O café é uma das bebidas mais consumidas no mundo e, há anos, aparece em pesquisas associado a uma vida mais longa e a um menor risco de algumas doenças relacionadas ao envelhecimento. Agora, um estudo realizado por pesquisadores da Texas A&M University identificou um possível mecanismo biológico que ajuda a explicar essa relação. Segundo a pesquisa, compostos presentes no café podem interagir diretamente com uma proteína envolvida na resposta do organismo ao estresse, à inflamação e aos danos celulares.
Publicado em 2026 na revista científica Nutrients, o estudo investigou o receptor NR4A1, uma proteína que participa do controle da atividade dos genes. Esse receptor é ativado rapidamente quando as células enfrentam situações de estresse ou danos e ajuda o organismo a responder a essas alterações e se recuperar.
Nos experimentos, os pesquisadores analisaram extratos de diferentes tipos de café e diversos componentes químicos presentes na bebida. Os resultados mostraram que o café preparado e alguns de seus principais compostos polifenólicos conseguem se ligar ao receptor NR4A1. Quando os cientistas reduziram a presença dessa proteína nas células, os efeitos observados com os compostos do café também diminuíram.
A descoberta sugere que o NR4A1 pode participar diretamente da maneira como algumas substâncias presentes no café atuam no organismo. Esse mecanismo pode ajudar a explicar parte dos efeitos que já vêm sendo investigados em estudos anteriores sobre o consumo da bebida e o envelhecimento saudável.
Um dos pontos que chamam atenção é que os possíveis efeitos não parecem depender exclusivamente da cafeína. Os pesquisadores encontraram atividade de diferentes compostos presentes no café, incluindo polifenóis, substâncias conhecidas por suas propriedades antioxidantes. Isso também pode explicar por que os resultados foram observados em diferentes variedades e formas de preparo, inclusive no café descafeinado.
O NR4A1 está relacionado a processos importantes para o funcionamento das células, como metabolismo, resposta inflamatória e adaptação ao estresse. Por isso, os pesquisadores levantam a possibilidade de que o receptor funcione como uma espécie de sensor capaz de identificar determinadas substâncias presentes nos alimentos e bebidas e desencadear respostas que ajudam a proteger as células.
Apesar dos resultados promissores, ainda não é possível afirmar que o café faça o organismo envelhecer mais lentamente ou previna doenças relacionadas à idade. A pesquisa foi realizada em modelos celulares e de laboratório, e não em pessoas acompanhadas durante o consumo habitual da bebida. Dessa forma, o estudo identifica um possível mecanismo biológico, mas não comprova um efeito clínico em seres humanos.
A descoberta também não significa que seja necessário aumentar o consumo de café. As evidências disponíveis ainda não justificam o uso da bebida como estratégia específica contra o envelhecimento. Para quem já consome café, porém, os resultados acrescentam uma nova possibilidade à compreensão dos efeitos da bebida sobre o organismo.
Mais do que a cafeína responsável por aumentar o estado de alerta, o café reúne uma combinação complexa de compostos que pode atuar de diferentes maneiras nas células. Novas pesquisas em humanos serão necessárias para descobrir se a interação com o NR4A1 realmente se traduz em proteção contra o envelhecimento e doenças relacionadas à idade.