cachoeira de sangueA chamada “Cachoeira de Sangue” se destaca na paisagem da Antártida pela água vermelho-alaranjada que escorre da Geleira Taylor.Foto: National Science Fundation/USA/Divulgação

Em meio aos Vales Secos de McMurdo, uma das regiões mais áridas da Antártida Oriental, a “Cachoeira de Sangue” chama atenção pela aparência incomum. De tempos em tempos, uma água salgada de tom vermelho-alaranjado escorre da Geleira Taylor em direção ao Lago Bonney, criando uma paisagem que parece saída de um filme.

A explicação para a cor é natural: a salmoura é rica em ferro e, quando entra em contato com o ar, o elemento sofre oxidação e adquire uma tonalidade semelhante à da ferrugem. O fenômeno é tão marcante que pode ser observado até mesmo em imagens de satélite.

Micróbios marinhos sobrevivem em meio à “cachoeira de sangue”

Apesar da aparência incomum, a região abriga um complexo ecossistema microscópico. Um estudo publicado em 3 de agosto na revista Nature Geoscience identificou uma comunidade de microrganismos no gelo, na lama e nos sedimentos avermelhados próximos à extremidade da Geleira Taylor.

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As análises genéticas revelaram uma descoberta surpreendente: as amostras próximas às “Cataratas de Sangue” — como também é conhecida a cachoeira — continham diversos eucariotos, microrganismos cujas células possuem núcleo e outras estruturas delimitadas por membranas. Entre eles, estavam diatomáceas, dinoflagelados, haptófitas e ciliados.

cachoeira de sangue A água rica em ferro ganha a coloração avermelhada ao entrar em contato com o ar e escorrer pela Geleira Taylor, formando a chamada “Cachoeira de Sangue”.Foto: Smithsonian Magazine/Divulgação

Mais de 60% das diatomáceas encontradas na lama vermelha e nos sedimentos apresentavam ligações ancestrais com organismos marinhos. Para Andrew Allen, biólogo marinho do Instituto Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego e coautor do estudo, a descoberta foi extraordinária.

“Encontrar o que é efetivamente um próspero oásis marinho em um deserto polar, a mais de 32 quilômetros do oceano, foi extraordinário”, afirmou o biólogo à jornalista Laura Baisas, da Popular Science.

Água pode ter ficado presa sob a geleira há milhões de anos

A presença desses organismos também pode ajudar a responder a uma pergunta que intriga os cientistas há décadas: de onde veio a água salgada das “Cataratas de Sangue”? Assista abaixo um vídeo publicado por um internauta sobrevoando o local.

Pesquisas anteriores, como as publicadas na Advancing Earth and Space Sciences, indicam que, milhões de anos atrás, quando a Antártida era mais quente do que atualmente, o oceano pode ter avançado sobre parte da região leste do continente. Quando as águas recuaram, uma quantidade de água marinha teria ficado presa sob a Geleira Taylor.

A geleira avançou sobre a região há cerca de 2,5 milhões de anos e, desde então, a água teria permanecido isolada sob o gelo, criando um ambiente extremamente salino onde comunidades microbianas conseguiram persistir.