Taís Araujo – Reprodução do Instagram
Taís AraujoReprodução do Instagram
Publicado 28/08/2025 09:22 | Atualizado 28/08/2025 09:23
Rio – Taís Araujo, de 46 anos, demonstrou frustação com as reviravoltas na vida de Raquel, em “Vale Tudo”, da TV Globo. A personagem ascendeu profissionalmente, se tornando empresária, mas voltou a vender sanduíches na praia depois de Odete (Debora Bloch) descobrir que Celina (Malu Galli) era a sócia fantasma da namorada de Ivan (Renato Góes) na Paladar. Com isso, a vilã comprou a parte da irmã no negócio e mandou fechar o empreendimento para se vingar da cozinheira.
“Esse momento da Raquel voltar a vender sanduíche na praia, recebi, confesso, com um susto. Porque não era a trama original. Então, para mim, a Raquel ia numa curva ascendente. Quando vi aquilo, falei: ‘Ué, vai voltar para a praia, gente’. Primeiro, foi um susto. Aí eu entendi e também falei: ‘OK, a Manuela (Dias, autora) está escrevendo uma parte da história,que ela escolheu escrever. Vamos embora fazer'”, disse Taís, em entrevista à Quem, durante a exposição Ancestral: Afro-Américas no CCBB-RJ.
A atriz lamentou o fato da protagonista não ficar tão rica e poderosa quanto a da primeira versão da novela, exibida originalmente em 1988. “Como telespectadora, eu também tinha a esperança disso e gostaria muito de vê-la assim. Como mulher negra, como artista negra, de ver uma outra narrativa sobre mulheres negras”, comentou.
“Quando peguei a Raquel para fazer, falei: ‘Cara, a narrativa dessa mulher é a cara do Brasil. E ela vai ter uma ascensão social a partir do trabalho. Vai ser linda e ela vai ascender, e ela vai permanecer’. Isso vai ser uma narrativa muito nova do que a gente vê sobre representação da mulher negra (na teledramaturgia). Quando vejo que isso não aconteceu, como uma artista que quer contar uma nova narrativa de país, e a dramaturgia proporciona isso, confesso que fico triste e frustrada”, desabafou.
Taís ressalta que o espectador, principalmente negro, está pronto para a narrativa de ascensão. “É urgente que a gente se veja nesse lugar. E acho que a Raquel tinha todas as possibilidades da gente contar essa nova narrativa dessa mulher. E quando vejo, falo: ‘Ai, meu Deus, não vai ter? Não, não vai ter’. Tenho que lidar com a realidade que me cabe, que é a de uma intérprete, de uma personagem, que não é escrita por mim. Cara, eu vou fazer isso com a maior dignidade possível. E com respeito enorme a todas as mulheres que Raquel representa. Acredito nessa mulher negra que trabalha para manter uma família, que quer ascender socialmente e dedica. Que é uma mulher séria, capaz, competente. Então, vou nessa toada aí até o final”.
Questionada sobre os novos contornos de Raquel, Taís dispara: “É muito difícil ter um outro contorno quando a caneta não está contigo. Obviamente que eu tenho um diálogo, mas esse diálogo tem um limite. Não vou transformar a Raquel em vítima. Ela ia levantar e trabalhar. É o que as mulheres desse país fazem. As que estão na base da pirâmide. Elas levantam e são bravas, são valentes. Eu gostaria muito que a Raquel tivesse uma curva ascendente, poderosa, que a batalha dela fosse outra e não a batalha pela sobrevivência”.
A atriz reforça que acompanha os comentários das pessoas em relação a personagem. “Estou vendo tudo. Vendo, escutando, lendo, entendendo. Me alio para caramba a vocês nesse sentimento, inclusive, de frustração. De querer um outro movimento. Que ela tivesse conflitos, sim, mas que fossem conflitos de outra ordem. Com a própria Odete, com conflitos éticos. Aí vou lidando, tentando defender”.
Por fim, Tais conta que falta apenas 12 capítulos para ela receber sobre a história de Raquel. “Não sei o que acontece com ela. Espero realmente que a vida devolva a ela o que ela dá para a vida. Porque a gente vai ter uma narrativa que é muito interessante, uma narrativa contemporânea. Está na hora da gente ver a população negra nesse lugar…A ficção serve para a gente sonhar, para a gente sentir possível. A ficção tem um trabalho de responsabilidade, sim, na construção na narrativa de um país, de como um país entende o povo”.