247 – A resposta global à epidemia de HIV/Aids atravessa um momento de encruzilhada geopolítica e científica. Enquanto a ciência atinge patamares inéditos com antirretrovirais injetáveis de longa duração e comprovações de que o tratamento zera a transmissão, o cenário internacional enfrenta retrocessos severos marcados por cortes orçamentários, avanço do moralismo e abandono de populações vulneráveis. O diagnóstico contundente foi apresentado pela infectologista Beatriz Grinsztejn, pesquisadora da Fiocruz e diretora da International AIDS Society (IAS), em entrevista ao programa Conversas com Hildegard Angel, na TV 247.
A médica, que presidiu a conferência internacional do setor realizada no Rio de Janeiro, traçou um panorama abrangente sobre o protagonismo brasileiro na pesquisa médica, a blindagem oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) diante das turbulências externas e a urgência de combater os determinantes sociais da saúde.
O retrocesso geopolítico e a desidratação da ajuda global
Um dos pontos centrais da conversa foi a drástica mudança na governança global da saúde. A Dra. Beatriz alertou para os efeitos do enfraquecimento e reformulação do PEPFAR (President’s Emergency Plan for AIDS Relief), mecanismo criado no governo George W. Bush que salvou dezenas de milhões de vidas em países de baixa e média renda nas últimas duas décadas.
A mudança de diretrizes em Washington, somada ao redirecionamento de fundos de países europeus — como França e Alemanha — para orçamentos militares em meio a tensões bélicas internacionais, desestruturou programas inteiros na África, Ásia e Caribe.
“Os sistemas de informação e vigilância, que eram mantidos por esses fundos internacionais, foram fortemente paralisados em muitos países. Além disso, serviços voltados a populações mais vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens e pessoas trans, foram desmantelados, sobretudo em nações onde há criminalização dessas populações”, explicou Grinsztejn.
A imposição de acordos bilaterais restritivos e a exigência de contrapartidas que favorecem grandes corporações de tecnologia e farmacêuticas do Norte global criaram barreiras adicionais para o controle epidemiológico mundial.
A soberania do SUS e o papel da Fiocruz na fronteira do conhecimento
Em contraponto à vulnerabilidade externa, o Brasil desponta como um modelo de resiliência e soberania sanitária. Graças à universalidade estabelecida pela Constituição de 1988 e consolidada pela legislação de acesso aos antirretrovirais nos anos 1990, o país financia sua política contra o HIV inteiramente com recursos públicos via SUS.
A Fiocruz, instituição na qual a Dra. Beatriz atua, tem sido peça-chave nas maiores descobertas da infectologia moderna:
- Estudo HPTN 052: Conduzido com protagonismo do centro de pesquisa brasileiro, demonstrou que a terapia antirretroviral eficaz impede a transmissão do HIV em casais sorodivergentes (princípio sintetizado no conceito de Indetectável = Intransmissível), trabalho que foi eleito o maior avanço científico do ano (Breakthrough of the Year) pela revista Science em 2011.
- Prevenção da transmissão vertical: Pesquisas lideradas pela Fiocruz estabeleceram protocolos mundiais para o uso de terapias combinadas em gestantes, reduzindo a transmissão de mãe para filho a taxas próximas de zero.
- Antirretrovirais de longa duração: Participação direta nos ensaios clínicos de novos medicamentos como o Cabotegravir (injetável bimestral, em fase de incorporação pelo SUS) e o Lenacapavir (injetável semestral).
A infectologista enfatizou que, embora o Lenacapavir represente uma revolução preventiva, o alto custo internacional imposto pelos detentores de patentes exige capacidade de negociação do Estado para garantir compras públicas sustentáveis e democratizar o acesso.
Determinantes sociais: fome, pobreza e o impacto do Bolsa Família
Apesar da ampla disponibilidade de testagem, preservativos e da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) no SUS, o Brasil ainda registra cerca de 30% dos diagnósticos de HIV em estágio tardio. Para a pesquisadora, o dado evidencia que o acesso ao medicamento, por si só, não basta se as condições estruturais de vida forem negligenciadas.
Nesse contexto, Grinsztejn destacou dados que comprovam a eficácia direta do Programa Bolsa Família na saúde pública:
- Redução expressiva no número de óbitos decorrentes de complicações do HIV;
- Queda nas internações hospitalares ligadas ao vírus;
- Diminuição nas taxas de novas infecções, com impacto ainda mais acentuado entre mulheres em situação de extrema pobreza e seus dependentes.
“A ação precisa incidir sobre os determinantes sociais. A garantia da comida na mesa e o mínimo de subsistência retiram mulheres da vulnerabilidade extrema e permitem que a população aceda aos direitos e tecnologias que o SUS oferece”, pontuou.
Educação, estigma e gênero
Ao longo do diálogo com Hildegard Angel, a infectologista relembrou o início da epidemia nos anos 1980, marcada pela perda de grandes nomes da cultura e pelo estigma generalizado. Destacou também o papel histórico e invisibilizado das mulheres lésbicas, que formaram a rede primária de cuidado e acolhimento aos doentes quando a sociedade marginalizava os infectados.
Grinsztejn chamou a atenção para a vulnerabilidade contemporânea das mulheres, que frequentemente não se percebem em risco devido ao preconceito e à falta de campanhas educativas sistemáticas. Para ela, o combate ao retrocesso moralista passa necessariamente pelo fortalecimento do financiamento do SUS, pela presença contínua da educação sexual e científica nas escolas e pela desconstrução da misoginia na sociedade.
A entrevista completa com a Dra. Beatriz Grinsztejn está disponível no canal da TV 247.
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