É um dos resgates mais impressionantes deste verão. Aconteceu na Praia da Adraga, em Sintra, onde o mar tem fama de traiçoeiro. A força das ondas e o pânico do banhista obrigaram a uma operação complexa. O nadador-salvador e um surfista, que o foram ajudar, acabaram também por ficar retidos. Os três, durante três horas, numa gruta
Paredes de rocha erguem-se, recortadas pelo vento e pelo mar. Praia da Adraga, Sintra. Quem conhece as correntes desta costa, sabe como elas podem ser traiçoeiras. “Aviso. Perigo de afogamento. Agueiro pode matar. Na dúvida, não vá”, lê-se na placa na extremidade esquerda do areal.
26 de julho de 2026. Bandeira amarela. “Por volta do meio-dia, temos um alerta de um banhista que tinha desaparecido na Praia da Adraga, numa zona rochosa, com muitas grutas”, recorda João Pinheiro, nadador-salvador e presidente da Brave Heart, a associação humanitária responsável pela vigilância nesta área. É ele quem coordena o resgate.
A praia transforma-se com o alerta. É dado pela mãe do homem desaparecido, um ucraniano de 36 anos. Depois de um mergulho, o filho desaparece, precisamente, para o lado esquerdo da praia.
“Um nadador-salvador entrou logo na água para fazer buscas, para perceber se ainda estava dentro de água ou se já tinha saído pelos próprios meios. Verificámos que o banhista se encontrava dentro de uma gruta”, junta João Pinheiro.
Confirma-se o cenário mais provável. O mar costuma ter a sua força naquela direção. Nem a braçada mais firme pode ser suficiente para contrariar as águas.
Se olhar para esta imagem, a gruta onde tudo aconteceu é logo a primeira à direita do areal
“Ele só dizia que não conseguia sair”
O banhista acaba por encontrar um local seguro dentro da gruta. Há areia suficiente para que a água nunca lhe fique acima dos joelhos. O problema é outro: a única saída, tal como a única entrada, é pelo mar. As ondas rebentam aqui com intensidade. Com o fundão, perde-se o pé. O perigo tem de ser enfrentado de frente. Voltar a terra obriga a mergulhar num mar que agora se teme.
“É uma zona bastante rochosa. Qualquer movimento errado, qualquer onda um pouco maior, pode empurrar-nos contra as rochas”, aponta Thomas Capucho, nadador-salvador da Brave Heart. Apesar de socorrer banhistas há quatro anos na costa de Cascais e Sintra, não tem dúvidas: este é um dos resgates mais complexos em que se viu envolvido.
Thomas é mobilizado para a Praia da Adraga após o alerta desta tarde. Acaba por ser o ponto de ligação entre o interior e o exterior da gruta. Entra e sai várias vezes. Mas não há nada como o primeiro impacto. “A vítima estava em pânico. Tentámos tudo. Dizíamos-lhe ‘vamos sair’. Ele só respondia que não queria, que não conseguia”.
Thomas Capucho é um dos nadadores-salvadores envolvidos no resgate
Quando Thomas entra em ação, há muito que o primeiro nadador-salvador a chegar à gruta tenta acalmar o banhista. É um homem que conhece o mar de Sintra como poucos. Pede que não o identifiquemos nesta reportagem, mas conta que a sua preparação física, que os mergulhos sem fato térmico durante o inverno, mostraram ser uma ajuda importante neste cenário de crise.
Foram três horas dentro da gruta. E três homens. Porque, à vítima e ao nadador-salvador, se junta um surfista. Por aqui, os surfistas estão sempre prontos a ajudar quando há um salvamento em curso. A prancha costuma ser um apoio importante. É o surfista quem dá a indicação ao drone dos Bombeiros de Almoçageme, entretanto chamados para o local, de que estão três pessoas retidas na cavidade. As imagens de drone do resgate que mostramos nesta reportagem foram gentilmente cedidas à CNN Portugal pelo comandante desta corporação.
“Três horas numa gruta pode ser considerada uma situação extrema”, classifica a psicóloga Catarina Lucas.
Perante o susto, todos os meios empenhados
“Recebi o alerta de que estava um banhista encurralado nas pedras, com a maré a subir. Perante esta incerteza, e o facto de o nadador-salvador não estar a conseguir resolver a situação sozinho, obrigou-me a ativar todos os meios que tenho disponíveis”, descreve José Coelho, comandante-local da Polícia Marítima de Cascais.
A lista é extensa: além de mais nadadores-salvadores da Brave Heart, a Polícia Marítima, os Bombeiros de Almoçageme, a lancha salva-vidas da Estação Salva-Vidas de Cascais, uma carrinha Amarok da Autoridade Marítima Nacional e elementos da Marinha que fazem o reforço da vigilância das praias.
E é colocado de sobreaviso um helicóptero da Força Aérea – que acaba por não entrar em cena.
E estará a perguntar-se: se o primeiro nadador-salvador a chegar à gruta é tão experiente, porque é que não consegue fazer o trabalho sozinho? “Com a força das ondas, o meu colega acaba por perder os dois pés de pato [barbatanas]. Ficou com dificuldades. Como era uma zona de rebentação muito forte, não conseguia remover a vítima facilmente. É um equipamento que nos permite nadar mais rápido, cansarmo-nos menos, termos uma força maior na pernada”, explica Thomas Capucho.
Com o dispositivo de resgate montado, o dia de praia fica em suspenso. Estão todos os olhos postos na gruta. Todos à espera de um desfecho feliz. Multiplicam-se as tentativas. Nenhuma parece funcionar.
Zona é de forte rebentação
A mesma escarpa, outro resgate
Este resgate complexo está longe de ser caso único. O mar de Sintra é conhecido por ser traiçoeiro – e nem todos sabem desta fama. Terá sido o caso de um casal russo que, em agosto de 2025, ficou preso nesta mesma escarpa, entre a Praia da Adraga e a Praia do Cavalo. Com a maré baixa, foram passear pelo areal e explorar as grutas. Quando deram por si, com a subida da maré, já não era possível voltar. Acabaram por abrigar-se nas rochas. Foram 12 horas, durante a noite, à espera de ajuda.
Foram resgatados na manhã seguinte, já em hipotermia. Curiosamente, quem os socorre é o mesmo nadador-salvador que chega primeiro ao resgate da gruta.
“A costa entre Cascais e Torres Vedras tem muitas falésias, escarpas, praias isoladas e, em alguns sítios, areal estendido. Este tipo de costa origina muitos acidentes deste género. As pessoas vão explorar para fora da praia, descobrir grutas e cavernas, e, em algumas circunstâncias, acabam por ficar encurraladas pela ondulação ou pela subida da maré”, confirma o capitão José Coelho.
Registo do salvamento que teve lugar em agosto de 2025
Pior do que a hipotermia, o pânico
De volta à tarde de 26 de julho de 2026. Thomas entra e sai da gruta, enfrentando as grandes ondas. “Os bombeiros perguntaram se queríamos levar uma manta térmica ou comida para a vítima, para esperarmos até à maré vazar. Só que decidimos que não era a melhor opção. Eles já estavam ali há duas horas e meia, com sinais de que a temperatura corporal estava a baixar. Tínhamos de esperar mais quatro horas até à maré vazar”, conta.
O sol não bate dentro da gruta, está frio. O drone dos bombeiros, equipado com uma câmara de infravermelhos, consegue avaliar a evolução da temperatura na cavidade. Mas não é pelo risco de hipotermia que tudo se precipita. Se fosse essa a principal preocupação, até a Polícia Marítima admitia esperar pela descida da maré. Para isso, havia soluções.
É antes o pânico que o ucraniano vivencia dentro da gruta aquilo que se torna mais premente. “A primeira coisa que a vítima me disse foi que não conseguia sair. Disse-lhe que tinha de ter calma, que havia muita gente cá fora a controlar o mar, todos prontos para o ajudar”.
João Pinheiro, habituado a coordenar resgates, segue no mesmo sentido: “Ficaram os três lá durante três horas porque tínhamos uma vítima em pânico. Tentámos retirá-la inúmeras vezes, mas não colaborava. Além disso, estamos a falar de uma zona muito rochosa, muito perigosa”.
Câmara de infravermelhas fazia a avaliação da temperatura (Cortesia: Bombeiros de Almoçageme)
Janela de oportunidade
Pode parecer estranho que, quando alguém nos oferece a ajuda que nos permite sair de uma emergência, não colaboremos. É apenas o pânico a falar mais alto. Os nadadores-salvadores estão habituados, os psicólogos também.
“O pânico é um bloqueador. Estamos a falar de uma ansiedade extrema, que nos bloqueia a ação e tolda a capacidade de pensar. Muitas vezes, não nos deixa tomar as decisões que seriam as mais ajustadas”, confirma a psicóloga Catarina Lucas.
Neste caso concreto, o cérebro interpreta a água como uma ameaça. “E depois há a imprevisibilidade. Não sei quando é que a onda vem e vai. A sensação é de que vou em direção ao perigo, mesmo que esteja ali alguém para me ajudar”, concretiza.
Então, como podemos manter a calma numa situação como esta? “Parar, respirar, ouvir a pessoa que está à nossa frente, para depois agir em conformidade. E há outra coisa muito importante nestas situações: confiar. Porque, por norma, a pessoa que nos está a ajudar sabe o que está a fazer”, aconselha a especialista.
Surfista dá indicação ao drone dos bombeiros de que estão três pessoas na gruta (Cortesia: Bombeiros de Almoçageme)
Como o mar tem o seu próprio ritmo, neste resgate, acaba por ser um enorme obstáculo. “A rebentação era constante. Tínhamos um período de acalmia, de 15, 20 segundos. É extremamente curto”, diz João Pinheiro.
“Tínhamos cerca de 30 segundos, mais ou menos, entre cada ‘set’ de ondulação”, confirma Thomas Capucho. Menos de meio minuto. É esta a janela de oportunidade, o tempo para conseguir escapar.
Mais gente a arriscar
Sabia que, todos os verões, há em média sete a 10 salvamentos por dia nas praias portuguesas. E a culpa não pode ser atribuída apenas a um mar mais agitado. Quem trabalha nos areais, garante que os banhistas também estão a arriscar mais.
“Há uma falta de conhecimento daquilo que é o mar, a praia. Há banhistas que não seguem as indicações dos nadadores-salvadores, muitas vezes até reclamam, mas é apenas para a segurança delas”, lamenta João Pinheiro.
Thomas Capucho concretiza: “As pessoas estão menos conscientes. Temos vários casos de crianças pequenas que os pais as deixam ir para a água sozinhas. Há pessoas que vêm de outros países, não conhecem o mar e arriscam. E há também muitos casos que nos respondem ‘eu sei, venho aqui há 30 anos e nunca me aconteceu nada’. E acaba por acontecer”.
“Quando não conhecem bem as praias, perguntem aos nadadores-salvadores. São as pessoas indicadas para informar dos riscos que as pessoas podem correr se terminar saírem daquela zona de conforto”, recomenda José Coelho.
João Pinheiro, presidente da Brave Heart, lamenta que banhistas ignorem recomendações
Como acaba esta história
É quando o mar começa a virar, com a ondulação a acalmar um bocadinho, que se abre uma oportunidade para concretizar o resgate. Está na hora. O banhista apresenta-se mais calmo. Tem dois cintos de salvamento à sua volta. No horizonte, a embarcação salva-vidas dá-lhe um conforto adicional, mesmo que não se consiga aproximar, para não bater nas rochas.
São cerca de três minutos e meio a separar a saída da gruta e o areal da Adraga. Uma eternidade, porque o tempo numa emergência não segue as regras do relógio. O ucraniano segue rodeado por Thomas, pelo primeiro nadador-salvador que o ajudou e pelo elemento da estação salva-vidas. O surfista, de prancha debaixo do braço, observa-os a afastarem-se no mar.
Imagens do resgate mostra como foram enfrentadas as ondas (Cortesia: Bombeiros de Almoçageme)
As ondas vão batendo com força. Têm de mergulhar ao mesmo tempo para conseguir avançar. A coreografia repete-se. O ucraniano, sempre de mãos dadas aos homens que o acompanham. No drone dos bombeiros de Almoçageme, vêm-se outros surfistas a aproximar-se, como quem dá indicações.
O banhista passa a ter pé. Cambaleia, deixa-se cair nos braços de quem o aguarda à beira da água. Sai em braços, recuperando a verticalidade a cada passo. Aproxima-se uma manta térmica. Terra firme. O pesadelo acabou. Está livre da armadilha.
Três horas depois, o pesadelo acaba para este ucraniano (Cortesia: Bombeiros de Almoçageme)