No ano de 997 d.C., em uma época sem cronômetros ou meios de sincronizar o tempo à distância, dois pesquisadores usaram um fenômeno celeste para resolver um dos maiores problemas da geografia antiga

Os astrônomos Abu Rayhan al-Biruni e Abu al-Wafa al-Buzjani coordenaram a observação de um eclipse lunar para medir a diferença de longitude entre as cidades de Bagdá e Kath. 

Conforme o veículo Medievalists.net, o experimento foi fundamental para que geógrafos pudessem construir mapas mais fiéis e determinar com exatidão a direção de Meca em todo o mundo islâmico.

O desafio geográfico

Para localizar uma cidade no mapa, os estudiosos precisavam de duas coordenadas. Enquanto a latitude era obtida medindo a altura do Sol ou da Estrela Polar, a longitude apresentava um problema técnico complexo. 

Ela exigia a comparação do horário local entre dois pontos distantes, já que a Terra gira 15 graus a cada hora. 

Sem relógios portáteis que mantivessem a precisão durante viagens de semanas entre Bagdá e a região de Corásmia, os cientistas precisavam de um sinal visível simultaneamente em ambos os locais.

Sincronia nas alturas

O experimento foi conduzido por Abu Rayhan al-Biruni, nascido em 973 d.c., que dedicou sua vida a medir as dimensões da Terra, e por Abu al-Wafa, nascido em 940 d.C., matemático que atuava em Bagdá. Por meio de cartas enviadas antecipadamente, eles concordaram em observar o mesmo eclipse lunar na noite de 24 para 25 de maio de 997 d.C.

Como o fenômeno ocorreu no mesmo instante para todos os observadores do hemisfério noturno, eles puderam comparar os horários registrados em cada cidade e calcular a diferença de longitude entre elas.

Precisão milenar 

Após o evento, os estudiosos trocaram seus registros e identificaram uma diferença de aproximadamente uma hora entre os horários locais, concluindo que as cidades estavam separadas por 15 graus de longitude. De acordo com o veículo Medievalists.net, o pesquisador Rizoi Bakhromzod, da Academia de Ciências do Tadjiquistão, afirmou: 

O experimento conduzido por Abu Rayhan al-Biruni e Abu al-Wafa al-Buzjani para determinar a diferença de longitude entre Corásmia e Bagdá através da observação de um eclipse lunar é justamente considerado uma conquista notável da ciência medieval. Ele representa uma síntese notável de percepção teórica e implementação prática, conhecimento astronômico e propósito geográfico. Os estudiosos conseguiram superar a principal limitação de sua era a ausência de meios para sincronização do tempo usando o próprio céu como um conjunto de relógios precisos”.

Cálculos modernos realizados com dados de satélite revelam que a separação real entre as localidades é de 16,35 graus. Isso significa que o cálculo medieval errou por apenas 1,35 grau, uma discrepância de cerca de cinco minutos.

*Sob supervisão de Éric Moreira


Luiza Kellmann

Meu propósito é dar voz a narrativas.