Número tem vindo a crescer, mas continua a representar menos de 3% da população empregada. Por cada um que ganha 3 mil ou mais euros há outros 13 com salários entre os entre 900 e os 1.200 euros
O número de trabalhadores por conta de outrem que declaram receber pelo menos três mil euros líquidos por mês mais do que quadruplicou numa década e aumentou 27% no último ano. Os dados confirmam duas das principais alegações divulgadas pelo PSD, mas mostram também que este escalão de rendimento representa apenas 2,7% dos assalariados. Já a afirmação de que estes trabalhadores são agora “quase o dobro” dos registados há dois anos, assenta, de facto, num crescimento expressivo, mas de 75,8%, e não numa duplicação.
Numa publicação nas redes sociais intitulada “O impressionante crescimento dos salários de 3 mil euros ou mais!”, o PSD destaca que “hoje há quatro vezes mais pessoas a ganhar 3 mil euros líquidos ou mais do que há dez anos”. O partido acrescenta que, em dois anos, estes trabalhadores são “quase o dobro” e que houve um aumento de 27% relativamente a 2025, antes de concluir: “Não deixemos que nos distraiam com fait-divers. Viemos para resolver e estamos a resolver”.
A publicação terá por base uma notícia do ECO que cita uma nota trimestral da Randstad, elaborada a partir do Inquérito ao Emprego do Instituto Nacional de Estatística (INE). Para verificar as afirmações, a CNN Portugal consultou diretamente o indicador do INE sobre o rendimento líquido mensal e comparou os segundos trimestres de 2016, 2024, 2025 e 2026.
O veredicto preliminar aponta que sim. Isto é, segundo os dados do Inquérito ao Emprego feito trimestralmente pelo INE – aqueles em que se baseia o estudo citado pelo PSD – é certo que tendo por base a última análise há quatro vezes mais pessoas a ganhar €3.000 líquidos ou mais comparativamente com 2016. O número passou de 28,7 mil no segundo trimestre de 2016 para 124,8 mil no segundo trimestre de 2026: ou seja, multiplicou-se por 4,35, existindo hoje mais 96,1 mil trabalhadores neste escalão do que há 10 anos.
Por outro lado, a alegação relativa ao facto de, num espaço de dois anos, ter quase dobrado o número de trabalhadores que ganham um salário líquido de ou superior a 3 mil euros é mais discutível. No segundo trimestre de 2024 existiam 71 mil trabalhadores neste escalão, contra 124,8 mil no mesmo período de 2026. São mais 53,8 mil pessoas, correspondentes a um crescimento de 75,8%. O número multiplicou-se por 1,76, ficando ainda 17,2 mil trabalhadores abaixo dos 142 mil necessários para uma duplicação. Assim, a expressão “quase o dobro” exagera a dimensão do crescimento.
Já o aumento de 27% relativamente a 2025 está correto. O número de trabalhadores com pelo menos três mil euros líquidos passou de 98,3 mil no segundo trimestre de 2025 para 124,8 mil no segundo trimestre deste ano. A subida foi de 26,5 mil pessoas, ou 26,96%, valor que arredonda para os 27% apresentados pelo PSD.
Mas há aqui, desde logo, um dado que salta à vista e que estava sublinhado no estudo da Randstad. É que a dimensão deste grupo é mesmo muito reduzida no conjunto do mercado de trabalho. Estes 124,8 mil trabalhadores que recebem pelo menos 3.000 euros líquidos representam 2,73% dos 4,57 milhões de trabalhadores por conta de outrem contabilizados pelo INE. Mesmo excluindo as 709,5 mil pessoas que não indicaram o rendimento, o escalão dos três mil euros ou mais corresponde a 3,23% dos trabalhadores com rendimento conhecido.
Além disso, como destaca o estudo da Randstad, a caracterização do segmento de rendimento mais elevado traduz “várias assimetrias estruturais”. Por um lado, os homens representam 69,2% deste grupo contra 30,8% de mulheres, enquanto o setor dos serviços absorve 78,7% destes profissionais. Na mesma linha, as regiões da Grande Lisboa e do Norte concentram 65,9% dos trabalhadores que mais ganham, reunindo 49 mil e 33,2 mil pessoas, respetivamente.
De resto, o escalão que concentra mais trabalhadores continua a ser o dos rendimentos líquidos entre 900 e 1.200 euros. No segundo trimestre de 2026 abrangia 1,56 milhões de pessoas, ou 34,1% dos trabalhadores por conta de outrem. Eram 444,4 mil em 2016, 962,4 mil em 2024 e 1,11 milhões em 2025. Este grupo cresceu 251,2% em dez anos, 62,2% em dois anos e 40,9% apenas no último ano.
Lê-se no estudo da Randstad que, no país segundo os dados do INE, “a estrutura salarial continua predominantemente concentrada nos escalões intermédios-baixos”. Na realidade, o escalão ganhou 453,3 mil trabalhadores num só ano. Para comparação, por cada trabalhador com salários acima ou igual a 3 mil euros, há outros 13 a auferir entre 900 e 1.200 euros
A segunda maior faixa salarial é a dos rendimentos entre €1.200 e €1.800 líquidos. Abrangia 1,05 milhões de trabalhadores no segundo trimestre de 2026, equivalentes a 23% do total. Este escalão passou de 467,7 mil pessoas em 2016 para 852,9 mil em 2024 e 946,1 mil em 2025. O crescimento foi de 124,9% em dez anos, 23,3% em dois anos e 11,2% no último ano.
Assim, se somarmos os dois maiores escalões – entre €900 e €1.800 líquidos -, o que verificamos é que esse grupo abrange 2,61 milhões de pessoas, correspondentes a 57,1% de todos os trabalhadores por conta de outrem. Há, portanto, quase 21 trabalhadores nestas duas faixas salariais por cada trabalhador que recebe pelo menos três mil euros líquidos.
Por isso, a afirmação do PSD de que o número de trabalhadores com rendimentos líquidos de três mil euros ou mais quadruplicou numa década é verdadeira, assim como o aumento homólogo de 27%. Já a alegação de que são “quase o dobro” dos registados há dois anos é numericamente imprecisa, uma vez que o crescimento foi de 75,8%. O enquadramento omite também que este grupo representa apenas 2,7% dos assalariados.