. Basicamente, quanto mais frequentes as mensagens químicas, mais sensíveis os neurônio vizinhos se tornam. Dessa forma, essa ligação a longo prazo cria uma forte ligação entre o ponto de conexão entre dois neurônios que se encontram, chamada sinapse.

Para a forja de novas memórias, esse fator é essencial. No entanto, quando se trata de manter as memórias ao longo do tempo, LTP pode não ser o ingrediente mais importante. Devido a dinamicidade do cérebro há grupos inteiros de neurônios que podem ser desfeitos e reaproveitados em poucos dias. Mas e as memórias que pouco usamos mas ainda as temos?

Para responder isso, os cientistas passaram a dar pequenos choques nos camundongos desde a infância sempre que fossem para determinado ambiente, enquanto que em outro os recompensavam com alimento. Conforme cresciam, evitavam cada vez mais o ambiente 1 e preferiam o segundo.

A memória apesar da hibernação artificial

Após hibernar os camundongos por 2 dias, suas funções neurais diminuíram significativamente, mas ao serem postos na região de choque, ficavam estáticos de medo. Ou seja, lembraram do ambiente mesmo não sendo uma memória trabalhada constantemente.

De acordo com a Live Science, essas memórias nascem no hipocampo, permanecem lá por um tempo e, em seguida, são transferidas para outras partes do cérebro para armazenamento de super longo prazo. Essa transferência pode levar semanas, meses ou mais, e alguns neurocientistas acham detalhes contextuais das memórias, como o ambiente onde foram formadas, permanecem para sempre incrustadas no hipocampo.

Inclusive, vale destacar que poucos minutos depois da hibernação artificial os cérebros dos roedores já começaram a apresentar diferenças significativas. Tanaka destacou:

Sabíamos que algum grau da remodelação acontece, mas o grau era muito maior do que o que esperávamos […] encontraram que mais da metade das sinapses já haviam desaparecido”.

Entretanto, para ter certeza sobre o processo, também hibernaram outro grupo de ratos, só que esses sob anestesia de longo prazo. Mas esses perderam completamente o medo das zonas elétricas. Ou seja, na hibernação artificial há alguns certos grupos de sinapses que resistem mais intensamente aio “abate” do que outras.

Conforme o cientista, ainda há muito a aprender sobre o campo e entender como a memória a longo e curto prazo funciona. Em um futuro, poderíamos estudar como essas interferências afetam a humanidade, e como poderíamos parar o decaimento e enviar humanos para distâncias nunca antes alcançadas.

De qualquer modo, o artigo lançado na quinta-feira, 13 de agosto, ainda é muito recente para respostas mais avançadas. Por enquanto, os cientistas continuarão investigando como os traços físicos da memória no cérebro podem mudar tanto sem sacrificar as próprias memórias.

*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes


Augusto César

Historiador em formação que troca qualquer “sextou” por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: