A ginecologista Dra. Kelly Saunders tem recebido perguntas de um número cada vez maior de pacientes sobre tratamentos da perimenopausa anunciados nas redes sociais. As mulheres não sabem por onde começar.
“Há uma infinidade de produtos no mercado, com ou sem embasamento científico, então me fazem muitas perguntas”, disse Dra. Kelly, preceptora associada de obstetrícia e ginecologia na Universidade do Arizona, em Phoenix, nos Estados Unidos. Dada a constelação imprevisível de sintomas que as mulheres podem apresentar durante sua transição para a menopausa, pode ser difícil para as pacientes diferenciar o que é verdadeiro, no que devem acreditar e o que seria adequado para elas, disse a médica.
Uma ampla gama de possíveis medicamentos para a perimenopausa está sendo pesquisada em ensaios clínicos, desde a rapamicina para retardar o envelhecimento ovariano até os canabinoides derivados do cânhamo para sintomas físicos e psicológicos. Apesar do alarde em torno de estratégias não comprovadas, como a associação de anti-histamínicos, o número de alternativas respaldadas pelas pesquisas tem aumentado. Alguns novos medicamentos têm mostrado resultados promissores em ensaios clínicos preliminares.
De metade a três quartos das mulheres na perimenopausa apresentam sintomas vasomotores, como ondas de calor, sudorese noturna ou ambos. Mais da metade das mulheres têm sintomas geniturinários, como ressecamento ou irritação vaginal, dispareunia e disfunção urinária. Outros sintomas comuns são as alterações do humor, como irritabilidade, diminuição da libido e embotamento cognitivo ou dificuldade de concentração, disse a Dra. Kelly, que também chefia o programa de residência em obstetrícia e ginecologia do Banner University Medicine Women’s Institute, em Phoenix, nos Estados Unidos.
Segundo a médica, os objetivos e as estratégias terapêuticas variam para cada paciente. Embora muitas mulheres perguntem se exames hormonais podem confirmar a transição para a menopausa, “eu considero muito mais o que as pacientes me contam sobre suas experiências”, afirmou a Dra. Kelly.
Tratamentos para estabilizar os hormônios
Durante a perimenopausa, picos repentinos de estrogênio podem causar sangramentos imprevisíveis. Os ovários envelhecidos respondem de forma menos previsível à sinalização cerebral, causando irregularidade menstrual. Isso pode levar a uma gestação indesejada — risco para até 77% das mulheres entre 45 e 50 anos de idade — e a exames desnecessários em busca de miomas ou lesões pré-cancerosas do útero, segundo a médica Dra. Karen E. Adams, preceptora de obstetrícia e ginecologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford, Califórnia, nos EUA.
“Não é que desejamos que a menstruação seja regular. O que queremos é a estabilização hormonal”, disse Dra. Karen, que também chefia o programa de menopausa e envelhecimento saudável na mesma universidade. O tratamento de reposição hormonal contém cerca de quatro vezes menos hormônio do que os contraceptivos orais, por isso não ajuda a regular a menstruação, podendo inclusive causar sangramentos imprevisíveis, explicou a Dra. Karen. A médica costuma reservar a reposição hormonal para as pacientes já na menopausa e prescreve contraceptivos orais ou dispositivos intrauterinos para as pacientes na perimenopausa.
Os dispositivos intrauterinos contendo progestina, como Mirena ou Liletta, podem ajudar a controlar o ciclo menstrual, mas não ajudam a controlar os sintomas vasomotores ou geniturinários, disse a Dra. Karen. A especialista frequentemente acrescenta um adesivo ou gel de estradiol ; o tratamento hormonal com estrogênio, isoladamente ou associado à progesterona, pode diminuir os sintomas vasomotores em cerca de 75%.
A testosterona na reposição hormonal tem demonstrado aumentar a libido das mulheres na menopausa. Segundo relatos, os esquemas com testosterona também podem melhorar o embotamento cognitivo e aumentar a energia das mulheres na perimenopausa, afirma a Dra. Kelly. Porém, por falta de informações de segurança a longo prazo e pelas preocupações com o risco cardiovascular, não há nenhum medicamento com testosterona aprovado pela Food and Drug Administration dos EUA para as mulheres.“Portanto, qualquer utilização é sem indicação formal”, disse a Dra. Kelly.
A reposição hormonal pode ajudar a tratar a depressão e a ansiedade na perimenopausa, mas não é considerada como tratamento de primeira linha neste caso, disse a médica Dra. Ruta Nonacs, Ph.D., psiquiatra especialista em reprodução do Center for Women’s Mental Health do Massachusetts General Hospital e professora de psiquiatria na Harvard Medical School, em Boston, nos EUA. A reposição hormonal pode ser associada aos inibidores seletivos da recaptação da serotonina, que “podem ajudar a tratar a depressão e a ansiedade, bem como contribuir para diminuir os sintomas vasomotores”, disse Dra. Ruta.
Novos medicamentos
Uma análise em grande escala de 2025 constatou que iniciar o tratamento com estrogênio durante a perimenopausa foi associado a um risco 60% menor de câncer de mama, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular encefálico, em comparação a iniciar o tratamento após o início da menopausa ou não fazer reposição hormonal.
Ainda assim, muitas mulheres não podem tomar hormônios. O tratamento hormonal sistêmico aumenta o risco de recidiva para as mulheres com história de câncer de mama com receptores hormonais em até 80%. As mulheres com determinados fatores de risco cardiovasculares também podem ser orientadas a não fazer reposição hormonal.
O estetrol, também conhecido como E4, é um estrogênio natural que ativa alguns receptores de estrogênio e bloqueia outros. Associado à drospirenona (uma progestina sintética), obteve aprovação da Food and Drug Administrationdos EUA como contraceptivo oral em 2021 e pode vir a ser aprovado para a reposição hormonal ainda este ano.
No entanto, há algumas desvantagens. O estetrol pode causar sangramento de escape em um terço ou mais das mulheres que iniciam a reposição com este hormônio, mas o risco diminui com o tempo, explicou a Dra. Karen. Não existe ainda a apresentação genérica do estetrol e muitos planos de saúde não o reembolsam.
Embora o estetrol seja um hormônio, “ não tem a ação de formação de coágulos nem a repercussão no tecido mamário que acreditamos que os contraceptivos orais tenham”, disse a Dra. Karen.
Os antagonistas do receptor 3 da neurocinina são uma alternativa sem hormônios para o tratamento dos sintomas vasomotores. Dois antagonistas do receptor 3 da neurocinina foram aprovados pela Food and Drug Administration dos EUA: o linzanetanto, um duplo antagonista que bloqueia os receptores 1 e 3 da neurocinina no cérebro, e o fezolinetanto, um antagonista seletivo exclusivo do receptor 3 da neurocinina. Os antagonistas do receptor 3 da neurocinina podem aumentar as enzimas hepáticas e não ser seguros para pessoas com hepatopatias, explicou a Dra. Karen. A função hepática deve ser monitorada nas pacientes que usam esses medicamentos.
“Os dois atuam em uma parte do cérebro que está um passo atrás da onda de calor”, disse a Dra. Karen. “[Eles] agem rapidamente e, para controle das ondas de calor, da sudorese noturna e dos distúrbios do sono, são tão eficazes quanto os estrogênios”.
O elinzanetanto é especialmente útil para o sono, possivelmente “porque também age em outro receptor no cérebro”, disse a médica.
Possíveis medicamentos experimentais
Um produto que vem ganhando destaque para o tratamento da perimenopausa é um suplemento alimentar que combina o ribosídeo da nicotinamida, precursor do dinucleotídeo de nicotinamida adenina, e o antioxidante pterostilbeno. O dinucleotídeo de nicotinamida adenina é um metabólito da vitamina B3 que ajuda a produzir o estradiol, cujos níveis diminuem com a idade. Ensaios clínicos demonstraram que o ribosídeo de nicotinamida, quando combinado, pode proteger contra certos efeitos da radiação ultravioleta B e aumentar os níveis séricos do dinucleotídeo de nicotinamida adenina em 40%.
Em um ensaio clínico piloto publicado este ano, a associação do ribosídeo de nicotinamida reduziu a frequência e a intensidade dos sintomas da perimenopausa de 40 mulheres hígidas com mais de 35 anos que tomaram a dose diária recomendada (250 mg de ribosídeo de nicotinamida e 50 mg do antioxidante pterostilbeno) por sete dias. As 32 mulheres que referiram sintomas da menopausa antes do ensaio clínico informaram diminuição significativa do edema, das ondas de calor e da dificuldade de dormir após sete dias. Entre essas mulheres, a associação do ribosídeo de nicotinamida também aumentou significativamente os níveis urinários de estradiol e estrona, principal fonte de estradiol após a menopausa.
A cendifensina, um medicamento experimental criado para tratar a depressão, também se mostrou promissora para o tratamento dos sintomas da perimenopausa. Como reguladora de monoaminas, a substância age na serotonina, na norepinefrina e na dopamina, além de influenciar os neurônios KNDy (kisspeptina, neurocinina B e dinorfina), que causam as ondas de calor quando hiperestimulados por quedas dos níveis de estrogênio.
Em ensaios clínicos de fase 2, a cendifensina reduziu a frequência das ondas de calor de intensidade moderada a forte em 92% e sua intensidade em 59% ao longo de 12 semanas (o número médio inicial de ondas de calor de intensidade moderada a forte por dia era de 12,7). Os sintomas de depressão, compulsão alimentar, fadiga e ganho ponderal também melhoraram. Estão previstos grandes ensaios clínicos de fase 3.
Suplementos e estilo de vida
A Dra. Kelly disse que muitas pacientes se interessam por suplementos para tratar sintomas da perimenopausa, algumas vezes por desconfiança em relação à medicina ocidental.
A pesquisa da Dra. Kelly de 2026 sobre estratégias integrativas para a perimenopausa cita evidências de que a ashwagandha(Withania somnifera) melhora o sono e ajuda a controlar o estresse e a ansiedade, mas os estudos não se concentraram nas mulheres na menopausa ou na perimenopausa. A melatonina e o magnésio apresentam algumas evidências de melhora do sono, disse a médica, enquanto a raiz de maca demonstrou, em alguns estudos, melhorar a disfunção sexual (inclusive a causada por antidepressivos) entre as mulheres na menopausa.
“Alguns desses fitoterápicos ou nutracêuticos podem ser usados como adjuvantes para ajudar mulheres sintomáticas”, disse a Dra. Kelly.
As evidências sobre os efeitos do exercício físico nos sintomas vasomotores são heterogêneas, mas vários ensaios clínicos estão pesquisando essas estratégias durante a perimenopausa, em termos de efeitos na saúde cognitiva, na função vascular e no humor quando associados ao suplemento contendo sarmentosina e L-teanina.
Mesmo durante a exploração de possíveis medicamentos pelos pesquisadores, muitos sintomas da perimenopausa continuam sendo ignorados. Alguns médicos talvez não estejam cientes de que esses sintomas podem aparecer antes de haver qualquer alteração do ciclo menstrual, disse a Dra. Karen.
“Em média, as mulheres consultam cinco médicos diferentes até que seus sintomas da perimenopausa sejam diagnosticados e tratados”, explicou ela.
Na reunião da Menopause Society dos EUA no ano passado, a Dra. Karen ficou satisfeita ao ouvir discussões sobre a “orientação antecipada” sobre a perimenopausa para as mulheres que estão chegando aos trinta e poucos anos. “Precisamos falar sobre isso”, disse a médica.
Os especialistas citados neste artigo não informaram conflitos de interesses relevantes.
Este conteúdo foi traduzido do Medscape