
A “congelação do cérebro” dura geralmente poucos segundos, mas continua sem uma explicação científica definitiva. Comer gelados ou beber líquidos muito frios mais devagar parece ser a forma mais eficaz de a evitar.
Com temperaturas que podem chegar aos 37 °C em alguns locais, comer um gelado ou beber algo bem fresco pode parecer uma excelente ideia.
Há, no entanto, um pequeno risco em atacar a sobremesa gelada com entusiasmo a mais: a chamada “congelação do cérebro“.
Essa dor súbita e aguda é oficialmente classificada como uma cefaleia provocada pelo frio. A International Headache Society descreve-a como uma dor de cabeça causada por comer, beber ou inalar algo muito frio.
“Dor de cabeça do gelado e congelação do cérebro são, convenhamos, expressões mais fáceis de usar enquanto se leva a mão à testa, diz Adam Taylor, professor de anatomia na Lancaster University, num artigo no The Conversation.
E é surpreendentemente comum. Num estudo de 2020 com 618 pessoas entre os 17 e os 63 anos, pouco mais de metade disse já ter sentido este tipo de dor.
Os cientistas ainda não sabem ao certo o que a provoca. Em parte, porque é difícil estudar uma dor de cabeça que desaparece quase tão depressa como surge.
O contacto de alimentos ou bebidas muito frios com o céu da boca ou a parte de trás da garganta pode desencadear a dor.
Um dos principais intervenientes parece ser o nervo trigémio, um nervo de grande dimensão que leva ao cérebro informação sobre sensações, incluindo dor e temperatura, proveniente da face e de algumas zonas da boca.
Quando o céu da boca arrefece de repente, os investigadores pensam que o frio ativa vias nervosas que envolvem este nervo. Isso pode ajudar a explicar um dos aspetos mais estranhos da congelação do cérebro.
O frio está na boca, mas a dor costuma ser sentida na testa ou nas têmporas e, por vezes, à volta dos olhos.
É aquilo a que se chama dor referida: a dor é sentida num local diferente daquele onde teve origem o estímulo. Pode ser por isso que o frio na boca acaba por fazer doer a testa.
O fluxo sanguíneo também pode ter um papel, embora a explicação seja mais complexa do que se pensava.
Num estudo em que os investigadores provocaram deliberadamente congelação do cérebro com água gelada, registaram alterações na velocidade do fluxo sanguíneo numa artéria que irriga o cérebro. Outras experiências também encontraram indícios de mudanças na circulação cerebral durante estes episódios.
Por isso, a explicação habitual de que o frio faz os vasos sanguíneos contrair e depois dilatar rapidamente é provavelmente demasiado simples.
A investigação atual aponta para uma interação entre os sinais nervosos e alterações no fluxo sanguíneo, mas o mecanismo exato continua por esclarecer.
E as enxaquecas?
A relação entre a congelação do cérebro e a enxaqueca também é menos simples do que parece.
Alguns estudos sugerem uma ligação. Num estudo de 2001 com 669 mulheres, aquelas que tinham sofrido de enxaqueca no ano anterior apresentaram cerca do dobro da probabilidade de desenvolver uma dor de cabeça depois de beber água gelada, em comparação com mulheres que nunca tinham tido enxaquecas.
Outros trabalhos chegaram a resultados diferentes.
Numa experiência de 1992, as dores de cabeça provocadas por gelados surgiram com menos frequência em pessoas com enxaqueca do que no grupo de comparação.
E um estudo maior, publicado em 2020, concluiu que quem sofre de enxaquecas não tem maior probabilidade de sentir congelação do cérebro, embora, quando isso acontece, tenda a relatar dores mais intensas.
Em algumas pessoas com enxaqueca, a congelação do cérebro pode ocasionalmente desencadear uma crise.
O estudo de 1992 identificou um pequeno número de casos em que isso parecia acontecer, mas os investigadores concluíram que a dor de cabeça causada pelo gelado não era um desencadeador comum de enxaqueca.
Os dois tipos de dor de cabeça podem partilhar algumas vias da dor. Ainda assim, a relação entre ambos continua longe de estar totalmente esclarecida.
Porque parece acontecer tantas vezes às crianças?
A congelação do cérebro é comum entre crianças e adolescentes, embora a investigação em pessoas mais jovens ainda seja relativamente limitada.
Em 2003, um grande inquérito a 8.359 adolescentes concluiu que 41% já tinham sentido uma dor de cabeça causada por gelado.
A velocidade a que comem pode ajudar a explicar o fenómeno. Numa experiência canadiana particularmente simples, que envolveu 145 crianças em idade escolar, cada participante recebeu 100 ml de gelado. Um grupo teve de o comer em menos de cinco segundos, enquanto o outro demorou mais de 30 segundos
. Cerca de 27% das crianças que comeram mais depressa tiveram congelação do cérebro, contra aproximadamente 13% das que comeram com calma.
Há, portanto, alguma base científica para aquela ordem tão comum dos pais ao verem uma criança devorar um gelado: mais devagar.
É possível evitar?
Prevenir parece ser mais fácil do que tratar. Na experiência canadiana, comer gelado depressa mais do que duplicou a probabilidade de surgir congelação do cérebro.
Em 2019, num outro estudo, 73% das pessoas que sofriam deste problema disseram que comer ou beber alimentos frios mais devagar reduzia a frequência dos episódios ou a intensidade da dor.
A maioria passa muito depressa. No estudo com 618 participantes, 93% das dores de cabeça duraram menos de 30 segundos. Mas algumas prolongam-se.
Um estudo experimental identificou uma forma menos comum, com uma duração média de quase quatro minutos.
Já os critérios de diagnóstico da International Headache Society admitem que a dor possa demorar até dez minutos a desaparecer depois de retirado o estímulo frio.
Há pouca investigação de qualidade que mostre que truques populares, como pressionar a língua contra o céu da boca, façam a dor desaparecer mais depressa. Felizmente, a congelação do cérebro costuma resolver-se por si.
Por isso, durante a vaga de calor, não há motivo para temer a carrinha dos gelados. Basta resistir à tentação de devorar a compra como se alguém estivesse prestes a tirá-la das mãos. Comer devagar pode ajudar a desfrutar do gelado sem pagar o preço de uma dor de cabeça.