O outro momento, esse mais consciente, foi quando a minha mulher ficou grávida, há 37 anos. Estava constantemente com a ansiedade a disparar e com medo. Medo do diabo, da figura do demónio. Que estivesse aqui e ali, que fizesse alguma coisa à minha filha que ainda nem tinha nascido. Andava permanentemente em pânico, inquieto, a repetir ações, rituais… se os fizesse nada de mal ia acontecer e a ansiedade, por momentos, baixava. Eu pensava que essa era a solução.

Passei muito mal nesse tempo, dei uma vida terrível à minha mulher e à minha mãe que, na altura, vivia connosco. Foi muito complicado, em momentos de stress maior do que o habitual, a POC ataca mais e os efeitos são mais corrosivos. Quando a minha filha nasceu, a primeira vez que lhe peguei já ela tinha três semanas e, mesmo assim, sentei-me no sofá e tremia que nem varas verdes quando a minha mulher me pôs a miúda no colo. Os pensamentos continuavam a destruir toda essa experiência.

Nesse tempo, eu achava que era um extraterrestre, que mais ninguém tinha nada assim. Até que percebi que se repetisse determinadas ações quando vinha o pensamento negativo, forçando-me a ter um pensamento positivo contrário, a ansiedade baixava. Vinha-me um pensamento à cabeça e eu pegava num lenço e tinha de voltar a pô-lo onde queria, mas com um pensamento de Jesus, de Deus, de um santo, de um anjo da igreja. Agora imagine o que é fazer isto dez vezes para o lenço ficar naquele sítio. E quem diz o lenço, diz tudo e mais alguma coisa.

Era com tudo. Com interruptores, não porque achasse que a luz tinha ficado ligada, mas porque tinha tido o pensamento quando a desliguei e então tinha de a ligar outra vez. E andava nisto dez ou quinze vezes. Pôr o carro a trabalhar e desligá-lo dez vezes, nunca por achar que havia algum problema. O problema era como o processo não tinha sido feito com um pensamento positivo, antes pelo contrário: vinha acompanhado de um pensamento negativo. Então eu tinha de andar para trás e para a frente com o lenço, com o copo de água, apertar e desapertar os sapatos, apertar e desapertar o cinto das calças, apertar e desapertar os botões da camisa.