E se as maiores catástrofes da história da Terra não fossem obra do acaso? Um novo estudo encontrou mais evidências de um padrão que poderá ligar extinções em massa, grandes erupções vulcânicas, subidas bruscas do nível do mar e outros eventos devastadores.
À primeira vista, acontecimentos como extinções em massa, erupções vulcânicas gigantes, oceanos subitamente privados de oxigénio ou mudanças bruscas do nível do mar parecem fenómenos independentes, mas uma nova análise sugere que estes grandes episódios da história da Terra podem fazer parte de um mesmo padrão, repetindo-se de tempos a tempos.
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O estudo, publicado na revista Evolving Earth, volta a analisar uma hipótese debatida há mais de quatro décadas: a de que os maiores acontecimentos geológicos do planeta não ocorrem de forma totalmente aleatória, mas seguem um ritmo de muito longo prazo. Recorrendo a escalas temporais geológicas mais precisas e a métodos estatísticos atualizados, o geólogo Michael Rampino, da Universidade de Nova Iorque, conclui que as evidências para este ciclo se tornaram mais robustas, embora a explicação permaneça em aberto.
A investigação reuniu dados de 89 grandes eventos ocorridos ao longo dos últimos 260 milhões de anos. Entre eles estão extinções em massa nos oceanos e em terra, episódios em que vastas áreas oceânicas ficaram sem oxigénio, gigantescas erupções de basaltos continentais, alterações do nível do mar, mudanças na velocidade de expansão dos fundos oceânicos e fases de intenso vulcanismo no interior das placas tectónicas.
Quando todos estes acontecimentos foram analisados em conjunto, surgiu um padrão dominante de cerca de 27,5 milhões de anos. Os investigadores identificaram também um ciclo secundário, mais fraco, com aproximadamente 8,9 milhões de anos.
Hipóteses em análise
O estudo não defende que uma catástrofe provoque diretamente outra. A proposta é diferente: vários sistemas da Terra poderão estar a responder, em simultâneo, a um mesmo mecanismo profundo que atua durante dezenas de milhões de anos.
Uma das hipóteses aponta para o interior do planeta. O manto terrestre está em constante movimento através de lentíssimas correntes de convecção. Alterações periódicas nessa circulação poderão influenciar o vulcanismo, a tectónica de placas e a formação de montanhas. Como todos estes processos estão interligados, pequenas mudanças nas profundezas da Terra podem acabar por afetar os oceanos, o clima e a biodiversidade à superfície.
Outra possibilidade envolve a interação entre a superfície e o interior da Terra. As variações de longo prazo na órbita terrestre alteram o clima e o nível do mar, redistribuindo enormes quantidades de água, gelo e sedimentos. Essa redistribuição poderá modificar gradualmente as tensões na crosta terrestre e favorecer atividade tectónica e vulcânica.
Matéria escura pode ser uma das causas
Michael Rampino explora ainda hipóteses mais especulativas, relacionadas com a viagem do Sistema Solar pela Via Láctea. À medida que o Sol oscila acima e abaixo do plano central da galáxia, essas passagens poderão perturbar gravitacionalmente a distante Nuvem de Oort, aumentando a probabilidade de impactos de grandes asteroides na Terra. Outra ideia, ainda mais controversa, sugere que matéria escura concentrada no plano galáctico poderia gerar pequenas quantidades de calor no interior do planeta. Contudo, atualmente não existe evidência direta que suporte qualquer destes mecanismos.
Os próprios autores sublinham que a hipótese continua longe de ser consensual. Reconstruir padrões ao longo de centenas de milhões de anos é uma tarefa complexa, porque o registo geológico é incompleto e a datação dos acontecimentos mais antigos envolve incertezas.
Por isso, o estudo não pretende encerrar o debate, mas reforçar a ideia de que poderá existir um “pulso” geológico de longo prazo.
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